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6) Guimarães Rosa
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Uma visita casual reparou que o filho mais velho de seu Florduardo
franzia a testa e parecia forcejar para ver as coisas. Era como
se a criança mirasse sempre uma parede de névoa. "Por
que aperta os olhos assim? Não é limpo da vista?",
comentou o visitante, antes de tirar seus óculos e colocá-los
no menino. "Olha, agora." Num repente, uma realidade nova
e diferente se abriu para João Guimarães Rosa, ou
Joãozinho, como os familiares o chamavam. Agora ele via os
grãozinhos de areia, as pedrinhas, os insetos passeando no
chão, as árvores e as caras das pessoas. "Os
buritis! As formiguinhas! Que lindo!" Os óculos revelaram
ao garoto a exuberância do mundo natural, um esplendor que
iria impregnar e transfigurar a paisagem rude do sertão de
Minas Gerais, cenário de seus romances monumentais. Habituado
a pegar as coisas para trazê-las até junto dos olhos,
Joãozito naquele dia descobriu que era míope. Ninguém
sabia. Pudera, não tinha oculista em Cordisburgo. Era uma
fatia de um Brasil intocado, um cafundó de Minas, onde o
escritor nasceu a 27 de junho de 1908.
Tropas de
boiadeiros
Em Cordisburgo, também não havia luz elétrica.
Joãozito era pego dormindo em sacos de arroz, com um livro
agarrado ao peito e uma vela acesa ao lado, no depósito do
armazém do pai, que abastecia as tropas de boiadeiros que
varavam a imensidão. No final do século XIX, o avô
materno do escritor, dono de terras na região, próxima
ao sertão de Minas, mandara roçar uma rua para construir
casas para cada um dos filhos. Nenhum deles criou raízes
naquela vasta porção do nada, exceto Chiquitita, ou
Maria Francisca, que se encantou pelos olhos azuis de Florduardo.
Guimarães
Rosa era o filho mais velho do casal e adorava puxar sabugos de
milho como se fossem boizinhos de carro. Dos sete aos 14 anos, colecionou
borboletas e formigas em vidros. Seu interesse pela História
Natural o levava também a alterar o curso dos fiozinhos d'água
que vinham do trabalho árduo das lavadeiras. Cada fiozinho
era um rio, Danúbio ou São Francisco, e passava por
cidades imaginárias. "Um dia hei de escrever um tratado
de brinquedos para meninos quietos", prometeu, certa vez.
Deliciava-se
com idiomas. Aprendeu sete, incluindo russo, japonês e esperanto.
Já estudava Medicina quando se apaixonou por uma colegial
de 16 anos, Lygia, futura esposa, em Belo Horizonte. Ia buscá-la
na porta da escola. "Que coincidência! Estava passando
agora." As coleguinhas de Lygia brincavam: "O Sr. Coincidência
já chegou?" Fez o parto da primeira filha, Vilma, mas
a carreira de médico não prosperou. Fez concurso para
o Itamaraty e virou diplomata.
Viajou para
Hamburgo, na Alemanha, nomeado cônsul-adjunto. A idéia
era buscar a família, mas dois motivos o fizeram mudar de
opinião. Estourou a Segunda Guerra Mundial e, o mais grave,
ele estava perdidamente apaixonado pela datilógrafa do consulado,
Aracy. "No dia em que voltou, não fui ao colégio
para esperá-lo no porto. Olhava, olhava, e não via
papai. Eram todos iguais, de óculos", contou a ISTOÉ
Agnes, a filha mais nova. A mãe mentiu que ele não
podia voltar ao convívio familiar porque, como diplomata,
era portador de segredos de guerra. Precisava ficar incomunicável.
Na verdade, a separação do casal era irremediável.
Ele assumiria ainda uma terceira paixão, Chiquita Marcondes
Bernardes. Era um homem que seguia seus instintos.
Em Grande
sertão: veredas, sua principal obra, narra o amor do
vaqueiro Riobaldo por Diadorim, mulher que se faz passar por homem
para participar das vaquejadas. Descreve fauna, flora e topografia
da paisagem sertaneja em minúcias. Além de viajar
ao sertão para colher relatos de vaqueiros, baseou-se também
nas lendas que o pai contava ao voltar de caçadas na região.
Fazia certo mistério, contudo, para esclarecer a fonte de
sua inspiração, segundo afirmou a ISTOÉ a filha
mais velha, Vilma. Quando ela lhe perguntou se conhecia, de fato,
o sertão, respondeu: "Nunca estive lá. Meu sertão
é metafísico." Morreu a 19 de novembro de 1967.
Três dias antes, ao tomar posse na Academia Brasileira de
Letras, havia dito: "As pessoas não morrem, ficam encantadas."
VOCÊ
SABIA?
Médico recém-formado, trabalhou em lugarejos que não
constavam no mapa. Cavalgava a noite inteira para atender a pacientes
que viviam em longíquas fazendas. As consultas eram pagas
com bolo, pudim, galinha e ovos. Sentia-se culpado quando os pacientes
morriam. Acabou abandonando a profissão. "Não
tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue",
conta Agnes, a filha mais nova.
OBRA-PRIMA:
· Sagarana (1946)
· Corpo de baile (1956)
· Grande sertão: veredas (1956)
· Tutaméia (terceiras estórias) (1967)
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