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6) Betinho
42,4%
dos votos
Ele só andava correndo. A pé, enquanto pôde,
era ligeiro, graças ao corpo magro - cerca de 47 quilos.
Mas era no volante que podia exercitar o gosto pela velocidade.
Sempre que podia e o trânsito deixava, pisava fundo. Chegava
facilmente a 120 ou 140 quilômetros por hora. Transformava
as ruas em pistas de corrida, mas dirigia bem. A quem se espantava,
costumava dizer: "Não brinquei muito na infância."
Betinho, como o sociólogo Herbert de Souza ficou nacionalmente
conhecido, tinha motivos para ter pressa. Desde menino, sua relação
com o tempo não era a mesma de todo mundo. Já nasceu
um sobrevivente - a 3 de novembro de 1935, em Bocaiúva (MG)
-, o mais velho dos filhos homens do casal Maria e Henrique. Com
horas de vida, sofreu uma hemorragia no umbigo, quase sempre fatal
para quem tem hemofilia, doença que o acompanhava. Brincadeiras,
como subir em árvore e jogar bola, nem pensar. "De algum
jeito, tenho 60 anos desde os cinco", afirmou, ao se tornar
sexagenário, dois anos antes de morrer. Ele foi vencido por
uma hepatite B, após lutar por mais de dez anos contra o
vírus da Aids, contraído numa transfusão de
sangue.
Na adolescência,
Betinho contraiu tuberculose e foi desenganado pelos médicos.
Passou três anos isolado no quarto dos fundos da casa da família,
lendo muito. Foi salvo pelo gongo, com a descoberta da droga usada
até hoje no tratamento da doença.
O irmão
do Henfil
Este histórico fez com que carregasse toda a vida uma sensação
de urgência muito grande, que tentou imprimir à campanha
Ação da cidadania contra a miséria e pela vida,
lançada por ele em 1993. Conclamou a sociedade a doar alimentos
para distribuir a quem passava fome em todo o País, através
de comitês - alguns dos quais existem até hoje. Quem
criticava a campanha, dizendo que é preciso ensinar a pescar,
e não dar o peixe, ouvia de volta: quem tem fome tem pressa.
Até se
projetar nacionalmente à frente da campanha, o sociólogo
era mais conhecido como o irmão do cartunista Henfil, que
o Brasil sonhava em ver de volta do exílio, como dizia a
letra da canção O bêbado e o equilibrista,
de Aldir Blanc e João Bosco. Militante político, Betinho
foi obrigado a deixar o País em 1971. Passou por Chile, Canadá
- onde concluiu o mestrado em Sociologia -, Panamá, Escócia
e México. Ainda no Chile, conheceu também a socióloga
Maria Nakano, sua segunda mulher. "Ela não é
minha, eu não sou dela e estamos juntos á 23 anos.
O segredo é achar uma pessoa que não seja apropriadora",
disse, certa vez, ao falar da companheira até o fim da vida.
Antes de se exilar, porém, passou por poucas e boas para
não cair nas mãos dos agentes da repressão.
Logo após o golpe, com a conivência de médicos,
escondeu-se por alguns dias no Hospital Pinel, no Rio, especializado
em tratamento de doentes mentais, fingindo ser paciente. Quando
teve uma úlcera no duodeno, foi internado no Hospital das
Clínicas de São Paulo, onde foi operado com nome falso,
com a ajuda de um médico conhecido.
Analista
muito doido
Ainda durante a ditadura, Frei Betto, seu amigo desde os tempos
de Belo Horizonte, quando Betinho ainda integrava a Juventude Universitária
Católica, o livrou da cadeia. Os policiais confundiram os
nomes parecidos e prenderam Betto no lugar de Betinho, que passara
a integrar a Ação Popular. Betinho foi sempre grato
ao frade, pois sabia que não resistiria em caso de tortura.
A conselho médico, inclusive, ele abandonou a luta armada.
Aliás, nunca chegou efetivamente a pegar em armas. Contava
rindo que só dera um tiro na vida, quando criança.
O alvo era uma galinha. O disparo nem sequer foi certeiro, mas a
pobre coitada morreu de susto.
Apesar da juventude
católica, Betinho mais tarde renegaria a fé. Ele balançou
depois que um analista afirmou que havia uma ambiguidade sexual
em sua relação com Cristo, um homem de cabelo de mulher.
Aquilo abalou sua fé. Pouco depois, descobriu que o analista
era doido, quando este segredou a Betinho que tinha um aparelho
para controlar a humanidade. Mesmo assim, o sociólogo nunca
mais conseguiria rezar. Ao voltar do exílio, não se
filiou a nenhuma legenda política, preferindo manter-se livre
para cobrar de quem achava devido. Foi quando fundou o Instituto
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase),
que reunia intelectuais para pesquisas multidisciplinares. Em 1986,
descobriu que era soropositivo - já conhecia o sofrimento
da doença dos irmãos Henfil e Chico Mário,
ambos mortos em 1988. "Uma forma que encontrei de suportar
o vírus foi contar para todo mundo, para a sociedade."
Pouco antes
de morrer, a 9 de agosto de 1997, pediu ao filho mais velho Daniel
- o mais novo chama-se Henrique - para ouvir Vivaldi enquanto saboreava
uma cerveja gelada, sua bebida preferida, que ele tomava religiosamente
após o expediente no Ibase. Até o último dia,
acreditou que viveria para ver a cura da Aids. Sobre seu incurável
otimismo, sempre afirmava: "Não sou otimista babaca,
mas otimista ativo."
VOCÊ
SABIA?
Recusou-se a atender o deputado Amaral Netto, de extrema direita,
até saber que ele buscava apoio para um projeto social. "Sou
de direita, mas não mordo", avisava o político.
"Fui educado pela minha mãe a nunca conversar com o
senhor", rebateu Betinho. "Mas sua proposta é ótima
e terá meu apoio. Até mãe erra."
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