|
5) Érico Veríssimo
60,93%
dos votos
De madrugada, bateram à porta da farmácia com um homem
gravemente ferido, vítima de alguma brutalidade da polícia.
Érico Veríssimo era filho do dono da botica e devia
ter uns 14 anos, se tanto. Foi arrastado às pressas para
segurar a lâmpada à cabeceira da mesa de operação
num galpão no fundo do quintal. A primeira coisa que chamou
sua atenção foi o polegar decepado, preso à
mão do desconhecido só pelo tendão. Um golpe
de adaga havia descolado parte do couro cabeludo. Mas o ferimento
mais horripilante era um talho de navalha que rasgara a face do
lábio até a orelha. Naquela noite nasceu em mim o
sentimento de justiça e repugnância pela violência.
Continuei firme onde estava", contaria ele muito tempo depois.
"Tem-me animado até hoje a idéia de que o menos
que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades é
acender sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo,
evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia
aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Se não
tivermos lâmpada elétrica, acendamos nosso toco de
vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente,
como sinal de que não desertamos nosso posto."
A farmácia
Brasileira era o ponto de encontro de vadios e aposentados em Cruz
Alta (RS), onde Érico Veríssimo nasceu a 17 de dezembro
de 1905. O prático aviava as receitas "em meio duma
algazarra e de um vaivém de feira", contava Érico.
Homens agarravam criadas atrás das portas, vira-latas praticavam
sexo no quintal, onde ficava a sala de cirurgia de um médico
italiano "com voz de barítono e barba castanha que lhe
dava um ar de conde de opereta". A família vivia numa
casa colada à farmácia. Uma vez um gaiato largou um
rim deformado por um tumor que acabara de ser extirpado na soleira
da porta da cozinha. Cenas de Goya e Bosch se passavam diante dos
olhos opacos "duma melancolia de bugre" do menino.
O pai, Sebastião,
cultivava o comer e o beber bem, gravatas e roupas bonitas e, sobretudo,
a arte de fazer amor. "Mulher para ele era doença, não
havia hora ou lugar", dizia Érico. Sebastião
gastava tudo o que ganhava na farmácia com a boemia. Quando
a farmácia faliu, que passou a sustentar a casa foi Abeghail,
ou dona Bega, mãe do escritor, encurvada sobre a máquina
de costurar Singer.
À
procura do pai
Numa noite de dezembro de 1922, cansada das estrepolias extra-conjugais
do marido, dona Bega mandou um bilhetinho para Érico: "Vou
embora. Vens comigo?" Ele foi. "Considerando a época
e a cidade, foi um ato de admirável coragem moral."
Érico escreveu ao pai pedindo que se afastasse para não
mais atormentar a mãe. O velho o chamou num café:
"Rasga essa carta. Faz de conta que não a escreveste."
Ele rasgou. Em 1930, Sebastião foi para São Paulo
chamado por revolucionários. "Que pena! Esqueci a linguiça
frita que preparei para a viagem", lembrou ele, na despedida,
na estação de Cruz Alta. Érico embarcou num
táxi Ford-de-bigode e apanhou rápido a linguiça.
Quando voltou, o trem já se pusera em movimento e o pai estava
na plataforma do último vagão. Correu para lhe entregar
o pacote e, respiração ofegante, viu a figura paterna
sumir, com uma das mãos ele acenava, com a outra apertava
contra o peito a linguiça. Nunca mais o viu. Sebastião
morreu três anos depois de derrame cerebral, na capital paulsita.
A literatura
para Érico foi a procura do pai e da casa perdidos. Era um
escritor cosmopolita a ponto de plantar na provincianíssima
Porto Alegre de 1934 um edifício de 34 andares, em Olhai
os lírios do campo, arranha-céu que só
virou realidade 25 anos depois. Não sabia montar a cavalo
e, perguntado se usava bombachas, respondeu: "Não aprecio
carnaval". Mas escreveu a mais bela saga da colonização
gaúcha, O Tempo e o vento, e durante décadas
foi um dos raros escritores brasileiros a sobreviver do seu ofício.
Casou com Mafalda,
com quem teve dois filhos (Clarissa e o escritor Luís Fernando).
Faleceu a 28 de novembro de 1975 ao sofrer o segundo enfarte. Nos
anos 70, o casal caminhava de manhã, de braço dado,
nas colinas do bairro Petrópolis, em Porto Alegre, com passos
de "velhas inglesas, parando a qualquer pretexto", a conselho
do cardiologista. À tarde, Érico escrevia no porão
da casa. Mafalda, sentada na poltrona ao lado, fazia tricô
ou bordado, em silêncio absoluto, cúmplice e companheira.
"Era a nossa vidinha", contou ela a ISTOÉ.
VOCÊ
SABIA?
Era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernado,
também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico
fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando
chegavam à estação final.
OBRA-PRIMA:
· Clarissa (1933)
· Caminhos cruzados (1935)
· O tempo e o vento, em três volumes (de 1949 a 1962)
· O senhor embaixador (1964)
· Incidente em Antares (1971)
|