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O Brasileiro do Século

6) Betinho
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Ele só andava correndo. A pé, enquanto pôde, era ligeiro, graças ao corpo magro - cerca de 47 quilos. Mas era no volante que podia exercitar o gosto pela velocidade. Sempre que podia e o trânsito deixava, pisava fundo. Chegava facilmente a 120 ou 140 quilômetros por hora. Transformava as ruas em pistas de corrida, mas dirigia bem. A quem se espantava, costumava dizer: "Não brinquei muito na infância." Betinho, como o sociólogo Herbert de Souza ficou nacionalmente conhecido, tinha motivos para ter pressa. Desde menino, sua relação com o tempo não era a mesma de todo mundo. Já nasceu um sobrevivente - a 3 de novembro de 1935, em Bocaiúva (MG) -, o mais velho dos filhos homens do casal Maria e Henrique. Com horas de vida, sofreu uma hemorragia no umbigo, quase sempre fatal para quem tem hemofilia, doença que o acompanhava. Brincadeiras, como subir em árvore e jogar bola, nem pensar. "De algum jeito, tenho 60 anos desde os cinco", afirmou, ao se tornar sexagenário, dois anos antes de morrer. Ele foi vencido por uma hepatite B, após lutar por mais de dez anos contra o vírus da Aids, contraído numa transfusão de sangue.

Na adolescência, Betinho contraiu tuberculose e foi desenganado pelos médicos. Passou três anos isolado no quarto dos fundos da casa da família, lendo muito. Foi salvo pelo gongo, com a descoberta da droga usada até hoje no tratamento da doença.

O irmão do Henfil
Este histórico fez com que carregasse toda a vida uma sensação de urgência muito grande, que tentou imprimir à campanha Ação da cidadania contra a miséria e pela vida, lançada por ele em 1993. Conclamou a sociedade a doar alimentos para distribuir a quem passava fome em todo o País, através de comitês - alguns dos quais existem até hoje. Quem criticava a campanha, dizendo que é preciso ensinar a pescar, e não dar o peixe, ouvia de volta: quem tem fome tem pressa.

Até se projetar nacionalmente à frente da campanha, o sociólogo era mais conhecido como o irmão do cartunista Henfil, que o Brasil sonhava em ver de volta do exílio, como dizia a letra da canção O bêbado e o equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco. Militante político, Betinho foi obrigado a deixar o País em 1971. Passou por Chile, Canadá - onde concluiu o mestrado em Sociologia -, Panamá, Escócia e México. Ainda no Chile, conheceu também a socióloga Maria Nakano, sua segunda mulher. "Ela não é minha, eu não sou dela e estamos juntos á 23 anos. O segredo é achar uma pessoa que não seja apropriadora", disse, certa vez, ao falar da companheira até o fim da vida. Antes de se exilar, porém, passou por poucas e boas para não cair nas mãos dos agentes da repressão. Logo após o golpe, com a conivência de médicos, escondeu-se por alguns dias no Hospital Pinel, no Rio, especializado em tratamento de doentes mentais, fingindo ser paciente. Quando teve uma úlcera no duodeno, foi internado no Hospital das Clínicas de São Paulo, onde foi operado com nome falso, com a ajuda de um médico conhecido.

Analista muito doido
Ainda durante a ditadura, Frei Betto, seu amigo desde os tempos de Belo Horizonte, quando Betinho ainda integrava a Juventude Universitária Católica, o livrou da cadeia. Os policiais confundiram os nomes parecidos e prenderam Betto no lugar de Betinho, que passara a integrar a Ação Popular. Betinho foi sempre grato ao frade, pois sabia que não resistiria em caso de tortura. A conselho médico, inclusive, ele abandonou a luta armada. Aliás, nunca chegou efetivamente a pegar em armas. Contava rindo que só dera um tiro na vida, quando criança. O alvo era uma galinha. O disparo nem sequer foi certeiro, mas a pobre coitada morreu de susto.

Apesar da juventude católica, Betinho mais tarde renegaria a fé. Ele balançou depois que um analista afirmou que havia uma ambiguidade sexual em sua relação com Cristo, um homem de cabelo de mulher. Aquilo abalou sua fé. Pouco depois, descobriu que o analista era doido, quando este segredou a Betinho que tinha um aparelho para controlar a humanidade. Mesmo assim, o sociólogo nunca mais conseguiria rezar. Ao voltar do exílio, não se filiou a nenhuma legenda política, preferindo manter-se livre para cobrar de quem achava devido. Foi quando fundou o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), que reunia intelectuais para pesquisas multidisciplinares. Em 1986, descobriu que era soropositivo - já conhecia o sofrimento da doença dos irmãos Henfil e Chico Mário, ambos mortos em 1988. "Uma forma que encontrei de suportar o vírus foi contar para todo mundo, para a sociedade."

Pouco antes de morrer, a 9 de agosto de 1997, pediu ao filho mais velho Daniel - o mais novo chama-se Henrique - para ouvir Vivaldi enquanto saboreava uma cerveja gelada, sua bebida preferida, que ele tomava religiosamente após o expediente no Ibase. Até o último dia, acreditou que viveria para ver a cura da Aids. Sobre seu incurável otimismo, sempre afirmava: "Não sou otimista babaca, mas otimista ativo."

VOCÊ SABIA?
Recusou-se a atender o deputado Amaral Netto, de extrema direita, até saber que ele buscava apoio para um projeto social. "Sou de direita, mas não mordo", avisava o político. "Fui educado pela minha mãe a nunca conversar com o senhor", rebateu Betinho. "Mas sua proposta é ótima e terá meu apoio. Até mãe erra."