|
5) Luiz Carlos Prestes
46,8%
dos votos
Num comício da campanha presidencial de 1989, em São
Paulo, do carro de som o locutor anunciava "o companheiro socialista
Luiz Carlos Prestes". Minutos depois, voltou ao microfone e
se referiu "ao comunista Prestes". Diante da evidente
confusão do sujeito, o lendário líder do Partido
Comunista Brasileiro, do alto de seus 91 anos, perdeu a paciência
e resolveu esclarecer a questão. "Sou um comunista revolucionário,
por favor!" Mesmo afastado do Partidão desde 1983 por
divergências ideológicas, Prestes ainda demonstrava
orgulho ao se definir como comunista, causa por que lutou por quase
70 anos e da qual foi, até hoje, a figura brasileira de maior
destaque.
Mas muito antes
de Prestes chegar ao PCB, em 1929, seu inconformismo já era
nacionalmente conhecido. Aos 26 anos, o jovem tenente liderou o
movimento que percorreu 25 mil quilômetros do território
nacional com o intuito de enfraquecer o governo de Arthur Bernardes.
A Coluna Prestes durou 21 meses. Desde então, passou a ser
chamado de "Cavaleiro da Esperança". "Naquela
época, eu nunca tinha ouvido falar de marxismo, de Lênin,
muito menos da revolução russa. Era apenas revoltado
com a maneira pela qual se governava o País", diria
mais tarde o gaúcho de Porto Alegre, nascido a 3 de outubro
de 1898.
Após
a revolução de 1930, Prestes mudou-se para Moscou,
depois de ter estudado a fundo a teoria marxista. Getúlio
o declarou oficialmente desertor. Ele só voltaria ao Brasil,
clandestino, em 1934. O ob-jetivo era or-ganizar uma re-volução
proletária. Chegou aqui acompanhado de Olga Benário,
jovem militante judia alemã encarregada de sua segurança,
que se tornaria sua primeira mulher. Curiosamente, Prestes completava
37 anos sem nunca ter dormido com alguém. A revolução
fracassou.
Deportação
O casal foi preso e nunca mais se reencontrou. Olga, mesmo grávida,
foi deportada para a Alemanha nazista. Deu à luz a primeira
filha de Prestes, Anita, em novembro de 1936, numa prisão
feminina em Berlim. Pouco depois, morreu na câmara de gás.
Prestes ficou dez anos encarcerado - os dois primeiros em total
isolamento. Antes que morresse de tédio, um guarda piedoso
começou a fornecer-lhe alguns jornais. Ninguém podia
ficar sabendo. Para aproveitar as leituras, Prestes enrolava as
folhas nos lençóis e se enfiava debaixo do cobertor.
"Não sei como não fiquei cego", comentou.
Só foi
libertado em 1945. Quando conheceu a filha, ela já tinha
nove anos. No mesmo ano, recebeu uma homenagem num comício
histórico do PCB, em São Paulo. No estádio
do Pacaembu lotado, os manifestantes exibiam retratos de Prestes
entre bandeiras vermelhas e da ex-União Soviética.
Foi o momento de maior apelo popular. Mas o mito Prestes causou
incômodo em seus "fiéis" ao defender, surpreendentemente,
a permanência no poder do mesmo Vargas que entragara sua mulher
aos nazistas. Era a posição do partido, acima de seu
drama pessoal.
O único
cargo público na vida foi o de senador, eleito em 1946. Mas
teve pouco tempo para subir à tribuna. Em maio de 1947, o
PCB caiu de novo na ilegalidade e Prestes voltou para a clandestinidade.
Foi nesse perío-do que conheceu Maria, filha de um antigo
comunista, designada para cuidar do líder. Com a segunda
mulher, Prestes teve oito filhos, alguns deles nascidos em aparelhos
do Partido.
Pega-pega
Os rebentos só podiam visitá-lo esporadicamente, no
máximo de três em três, porque com o golpe militar
de 1964 Prestes teve de se esconder. Os garotos viajavam de olhos
vendados e achavam que iam visitar um tio, para não deixarem
a palavra pai escapar em momentos impróprios. Era questão
de segurança. Prestes, já sexagenário, apesar
de tudo, esforçava-se em estreitar os laços com os
pequenos. Certa vez, eles chegaram em casa contando à mãe
que tinham brincado de pega-pega a tarde toda com o "tio".
"Quando soubemos que ele era pai, foi difícil assimilar",
disse a ISTOÉ Luiz Carlos Prestes Filho. Cansado de se esconder,
ele se mudou com a mulher e os filhos para Moscou, em 1970.
O Velho, como
a família o chamava, fazia compras para a casa e se divertia
em longas caminhadas acompanhado dos filhos. Em 1979, quando o regime
militar concedeu a anistia, Prestes voltou ao Brasil, sendo recebido
por quase dez mil pessoas no Rio de Janeiro. Até morrer de
leucemia, em março de 1990, continuou lutando pelas mesmas
causas que o moviam na juventude e que fez com que passasse a maior
parte da sua vida adulta no exercício ou na clandestinidade.
VOCÊ
SABIA?
Hostilizado por colegas no primário, que o agrediam por ser
o menor da turma, Prestes reagiu e mordeu os inimigos. Foi logo
expulso da escola, que condenou seu "instinto canino".
Por ironia, no Estado Novo, o advogado Sobral Pinto aludiu à
lei de proteção aos animais para repudiar as condições
em que Prestes estava preso.
|