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O Brasileiro do Século

8) Barão do Rio Branco
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Dá para imaginar como eram nossas fronteiras no início do século - áreas quase sempre inacessíveis, uma vastidão entregue a ninguém. As linhas divisórias com os outros países eram escorregadias e mudavam de lugar conforme o interesse de governantes ou a voracidade dos colonizadores. Neste cenário inóspito e arriscado, um brasileiro alcançou a façanha de garantir ao País um território equivalente a 900 mil quilômetros quadrados, sem disparar um só tiro - o carioca José Maria da Silva Paranhos Júnior, mais conhecido como Barão do Rio Branco. Grande parte do mapa brasileiro foi riscada pela mão habilidosa do diplomata, que dobrou nossos vizinhos sul-americanos, além de definir a divisa com europeus das Gui-anas Francesa e Holandesa. "Rio Branco legou à Nação as condições para viver em paz definitiva com seus 11 vizinhos. Sua gigantesca obra diplomática nos livrou para sempre das desgastantes e penosas questões de fronteira, que até hoje atormentam tantos países latino-americanos", declarou a ISTOÉ o ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia.

Vencendo pelo cansaço
A assinatura do Tratado de Petrópolis a 17 de novembro de 1903, pondo fim ao impasse entre Brasil e Bolívia pela posse do Acre, é um bom exemplo da sagacidade de Rio Branco. Em meio às negociações, os nervos estavam à flor da pele e ninguém excluía o uso da força para resolver o impasse. À certa altura das conversações diplomáticas, Rio Branco mostrou-se lento, moroso demais, como se apenas apalpasse cautelosamente o terreno minado. Os próprios colegas do Itamaraty estavam preocupados e inquietos sem entender a estratégia de Rio Branco. Eis que, de repente, ele passou a ditar um ritmo acelerado ao diálogo, empilhando argumentos irrefutáveis sobre a mesa, para espanto e confusão dos diplomatas da Bolívia, até conduzir a negociação ao fim que havia previsto e determinado desde o início. Matou os bolivianos no cansaço, literalmente. Depois comentou: "Deixe que os outros se agitem até o esgotamento. Não podemos cansar de aguardar o instante próprio para falar ou agir."

O senso da oportunidade e a sobriedade do discurso eram traços dominantes de sua personalidade. Tinha o domínio próprio dos grandes estadistas. Em debates diplomáticos, muitas vezes apaixonados, com os representantes de países sul-americanos, a sua voz não se traía jamais em gritos. A atitude nunca descambava para gestos descompassados. "É um nome universal, uma reputação imaculada, uma glória brasileira", admirava-se Rui Barbosa.

Identificação com o pai
Nascido a 20 de abril de 1845, Rio Branco cresceu admirando intensamente o pai, o também diplomata e senador Visconde do Rio Branco, uma das figuras mais importantes do II Império - negociou o fim da Guerra do Paraguai em 1869 e, dois anos mais tarde, nomeado presidente do Conselho de Ministros, promulgou a Lei do Ventre Livre, que dava liberdade aos filhos de escravos. Em casa, assistia à gestação dos discursos empolgantes elaborados pelo velho. Sentia-se plenamente identificado, sofria com ele, aplaudia sua retórica brilhante. Ainda rapazote, acompanhou o Visconde em suas andanças no Sul do País e passou a se interessar pelas pendengas fronteiriças, tão comuns na época.

Depois de estudar no tradicional Colégio de Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, aos 17 anos o futuro Barão do Rio Branco transferiu-se para São Paulo a fim de ingressar na Faculdade de Direito, curso que completaria no Recife. Antes de se formar em 1866, dera vazão a seu talento de historiador precoce ao publicar na Revista Popular a biografia do comandante do navio Imperatriz, Barroso Pereira, além de Episódios da Guerra do Prata, sob o pseudônimo X, na Revista do Instituto Científico. Embarcou para a Europa, em 1867, após ganhar 12 contos de réis numa loteria.

Ao voltar, foi nomeado professor de História do Brasil na escola em que estudara, o Dom Pedro II. Graças ao prestígio do pai, foi eleito em 1969 deputado geral por Mato Grosso. Apesar de tudo parecer andar nos eixos, Rio Branco desagradava ao pai por ser um rapaz boêmio e frequentar os badalados cafés da época. No Alcazar Lyrique Français, na rua Uruguaiana, no centro do Rio, conheceu a dançarina belga Marie Philomène.

Escândalo passional
Em pouco tempo, a roda elegante que se reunia no teatrinho francês tinha um só assunto: o escandaloso romance de Rio Branco com a dançarina. A fofoca aumentou até que, por pressão do Visconde de Rio Branco, na época chefe do gabinete ministerial, Marie Philomène embarcou - grávida - em 1873 para a França, onde nasceu o primeiro dos cinco filhos que o Barão teve com ela. Desafiando o pai, ele chamou a mulher e o filho de volta ao Brasil. A desavença familiar não impediu que ele ganhasse o apoio do Visconde para assumir o cargo de cônsul em Liverpool, na Inglaterra, para onde mudou-se com a dançarina e a criança em 1876.

O pai já havia morrido de câncer quando, em 1883, Rio Branco foi encarregado de representar o País na Feira de São Petersburgo, na Rússia. Ao fim da missão, recebeu o título de conselheiro e, em 1888, o de barão. Em 1901, o Barão do Rio Branco voltou ao País para, então, se transformar na figura central da diplomacia brasileira, assumindo o Ministério das Relações Exteriores. Em pouco tempo, tornou-se figura popular a ponto de ter sua candidatura cogitada para a Presidência da República, em 1909, na sucessão de Afonso Pena. Mas ele não quis. No fim da vida, provou mais uma vez seu caráter justo e correto ao devolver espontaneamente ao Uruguai o direito de condomínio e jurisdição sobre a Lagoa Mirim e o rio Jaguarão, em gesto inédito na história das relações internacionais. Morreu a 10 de fevereiro de 1912, aos 66 anos, sendo sepultado ao lado do pai.

VOCÊ SABIA?
Ainda estudante, Rio Branco costumava dormir no chão pelo menos uma vez por semana. Usava como travesseiro um maciço volume de Direito. Nesse dia, fazia jejum em que só bebia água, às vezes café. "É uma defesa contra o prazer do conforto", justificava ele.