|
12) Clarice Lispector
34,3%
dos votos
É sabido que, quanto mais dissecado, mais inatingível
se revela o mistério último das coisas. Que mistério
tem Clarice? O olho violeta espeta como espada sem revelar a resposta.
A pele alva de ucraniana, a boca pintada com batom cor de carne,
um traço louro quase imperceptível nas sobrancelhas,
o rosto anguloso desenhado a bico de pena, o corpo esguio de pantera,
afinal, onde está o fundo da verdade angustiada de Clarice?
Sensibilidade à flor da pele, tinha a aparência frágil
de uma feiticeira assustada com os próprios poderes. Essa
hipótese ganha força se levarmos em conta que participou,
em 1975, de um congresso de bruxaria em Bogotá, na Colômbia,
mas ela voltou reclamando de tédio e dor de cabeça.
"Eu peço a vocês para não ouvirem só
com o raciocínio porque, se tentarem apenas raciocinar, tudo
o que vai ser dito escapará ao entendimento", dizia.
É provável que tenha sido apenas uma fada a segurar
a varinha de condão com a mão mutilada (incendiou
o quarto ao dormir com um toco de cigarro aceso entre os dedos,
em 1966), abrindo portas para mundos mágicos, ao mesmo tempo
maravilhosos e sombrios, dilacerados e solitários.
Diz a lenda
russa que, uma vez enferma, a mulher alcança a cura engravidando.
Foi por isso que Pinkas e Mania Lispector, casal de judeus ucranianos,
conceberam Clarice. Mania estava paralítica, possivelmente
vítima do mal de Parkinson. "Então, fui deliberadamente
criada: com amor e esperança. Só não curei
minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me
para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem
comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado."
Clarice Lispector nasceu a 10 de dezembro de 1920 na aldeia de Tchetchelnik
na Ucrânia (na época, parte do território da
Rússia), próximo à fronteira com a Moldávia,
em plena rota de fuga.
Ladrões
cossacos
A família judia escapava da perseguição do
governo russo. A travessia de alto risco durou dois anos. Havia
assaltantes cossacos espreitando na estrada e os refugiados escondiam
as jóias dentro dos trapos que usavam como roupas. Pinkas
arrumou algum dinheiro fazendo sabão até chegar a
Budapeste, na Romênia, quando conseguiu visto no consulado
da Rússia. Embarcaram no vapor Cuyabá, em Hamburgo,
na Alemanha, dividindo com outros 25 imigrantes o balanço
das ondas no porão da terceira classe.
No Recife, o
pai ganhou a vida no lombo de um burro, como mascate. No início,
almoço era laranja e pão. Com seis anos, Clarice inventava
histórias que não tinham fim. Quando atingia um ponto
em que era impossível prosseguir - todos os personagens mortos,
por exemplo - ela dizia: "Não estavam bem mortos",
e recomeçava. Pensava que os livros nasciam espontaneamente,
como bichos e árvores. Ao saber que eram feitos por escritores,
quis ser um deles. A mãe faleceu em 1930. O pai se foi dez
anos depois, quando já estavam no Rio de Janeiro, onde Clarice
iniciou a carreira literária. Seu destino era nômade.
Casou com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos
(Pedro e Paulo) e correu o mundo. Viveram em Nápoles (Itália),
Berna (Suíça) e Washington (Estados Unidos), até
ela se separar e fincar âncora no Leme, na zona sul do Rio,
em 1959. "Era fiel a seus sentimentos, acima de tudo",
afirma a biógrafa Teresa Ferreira.
Internada com
obstrução intestinal, a caminho do hospital, afirmou:
"Vamos brincar de faz-de-conta. Não estamos indo para
o hospital, eu não estou doente e nós estamos indo
para Paris." O motorista do táxi virou-se: "Posso
ir junto?" "Pode levar a namorada também",
respondeu Clarice. Tinha um adenocarcinoma de ovário, o caso
era irremediável. Em 8 de dezembro de 1977, vomitou sangue
e tentou sair do quarto, mas foi barrada por uma enfermeira. "Você
acaba de matar o meu personagem", disse Clarice. Morreu na
manhã seguinte. Ainda ditou para a amiga Olga: "Eu,
eu, se não me falha a memória, morrerei." Ficou
o rastro do cometa, o pó das estrelas.
VOCÊ
SABIA?
Era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para
os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era
comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser
servida.
OBRA-PRIMA:
· Perto do coração selvagem (1943)
· Laços de família (1960)
· A maçã no escuro (1961)
· A paixão segundo G. H. (1964)
· A via crucis do corpo (1974)
|