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13) Manuel Bandeira
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Os vizinhos de Manuel Bandeira na rua do Curvelo, em Santa Tereza,
região central do Rio de Janeiro, já sabiam: se o
poeta pegasse o bonde com um ar de chateação, mais
tarde, à noite, o barulho da máquina de escrever não
deixaria ninguém dormir. A expressão do rosto denunciava
seu destino: o hospital, para mais uma bateria de exames do pulmão.
Chegava em casa deprimido e os momentos de tristeza eram os mais
produtivos, rendiam páginas e páginas de poemas.
Em 1904, aos
18 anos (nasceu a 19 de abril de 1886, no Recife), Manuel Carneiro
de Souza Bandeira Filho foi passar férias em Itaipava, região
serrana fluminense, e sentiu-se indisposto depois de um passeio
a cavalo. Acordou no meio da noite com o lençol sujo de sangue:
estava com tuberculose, doença fatal no início do
século. Para cuidar da saúde, desistiu do curso de
Arquitetura da Escola Politécnica de São Paulo, no
qual estava matriculado. Até o fim da vida foi assim: amargurado,
era obrigado a renunciar a quase tudo devido à frágil
saúde. Levou uma vida reclusa e se dedicou exclusivamente
a escrever poesias, crônicas e fazer traduções.
Foi o "São
João Batista do modernismo brasileiro", como o amigo
Mário de Andrade gostava de chamá-lo. Muito antes
da Semana de Arte Moderna, em 1922, Bandeira já tinha feito
uso do verso livre em seus primeiros livros, A cinza das horas,
de 1917, e Carnaval, de 1919. Os modernistas viram nele
um precursor do movimento, mas ele se recusou a comparecer à
Semana para não atacar os "velhos mestres parnasianos".
Participou com a poesia Os sapos, que foi vaiada, assim como
todos os outros eventos da programação. A solidão,
o sofrimento e o medo da morte foram a fonte de inspiração
de onde saíram poemas como Pneumotórax, de
1930: E então, doutor, não é possível
tentar o pneumotórax?/Não. A única coisa a
fazer é dançar um tango argentino. Mas a dor não
era o único motivo para escrever. Da janela de casa, passava
horas observando os moleques brincarem na rua, os casais de namorados
e tudo o que fazia parte do cotidiano de Santa Tereza para depois
transformar em crônicas.
Escrevia sem
compromissos e não modificava nada, deixava a inspiração
fazer o que quisesse. Porém, ninguém acreditou quando
contou que Vou-me embora para Pasárgada, um de seus
mais belos poemas, nunca fora reconstruído. A primeira vez
que ouviu a palavra Pasárgada ainda era criança e
a única coisa que lembrava era o significado: "tesouro
dos persas". Mais de 20 anos depois, num momento de profunda
tristeza, a poesia lhe veio inteirinha na mente. Quando pegou o
lápis para escrevê-la, era tarde. Tinha esquecido tudo.
Só alguns anos mais tarde, deprimido novamente, os versos
voltaram. "Saiu sem esforço, como se estivesse pronta
dentro de mim."
Como se não
bastassem os incômodos causados pela tuberculose, Bandeira
perdeu o pai, a mãe, a irmã e o irmão num intervalo
de seis anos, quando ainda era jovem. Embora tivesse todos os motivos
para ser um sujeito mal-humorado, tinha sempre um sorriso simpático
estampado no rosto. Era míope e dentuço, mas ria dos
próprios defeitos e dizia que adorava "ser fotografado,
traduzido, musicado..." Tinha mania de limpeza e, por azar,
o único telefone da rua do Curvelo era o seu, que ele emprestava
diariamente para os vizinhos. Depois tinha prazer em limpar e desinfetar
cuidadosamente o aparelho. Embora fosse um eterno apaixonado pelas
mulheres, nunca se casou porque "perdeu a vez", como costumava
dizer, mas tinha uma imensidão de amigos que viviam lhe visitando.
Jamais assumiu
nenhum compromisso, acreditando que morreria no dia seguinte. A
única vez que recebeu pagamento adiantado por uma obra foi
para escrever Guia de Ouro Preto, fruto da viagem que fez
com Mário de Andrade e outros modernistas pelo interior do
Brasil. No fim da vida, acordava às 7 e meia em ponto e dormia
exatamente à meia-noite, depois de passar o dia inteiro na
máquina de escrever. Morreu em 1968, aos 82 anos, de parada
cardíaca, e não de tuberculose, como sempre acreditou.
VOCÊ
SABIA?
Sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos,
numa viagem de trem. Puxou conversa: "O senhor gosta de Camões?"
Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre
não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado
a história para impressionar os amigos.
OBRA-PRIMA:
· A cinza das horas (1917)
· Carnaval (1919)
· Poesias (1924)
· Libertinagem (1930)
· Estrela da manhã (1936)
· Estrela da vida inteira (1966)
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