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O Brasileiro do Século

3) Ulysses Guimarães
51,8% dos votos

Era para ser Ivanhoé, como o cavaleiro medieval do escritor escocês Walter Scott, mas a mãe quis um nome menos complicado. Dona Amélia também exigia que o filho fosse pianista. Ataliba cedeu aos apelos da esposa e o batizou de Ulysses da Silveira Guimarães (paulista nascido a 6 de outubro de 1916, em Rio Claro), em homenagem ao herói grego. Único garoto entre 25 alunas, conquistou a professora de música dedilhando tangos. Na lista de diversões, o piano encontrava concorrência nos romances picantes que lia debaixo dos lençóis, madrugada adentro, para não despertar o conservadorismo do pai. Estudante relapso, surpreendia a família com boas notas. Havia uma explicação: o pescoço largo o ajudava na hora de espiar a prova dos colegas. Mas era inteligente e a dedicação aos estudos aumentou até se tornar professor de Latim e História em São Paulo, onde pretendia cursar Direito. Já as aspirações musicais acabaram com as visitas ao escritor Mário de Andrade, que alertou: "Ulysses, você nunca será um grande pianista." Ivanhoé resolveu, então, entrar na política.

A estréia foi nas eleições para orador do centro acadêmico da Faculdade do Largo de São Francisco, na chapa de Jânio Quadros. Em 1940, ano em que ganhava o anel de doutor, Ulysses chegou à vice-presidência da União Nacional dos Estudantes. Advogava para o governo paulista quando conheceu dois políticos vinculados ao Santos Futebol Clube que o convidaram para assumir uma diretoria. A popularidade entre a torcida santista rendeu cinco mil votos, suficientes para elegê-lo deputado estadual em 1947. Líder do PSD, saltou para o Rio de Janeiro ao se candidatar, com sucesso, a deputado federal, em 1950. Ulysses chegava aos 36 anos com o respeito dos parlamentares, mas vivendo uma crise de solidão. Como que por encanto, reencontrou uma antiga paixão adolescente. Felizmente, dona Mora, que ficara viúva e carregava duas crianças no colo, retribuiu os olhares lânguidos e eles se casaram em 1953. Resolvidos os problemas amorosos, tornou-se presidente da Câmara em seu segundo mandato.

Anticandidatura
Ulysses não disfarçou seu apoio à Revolução de 1964. Quando percebeu que era golpismo puro, mudou de lado. A reforma partidária o colocou no oposicionista MDB. Mesmo sabendo que não teria chance nas eleições indiretas para a sucessão do presidente Emílio Garrastazu Medici, lançou sua candidatura, tendo como vice o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, e iniciou uma cruzada democrática. "É o anticandidato que vai percorrer o País, denunciando as antieleições", anunciou. Em algumas cidades, havia a promessa de que seria recebido à bala. Ainda na ditadura, em Salvador, enfrentou policiais simplesmente colocando a mão no cano de um fuzil enquanto os cães ameaçavam os correligionários. "Baioneta não é voto e cachorro não é urna", discursou em seguida. Como explicar que nunca tenha sido cassado nem preso, mesmo depois de chamar Geisel de Idi Amin Dada, o truculento ditador da Uganda? "Ulysses era um símbolo tão importante da resistência que, se os militares o prendessem, os grupos guerrilheiros e a luta armada ganhariam força. Os generais pensavam: ruim com ele, pior sem ele", disse a ISTOÉ o senador Pedro Simon (PMDB-RS), que fazia parte da turma do poire.

"Senhor Diretas"
Eram seletos amigos que, em torno de uma garrafa de aguardente de pêra (poire, em francês), a bebida preferida, idealizaram os mais importantes movimentos políticos brasileiros dos últimos 30 anos. O cálice de aguardente o inspirou a montar o cronograma das Diretas Já! Ele viajou 40 mil quilômetros pelo País. Num comício em Goiânia, saudaram-no como "Senhor Diretas" e o apelido pegou. Queria ser o candidato do PMDB, mas aceitou a candidatura de Tancredo Neves, menos intragável para os parlamentares da ex-Arena, agora aliados. Com a morte de Tancredo, deu amplo apoio ao vice-presidente José Sarney. Com pulso firme, conduziu a Assembléia Constituinte de 1988 e promulgou a "Carta Cidadã", como a batizou. Em 1989, concorreu ao Palácio do Planalto e obteve seu maior fracasso político. Terminou as eleições em sétimo lugar.

Ainda teve fôlego para articular o processo de impeachment de Fernando Collor, em 1992. "No começo, ele pensava que a CPI era um retrocesso para a democracia", conta Pedro Simon. "Aí expus todos os detalhes do esquema de corrupção e ele assumiu a liderança na cassação." Como descanso merecido, viajou com os amigos para Angra dos Reis (RJ). Na segunda-feira 12 de outubro de 1992, o helicóptero que o levava de volta a São Paulo caiu em alto-mar, em meio à tempestade. Os corpos do piloto, de dona Mora, do senador Severo Gomes e de sua esposa foram resgatados. Só faltou o de Ulysses. Ele morria com uma frustração: não ter sido eleito presidente do Brasil.

VOCÊ SABIA?
Como tinha péssimo gosto para se vestir, quem escolhia os ternos era a esposa. Isso não evitou que ele se apresentasse em plenário, mais de uma vez, com um sapato preto e outro marrom. Numa viagem de avião, um fotógrafo o flagrou com a meia furada. Ulysses nem ligou: "Dá voto!"