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4) Jorge Amado
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dos votos
Hospedado na casa de Jorge Amado, o poeta chileno Pablo Neruda vangloriava-se
da qualidade dos vinhos de sua terra. "Os brasileiros não
chegam aos pés dos vinhos do Chile", provocou. Resolveram
fazer um teste. Após a noite de bebedeira, enquanto Neruda
roncava, o escritor baiano pegou as garrafas vazias do divino produto
dos Andes e encheu-as de vinho tipo sangue-de-boi, da linha mais
popular fabricada no Brasil. No almoço, para comemorar a
vitória do amigo, serviu a bebida "falsificada"
e Neruda nem percebeu a diferença. Gritava, eufórico,
que os chilenos eram os campeões da vinicultura.
Jorge Amado
de Faria costuma pregar peças nos mais chegados. Deve ter
pregado muitas porque a lista de amigos do escritor não é
pequena. Jorge tem simplicidade e carisma que agradam a gregos e
baianos. Pode ser, ao mesmo tempo, o confidente do guardador de
carros e grande camarada do líder cubano Fidel Castro. Há
mais de 60 anos ele deixou a Bahia, (nasceu em Itabuna, em 1912),
para ganhar o mundo. Morou em Paris e conhece cada canto da Europa,
mas quase tudo o que escreveu fala da gente simples do Nordeste
e tem sua querida Bahia como cenário.
São 32
livros, traduzidos para 49 idiomas. Já vendeu, desde O
País do Carnaval, o primeiro livro, de 1931, quase 20
milhões de exemplares no Brasil e no exterior. Capitães
de areia, de 1937, é o recordista: quatro milhões.
Nada mal para um "contador de histórias", como
ele gosta de se definir, que não tinha muitas pretensões
na vida. O pai era um proprietário de terras na região
do cacau, sul da Bahia, e Jorge fez o primário em Ilhéus.
Foi cursar Direito no Rio e na mesma época publicava os livros
que lhe deram projeção nacional: Cacau, de
1933, e Jubiabá, de 1935.
Os cavalos
da imperatriz
Nos anos 40, ingressou no Partido Comunista Brasileiro e foi eleito
deputado federal por São Paulo. A carreira política
terminou quando o PCB foi posto na clandestinidade. Exilou-se do
País e foi respirar novos ares na Europa e na Ásia
ao lado da escritora Zélia Gattai, com quem se casou em 1945
e vive até hoje. "Cumpri minha tarefa como comunista
e abandonei o Partidão em 1955 porque não queria mais
receber ordens", disse certa vez. Hoje em dia tem posições
políticas moderadas. "Nos primeiros livros, tudo era
maniqueísta: o rico é ruim e só o pobre presta.
Mas vi que as coisas são mais complexas e passei a ter horror
a ideologias", diz. É grande amigo de Antônio
Carlos Magalhães e acredita que Fernando Henrique pode se
tornar um grande estadista.
No mínimo,
a experiência no PCB contribuiu para que Jorge diversificasse
suas troças. Nos anos 50, convidado oficial do governo chinês,
foi assistir a um espetáculo da Ópera de Pequim e
sentou-se na poltrona ao lado do ministro da Cultura de Cuba. O
intérprete do cubano dormiu e ele passou a perguntar ao escritor
tudo o que acontecia no palco. Quando em cena apareceram vários
soldados, Jorge disse: "A imperatriz vai se deitar com todos
os soldados." E o cubano arregalou os olhos. Depois, entram
alguns cavalos: "Agora é a vez de todos os cavalos se
divertirem com a moça." Foi demais. O ministro de Fidel
se retirou do teatro e, no dia seguinte, fez uma queixa formal na
reunião dos camaradas. Jorge, quietinho, fingiu que não
ouviu.
A mania de zombar
dos outros fez com que alguns dessem o troco na mesma moeda. Em
Portugal, passeando pelas ruas de Lisboa com o escritor conterrâneo
João Ubaldo Ribeiro, foi cercado por uma multidão
que queria saber se aquele 'tal' Jorge Amado era o autor de O
Bem-Amado, novela de enorme sucesso em terras lusitanas. Ubaldo
confirmou, mas disse que ele usava o pseudônimo Dias Gomes
e, às vezes, assinava Janete Clair. Em meio às
gozações, sabe manter as amizades. Em 1974, faliu
a editora Martins que tinha os direitos de seus livros. O amigo
Antônio Machado passou a ser o novo editor e Jorge fez questão
de incluir uma nova cláusula no contrato. Se uma das partes
rompesse o acordo, ficava proibido o rompimento da amizade.
Turistas
no jardim
Ao lado de Zélia, vive hoje em Salvador, no bairro do Rio
Vermelho. A casa é um ponto turístico da cidade. Os
city-tours das agências prometem visitas ao famoso casal e,
volta e meia, Jorge topa com pessoas estranhas passeando pelo jardim.
Um dia, Zélia ouviu o marido gritar: "Corre, mulher!
Estão invadindo nossa casa outra vez!" No quarto de
dormir, havia dois argentinos deitados na cama posando para fotos.
A empregada era crente e tinha pena dos turistas. Deixava qualquer
um entrar e ainda prestava serviços de guia: "Aqui é
o quarto, aqui é o banheiro deles..."
Aos 87 anos,
Jorge tem dificuldade para ler e não gosta de badalações.
A popularidade do escritor aumentou muito, a partir dos anos 70,
com a adaptação de suas obras para o cinema e a televisão,
como Gabriela e Tieta do agreste. Obras que ele faz
questão de dizer: "Falam sobre o povo e para o povo."
VOCÊ
SABIA?
Para autorizar a adaptação de Gabriela para
a tevê, Jorge impôs que o papel principal fosse dado
a Sônia Braga. "Por quê?", perguntaram os
jornalistas. Jorge respondeu: "O motivo é simples: nós
somos amantes." Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou
mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e,
muito formal, disse: "Muito prazer, encantado." Era piada.
Os dois nem se conheciam até então.
OBRA-PRIMA:
· Capitães de areia (1937)
· Terras do sem-fim (1942)
· Gabriela, cravo e canela (1958)
· Dona Flor e seus dois maridos (1958)
· Tenda dos milagres (1970)
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