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O Brasileiro do Século

5) Luiz Carlos Prestes
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Num comício da campanha presidencial de 1989, em São Paulo, do carro de som o locutor anunciava "o companheiro socialista Luiz Carlos Prestes". Minutos depois, voltou ao microfone e se referiu "ao comunista Prestes". Diante da evidente confusão do sujeito, o lendário líder do Partido Comunista Brasileiro, do alto de seus 91 anos, perdeu a paciência e resolveu esclarecer a questão. "Sou um comunista revolucionário, por favor!" Mesmo afastado do Partidão desde 1983 por divergências ideológicas, Prestes ainda demonstrava orgulho ao se definir como comunista, causa por que lutou por quase 70 anos e da qual foi, até hoje, a figura brasileira de maior destaque.

Mas muito antes de Prestes chegar ao PCB, em 1929, seu inconformismo já era nacionalmente conhecido. Aos 26 anos, o jovem tenente liderou o movimento que percorreu 25 mil quilômetros do território nacional com o intuito de enfraquecer o governo de Arthur Bernardes. A Coluna Prestes durou 21 meses. Desde então, passou a ser chamado de "Cavaleiro da Esperança". "Naquela época, eu nunca tinha ouvido falar de marxismo, de Lênin, muito menos da revolução russa. Era apenas revoltado com a maneira pela qual se governava o País", diria mais tarde o gaúcho de Porto Alegre, nascido a 3 de outubro de 1898.

Após a revolução de 1930, Prestes mudou-se para Moscou, depois de ter estudado a fundo a teoria marxista. Getúlio o declarou oficialmente desertor. Ele só voltaria ao Brasil, clandestino, em 1934. O ob-jetivo era or-ganizar uma re-volução proletária. Chegou aqui acompanhado de Olga Benário, jovem militante judia alemã encarregada de sua segurança, que se tornaria sua primeira mulher. Curiosamente, Prestes completava 37 anos sem nunca ter dormido com alguém. A revolução fracassou.

Deportação
O casal foi preso e nunca mais se reencontrou. Olga, mesmo grávida, foi deportada para a Alemanha nazista. Deu à luz a primeira filha de Prestes, Anita, em novembro de 1936, numa prisão feminina em Berlim. Pouco depois, morreu na câmara de gás. Prestes ficou dez anos encarcerado - os dois primeiros em total isolamento. Antes que morresse de tédio, um guarda piedoso começou a fornecer-lhe alguns jornais. Ninguém podia ficar sabendo. Para aproveitar as leituras, Prestes enrolava as folhas nos lençóis e se enfiava debaixo do cobertor. "Não sei como não fiquei cego", comentou.

Só foi libertado em 1945. Quando conheceu a filha, ela já tinha nove anos. No mesmo ano, recebeu uma homenagem num comício histórico do PCB, em São Paulo. No estádio do Pacaembu lotado, os manifestantes exibiam retratos de Prestes entre bandeiras vermelhas e da ex-União Soviética. Foi o momento de maior apelo popular. Mas o mito Prestes causou incômodo em seus "fiéis" ao defender, surpreendentemente, a permanência no poder do mesmo Vargas que entragara sua mulher aos nazistas. Era a posição do partido, acima de seu drama pessoal.

O único cargo público na vida foi o de senador, eleito em 1946. Mas teve pouco tempo para subir à tribuna. Em maio de 1947, o PCB caiu de novo na ilegalidade e Prestes voltou para a clandestinidade. Foi nesse perío-do que conheceu Maria, filha de um antigo comunista, designada para cuidar do líder. Com a segunda mulher, Prestes teve oito filhos, alguns deles nascidos em aparelhos do Partido.

Pega-pega
Os rebentos só podiam visitá-lo esporadicamente, no máximo de três em três, porque com o golpe militar de 1964 Prestes teve de se esconder. Os garotos viajavam de olhos vendados e achavam que iam visitar um tio, para não deixarem a palavra pai escapar em momentos impróprios. Era questão de segurança. Prestes, já sexagenário, apesar de tudo, esforçava-se em estreitar os laços com os pequenos. Certa vez, eles chegaram em casa contando à mãe que tinham brincado de pega-pega a tarde toda com o "tio". "Quando soubemos que ele era pai, foi difícil assimilar", disse a ISTOÉ Luiz Carlos Prestes Filho. Cansado de se esconder, ele se mudou com a mulher e os filhos para Moscou, em 1970.

O Velho, como a família o chamava, fazia compras para a casa e se divertia em longas caminhadas acompanhado dos filhos. Em 1979, quando o regime militar concedeu a anistia, Prestes voltou ao Brasil, sendo recebido por quase dez mil pessoas no Rio de Janeiro. Até morrer de leucemia, em março de 1990, continuou lutando pelas mesmas causas que o moviam na juventude e que fez com que passasse a maior parte da sua vida adulta no exercício ou na clandestinidade.

VOCÊ SABIA?
Hostilizado por colegas no primário, que o agrediam por ser o menor da turma, Prestes reagiu e mordeu os inimigos. Foi logo expulso da escola, que condenou seu "instinto canino". Por ironia, no Estado Novo, o advogado Sobral Pinto aludiu à lei de proteção aos animais para repudiar as condições em que Prestes estava preso.