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EDITORIAL
Sabadoyles
Guimarães Rosa deu o título de Terceiras estórias
a um de seus livros. Não era segredo que havia escrito outro
chamado Primeiras estórias. Onde estavam as segunda
estórias, que nunca saíram? "Afinal, explique
a confusão", pediram num almoço na editora José
Olympio. Rosa, com o garfo na mão, apontou para o advogado
da editora, Plínio Doyle: "Todos sabem que o Doyle não
sossega sem um texto nas mãos. Pois ele me pediu os originais
das Segundas estórias e até hoje não
me devolveu." Pura invenção. Outra vez, Doyle
mostrou um original de Castro Alves, documento que ele julgava da
maior importância, aos amigos reunidos em sua casa. Carlos
Drummond de Andrade, sentado na "bancada mineira", o sofá
que compartilhava com Alphonsus de Guimarães e Pedro Nava,
falou baixinho, mas suficientemente alto para que ele ouvisse: "Coitado
do Doyle! Castro Alves assinava sem cortar a letra t. Olha
esse papel: o t está cortado. É cópia!"
Tudo mentira. Era brincadeira do poeta maior.
Houve um tempo em que as relações humanas eram mais
afáveis. Uma das expressões mais belas dessa cordialidade
eram as reuniões semanais, aos sábados à tarde,
na casa de Doyle, hoje com 92 anos, na pacata Barão de Jaguaripe,
em Ipanema. Era ponto de encontro de alguns dos intelectuais de
maior envergadura do País neste século. E era apenas
uma reunião entre amigos. Quem batizou foi Raul Bopp. "Sábado
do Doyle. Eram três do, um desperdício.
Ficou o neologismo sabadoyle. Pegou", conta o anfitrião.
Os sabadoyles duraram 34 anos. Foram 1.708 reuniões, até
1998. "Qual é a explicação para tal façanha,
poeta?", alguém perguntou a Drummond. "É
milagre do Doyle." O advogado nunca escreveu uma linha sequer,
exceto petições e memorandos. Mas foi parceiro de
uma geração inigualável de escritores e poetas
brasileiros, um aglutinador, companhia amistosa e confiável.
Uma lição de fraternidade e civilidade. "Esse
privilégio eu tive", diz ele. "Todos já
morreram. Fiquei eu. Não sei por quê."
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