|
2) Carlos Drummond de Andrade
71,99%
dos votos
O homem de óculos, sisudo e magricela apressa o passo até
alcançar a criança agarrada ao braço da mãe.
De repente, ele puxa a dentadura para fora, arregala os olhos e
abre as mãos como se fossem garras. "Olha lá!
O monstro!", berra o menino. A mulher, aflita, espia o velhinho,
que está outra vez tímido e compenetrado. "Pára
com isso, não me faz passar vergonha." Mal ela retoma
o andar, o garoto olha para trás e depara com o desconhecido
de lentes ferozes. "Socorro!" A essa altura, o vampiro
está outra vez carrancudo. "Pára de mentir, moleque!
Vai apanhar quando chegar em casa!" A mãe arrasta com
força o braço da criança, que arrisca virar-se
uma última vez para olhar a terrível criatura dando-lhe
um adeuzinho simpático e amistoso.
Carlos Drummond
de Andrade, "o poeta de todas as pessoas que nasceram no Brasil
no século XX", segundo o diretor de teatro Flávio
Rangel, era um urso polar de tão arredio. Mas não
renunciava a brincadeiras como a do vampiro, que praticou com os
três netos em casa e, depois que eles cresceram, transferiu
aos pequenos anônimos que encontrava na rua. Era a combinação
exata de um espírito rebelde e chapliniano e um comportamento
social irretocável. "Era incapaz de furar uma fila,
embora, reconhecido por caixas de bancos e supermercados, tivesse
inúmeras oportunidades", contou a ISTOÉ o neto
Pedro Augusto, 39 anos. Odiava homenagens e nunca aceitou o título
de poeta maior. "O Murilo Mendes mede 1,80m, oito centímetros
a mais." Mas, ao conversar com as moças, tinha a mania
de repousar a mão no ombro delas, sem malícia. "Aí
a mão ia descendo até encontrar a alça do sutiã,
que ele agarrava e soltava, fazendo plim, plim, plim...", conta
o cartunista Ziraldo.
Filho do fazendeiro
Carlos de Paula Andrade e de dona Julieta Augusta, nasceu a 31 de
outubro de 1902, em Itabira (MG). O modo de andar com os braços
colados às pernas e a cabeça baixa ele aprendeu no
colégio de jesuítas de Nova Friburgo (RJ), onde passou
dois anos até ser expulso, em 1919, por "insubordinação
mental". Estudante de Farmácia, em Belo Horizonte, ajudou
a tocar fogo num bonde num protesto contra o aumento do preço
do cinema. A piromania nem sempre tinha motivo ideológico.
Incendiou um varal de roupas da casa de umas moças. Aí
bateu à porta se oferecendo para apagar o fogo. Queria observá-las
de camisola fugindo das chamas. Farmacêutico de canudo na
mão, negou-se a exercer a profissão para "preservar
a saúde dos outros".
Em 1925, casou
com Dolores, mas também amou Lygia Fernandes, romance paralelo
que durou 35 anos. Carlos tinha 49 anos (25 mais do que Lygia) e
era chefe de arquivo do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional quando ela foi contratada como bibliotecária. "A
paixão foi fulminante", afirmou ela ao jornalista Geneton
Moraes Neto. Era um amor secreto, mas nem tanto. "Todo o Brasil
sabia. Dolores era para as lidas domésticas (Carlos não
sabia cozinhar um ovo). Lygia, mulher culta, era a verdadeira paixão",
garante a italiana Vana Piraccini, dona da Livraria Leonardo da
Vinci, no centro do Rio, que ele frequentou durante três décadas.
Carlos passava a tarde no apartamento da namorada. Dançava
como um cossaco na sala ao encontrá-la triste ou abatida.
Ele se agachava, estirava uma perna, encolhia a outra e gritava:
"Ei!" Uma vez, a mãe dela, que tinha a chave, fez
uma visita inesperada. Lygia saltou da cama e mandou o poeta, em
trajes sumários, se esconder atrás da porta. "Mãe,
tranque a porta porque estou gripada e não posso tomar vento
nas costas", inventou.
A mulher que
ele mais amou, entretanto, foi a filha Maria Julieta (o outro filho,
Carlos Otávio, nascido em 1927, viveu apenas meia hora),
amiga e confidente, que morreu de câncer, em 1987. Carlos
ficou desolado e pediu à sua cardiologista que lhe receitasse
um "infarto fulminante". Não deu outra. Dias depois,
a caminho do hospital, com edema agudo e falência cardíaca,
pediu desculpas à médica: "Sou desastrado. Estou
atrapalhando sua vida. Tanta coisa para fazer numa sexta-feira à
noite." Morreu a 17 de agosto, numa clínica em Botafogo,
de mãos dadas com a namorada, Lygia.
VOCÊ
SABIA?
Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou
a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém
notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos. "Se não
fizer isso, saio matando gente pela rua." Estraçalhou
uma camisa nova em folha do neto. "Experimentei, ficou apertada,
achei que tinha comprado o número errado. Mas não
se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha".
OBRA-PRIMA:
· Brejo das almas (1934)
· Sentimento do mundo (1940)
· A rosa do povo (1945)
· Fazendeiro do ar (1954)
· Boitempo (1968)
· As impurezas do branco (1973)
|