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O Brasileiro do Século

4) Tancredo Neves
47,1% dos votos

O sonho de Tancredo Neves era singrar os mares. No final dos anos 20, classificou-se em 26o. lugar num concurso para a Marinha, quando só havia 25 vagas. Alguns dias depois, recebeu o comunicado de que um dos aprovados tinha desistido. Mas era tarde: o correio atrasara e ele perdera o prazo para se apresentar. "Podia ser almirante", resmungava Tancredo a vida toda, meio brincando meio falando sério.

A paciência era de pescador. Talvez, por isso, ele era sempre chamado em momentos de crise. Em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, houve tentativa de golpe para evitar que o vice, João Goulart, assumisse. A solução negociada com os golpistas, infiltrados na Forças Armadas e atiçados por políticos da UDN, foi o parlamentarismo, que não durou seis meses. Tancredo foi, então, o primeiro-ministro que repartiu o poder com Jango e costurou o entendimento. Vinte e três anos depois, era o primeiro presidente civil após o regime militar, eleito ainda de modo indireto, em novo arranjo desta vez para retomar o caminho democrático, quando sua morte repentina jogou uma ducha gelada na euforia do País.

Meia esquerda
Irônico, bem-humorado, Tancredo de Almeida Neves nasceu a 4 de março de 1910 em São João Del Rey, cidade do interior de Minas Gerais que se acostumou ao som de sua flauta e às suas jogadas pela meia esquerda do Esparta Futebol Clube. O jogador Tancredo enfrentava, na extrema direita do Olímpico de Barbacena, o futuro deputado José Bonifácio, líder do governo Ernesto Geisel na Câmara na década de 70. "O ´Zezinho' está na extrema direita até hoje", brincava. Doutor Tancredo, como era chamado, atravessou as fronteiras, optou pela política, saiu para o mundo. Casou-se com sua primeira namorada, dona Risoleta, e enfrentou uma paciente caminhada até a Presidência da República.

Conciliador
Em cerca de 50 anos de vida pública, ele foi vereador, deputado estadual, deputado federal e ministro da Justiça do presidente Getúlio Vargas. Após o suicídio de Getúlio, passou a articular a candidatura de Juscelino Kubitschek. A empreitada deu certo, mas Tancredo perdeu para Magalhães Pinto o governo de Minas, em 1960. A experiência como primeiro-ministro, chefiando um gabinete de união nacional, com PSD e UDN governando juntos, consolidou a imagem de conciliador. Com o golpe militar, em 1964, se tornou uma das principais vozes da oposição. Em 1982, elegeu-se governador de Minas e, pacientemente, pacificou a política estadual. "Ele parecia ter o dom de conhecer como ninguém a natureza humana, principalmente a alma dos políticos", enfatizou a ISTOÉ o deputado federal Aécio Neves, neto do presidente.

O político Tancredo sempre procurou administrar a confiança de seus comandados: não dividia informações com ninguém, retendo a autoridade da última palavra. Confiante em sua sensibilidade, não se cansava de repetir que política se faz menos amparado em convicções. A esmagadora vitória por diferença de 300 votos sobre seu adversário, Paulo Maluf, no Colégio Eleitoral, o conduziu, enfim, à Presidência em 1985. "Ele não era homem de compromissos fáceis, tinha a firmeza da serenidade, e era prudente", disse Antônio Brito, o então porta-voz do presidente.

A saúde, porém, não acompanhava a vitalidade política. Afirmava estar tentando curar uma infecção no aparelho digestivo. Ele postergou sua primeira cirurgia para evitar uma crise institucional, aguentando o quanto pôde as dores. Na Europa, pouco antes da posse, não deixou que ninguém o tocasse. E tentou negociar o adiamento da operação, que os médicos consideravam urgente. Pedia que o segurassem até subir a rampa do Planalto. Sairia direto do gabinete para o hospital. Mas não foi possível. Na véspera de assumir o cargo de presidente, a doença o levou ao Hospital de Base de Brasília. O País ficou atônito quando a junta médica anunciou que Tancredo sofria de diverculite. Nos dias seguintes, o quadro se agravou com o surgimento de novas infecções. Sucessivas cirurgias foram realizadas até ele ser transferido para o Instituto do Coração, em São Paulo.

A Nação, que festejava a chegada de um novo líder, emudeceu. Foram 39 dias de agonia. Tancredo conseguiu unir a fé de diversos segmentos religiosos. O último combate do idealizador da Nova República e gerador da união de milhões de brasileiros em torno da democracia terminou no dia 21 de abril de 1985. Mais tarde, soube-se que ele tinha um tumor no abdômen. "O sacrifício do doutor Tancredo significou o selo definitivo da consolidação democrática, um marco na história do Brasil", afirmou a ISTOÉ o atual ministro do Trabalho e Emprego e sobrinho do presidente, Francisco Dornelles.

VOCÊ SABIA?
Tinha um jeito especial de falar com quem gostava; tocava o braço ou as mãos de modo afetuoso. Se dobrava a gravata e mordiscava sua ponta, era sinal evidente de que a conversa não estava agradando.