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8) Barão do Rio Branco
40,3%
dos votos
Dá para imaginar como eram nossas fronteiras no início
do século - áreas quase sempre inacessíveis,
uma vastidão entregue a ninguém. As linhas divisórias
com os outros países eram escorregadias e mudavam de lugar
conforme o interesse de governantes ou a voracidade dos colonizadores.
Neste cenário inóspito e arriscado, um brasileiro
alcançou a façanha de garantir ao País um território
equivalente a 900 mil quilômetros quadrados, sem disparar
um só tiro - o carioca José Maria da Silva Paranhos
Júnior, mais conhecido como Barão do Rio Branco. Grande
parte do mapa brasileiro foi riscada pela mão habilidosa
do diplomata, que dobrou nossos vizinhos sul-americanos, além
de definir a divisa com europeus das Gui-anas Francesa e Holandesa.
"Rio Branco legou à Nação as condições
para viver em paz definitiva com seus 11 vizinhos. Sua gigantesca
obra diplomática nos livrou para sempre das desgastantes
e penosas questões de fronteira, que até hoje atormentam
tantos países latino-americanos", declarou a ISTOÉ
o ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia.
Vencendo
pelo cansaço
A assinatura do Tratado de Petrópolis a 17 de novembro de
1903, pondo fim ao impasse entre Brasil e Bolívia pela posse
do Acre, é um bom exemplo da sagacidade de Rio Branco. Em
meio às negociações, os nervos estavam à
flor da pele e ninguém excluía o uso da força
para resolver o impasse. À certa altura das conversações
diplomáticas, Rio Branco mostrou-se lento, moroso demais,
como se apenas apalpasse cautelosamente o terreno minado. Os próprios
colegas do Itamaraty estavam preocupados e inquietos sem entender
a estratégia de Rio Branco. Eis que, de repente, ele passou
a ditar um ritmo acelerado ao diálogo, empilhando argumentos
irrefutáveis sobre a mesa, para espanto e confusão
dos diplomatas da Bolívia, até conduzir a negociação
ao fim que havia previsto e determinado desde o início. Matou
os bolivianos no cansaço, literalmente. Depois comentou:
"Deixe que os outros se agitem até o esgotamento. Não
podemos cansar de aguardar o instante próprio para falar
ou agir."
O senso da oportunidade
e a sobriedade do discurso eram traços dominantes de sua
personalidade. Tinha o domínio próprio dos grandes
estadistas. Em debates diplomáticos, muitas vezes apaixonados,
com os representantes de países sul-americanos, a sua voz
não se traía jamais em gritos. A atitude nunca descambava
para gestos descompassados. "É um nome universal, uma
reputação imaculada, uma glória brasileira",
admirava-se Rui Barbosa.
Identificação
com o pai
Nascido a 20 de abril de 1845, Rio Branco cresceu admirando intensamente
o pai, o também diplomata e senador Visconde do Rio Branco,
uma das figuras mais importantes do II Império - negociou
o fim da Guerra do Paraguai em 1869 e, dois anos mais tarde, nomeado
presidente do Conselho de Ministros, promulgou a Lei do Ventre Livre,
que dava liberdade aos filhos de escravos. Em casa, assistia à
gestação dos discursos empolgantes elaborados pelo
velho. Sentia-se plenamente identificado, sofria com ele, aplaudia
sua retórica brilhante. Ainda rapazote, acompanhou o Visconde
em suas andanças no Sul do País e passou a se interessar
pelas pendengas fronteiriças, tão comuns na época.
Depois de estudar
no tradicional Colégio de Dom Pedro II, no Rio de Janeiro,
aos 17 anos o futuro Barão do Rio Branco transferiu-se para
São Paulo a fim de ingressar na Faculdade de Direito, curso
que completaria no Recife. Antes de se formar em 1866, dera vazão
a seu talento de historiador precoce ao publicar na Revista Popular
a biografia do comandante do navio Imperatriz, Barroso Pereira,
além de Episódios da Guerra do Prata, sob o pseudônimo
X, na Revista do Instituto Científico. Embarcou para a Europa,
em 1867, após ganhar 12 contos de réis numa loteria.
Ao voltar, foi
nomeado professor de História do Brasil na escola em que
estudara, o Dom Pedro II. Graças ao prestígio do pai,
foi eleito em 1969 deputado geral por Mato Grosso. Apesar de tudo
parecer andar nos eixos, Rio Branco desagradava ao pai por ser um
rapaz boêmio e frequentar os badalados cafés da época.
No Alcazar Lyrique Français, na rua Uruguaiana, no centro
do Rio, conheceu a dançarina belga Marie Philomène.
Escândalo
passional
Em pouco tempo, a roda elegante que se reunia no teatrinho francês
tinha um só assunto: o escandaloso romance de Rio Branco
com a dançarina. A fofoca aumentou até que, por pressão
do Visconde de Rio Branco, na época chefe do gabinete ministerial,
Marie Philomène embarcou - grávida - em 1873 para
a França, onde nasceu o primeiro dos cinco filhos que o Barão
teve com ela. Desafiando o pai, ele chamou a mulher e o filho de
volta ao Brasil. A desavença familiar não impediu
que ele ganhasse o apoio do Visconde para assumir o cargo de cônsul
em Liverpool, na Inglaterra, para onde mudou-se com a dançarina
e a criança em 1876.
O pai já
havia morrido de câncer quando, em 1883, Rio Branco foi encarregado
de representar o País na Feira de São Petersburgo,
na Rússia. Ao fim da missão, recebeu o título
de conselheiro e, em 1888, o de barão. Em 1901, o Barão
do Rio Branco voltou ao País para, então, se transformar
na figura central da diplomacia brasileira, assumindo o Ministério
das Relações Exteriores. Em pouco tempo, tornou-se
figura popular a ponto de ter sua candidatura cogitada para a Presidência
da República, em 1909, na sucessão de Afonso Pena.
Mas ele não quis. No fim da vida, provou mais uma vez seu
caráter justo e correto ao devolver espontaneamente ao Uruguai
o direito de condomínio e jurisdição sobre
a Lagoa Mirim e o rio Jaguarão, em gesto inédito na
história das relações internacionais. Morreu
a 10 de fevereiro de 1912, aos 66 anos, sendo sepultado ao lado
do pai.
VOCÊ
SABIA?
Ainda estudante, Rio Branco costumava dormir no chão pelo
menos uma vez por semana. Usava como travesseiro um maciço
volume de Direito. Nesse dia, fazia jejum em que só bebia
água, às vezes café. "É uma defesa
contra o prazer do conforto", justificava ele.
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