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2) Getúlio Vargas
55,3%
dos votos
Pai dos pobres ou mãe dos ricos, conciliador ou sanguinário,
líder maquiavélico ou escravo do povo... Difícil
é achar o conceito exato para definir a trajetória
múltipla e fascinante de Getúlio Vargas. Nenhum brasileiro
exerceu poder e influência por tanto tempo no decorrer do
século XX - foram 15 anos sob ditadura e quatro eleito pelo
voto popular - quanto ele. Em 1930, quando alcançou o poder,
o Brasil tinha 30 milhões de habitantes, dos quais só
25% viviam nas cidades. Hoje, a situação se inverteu:
apenas 20% moram no campo. A Getúlio se atribui a transição
de um País agrícola para a era industrial. Ele imprimiu
seu estilo personalista e centralizador à longa e tortuosa
travessia rumo à industrialização. Como se
não bastasse, fixou a legislação social que
vigora até hoje.
Baixinho, barrigudo,
fumando charuto ou tomando chimarrão, Getúlio invadiu
o imaginário popular como tema de charges, teatro de revista,
marchas carnavalescas e até orações - "Ave,
Getúlio, cheio de coragem, o povo é convosco, bendita
seja a vossa bravura", rezavam os revolucionários de
1930. Até derrubar o presidente Washington Luís, entretanto,
nada fazia antever a figura carismática em que ele se transformaria.
Nascido a 19
de abril de 1882, filho de um fazendeiro de São Borja (RS),
Getúlio Dornelles Vargas era um típico caudilho gaúcho.
"Os homens da fronteira tem uma visão estratégica
do País. Eles vêem o Brasil de dentro para fora",
disse a ISTOÉ Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta e historiadora.
O pampa fora palco de lutas sangrentas desde o século XVII,
quando portugueses e espanhóis se engalfinharam para demarcar
a divisa. O enredo de terror prosseguiu com sucessivas guerras como
a dos Farrapos (1835), entre separatistas e tropas fiéis
ao Império. A rigor, a paz na região existe há
menos de 80 anos. As brasas ainda ardem. Nesse chão surgiu
uma elite rude, curiosamente envernizada pelo positivismo de Augusto
Comte, que colocava o Estado acima das liberdades individuais.
Getúlio
era cria de Borges de Medeiros, que governou o Rio Grande com mãos
de ferro de 1898 a 1928. O pupilo foi deputado estadual e federal
pelo Partido Republicano e ministro da Fazenda de Arthur Bernardes.
Getúlio governava o Estado quando foi rompida a política
café com leite, pela qual paulistas e mineiros se revezavam
na Presidência da República.
Crime passional
Na eleição de 1930, era a vez de São Paulo
dar a cadeira a Minas Gerais, mas Washington Luiz indicou o paulista
Júlio Prestes para sucedê-lo. Minas se rebelou e, com
o apoio também da Paraíba, lançou Getúlio
como candidato da oposição, que, afinal, saiu derrotada
das urnas. A eleição foi fraudada pelos dois lados
- como explicar que, no Rio Grande, Prestes tenha obtido apenas
982 votos contra 298 mil de Getúlio? Mas o assassinato de
João Pessoa, vice na chapa de Getúlio, em junho daquele
ano, embora tivesse motivo passional, serviu de estopim para a revolução
deflagrada a 3 de outubro. Em seu diário, Getúlio
anotaria: "Todas as providências tomadas, todas as ligações
feitas. Que nos reservará o futuro incerto neste lance aventuroso?"
Logo ao tomar
o poder, rasgou a Constituição de 1891, fechou o Congresso
e nomeou interventores nos Estados. Tinha já derrotado a
revolução constitucionalista em São Paulo,
quando promulgou o texto da Constituinte de 1934, pelo qual não
morria de amores. "Parece-me que será mais um entrave
do que uma fórmula de ação." A Câmara
e o Senado voltaram a funcionar e Getúlio ganhou um mandato
de quatro anos pelo voto indireto dos constituintes. Em 1935, após
a Intentona Comunista, criou o Tribunal de Segurança Nacional
que julgaria os perseguidos políticos até 1945. Milhares
seriam torturados e mortos nas masmorras.
Após
sucessivos estados de sítio, Getúlio, enfim, instaurou
formalmente a ditadura em 1937. A 10 de novembro, ele anunciou o
Estado Novo pelo rádio e em seguida foi a um encontro social,
um jantar com o embaixador argentino. "Será que a oligarquia
rural teria permitido que ele implantasse a era industrial sem o
regime fechado?", especula a neta Celina Vargas. "O Brasil
se industrializaria com ou sem Getúlio. Era imposição
dos tempos. Tanto que fenômenos similares ocorreram em outros
países latino-americanos", sustenta Maria Celina D'Araújo,
da Fundação Getúlio Vargas, que escreveu A
era Vargas.
Com a Segunda
Guerra Mundial, Getúlio adotou posição ambígua.
Conta-se que, no Palácio do Catete, Osvaldo Aranha, um dos
auxiliares mais próximos, queixou-se do general Eurico Dutra,
ministro da Guerra, que estaria de namoro com a Alemanha nazista.
Getúlio concordou e prometeu tomar providências. Pouco
depois apareceu Dutra e reclamou que Aranha fazia concessões
aos aliados. Getúlio concordou de novo. Dona Darcy - mulher
de Getúlio, que lhe deu quatro filhos - largou o tricô
e comentou: "Afinal, quem tem razão?" Getúlio
deu uma baforada no charuto e respondeu: "Tu é que tens
razão ao ficar perplexa." Quando, enfim, ele aderiu
aos aliados, permitindo que os americanos cravassem bases militares
no Nordeste, ganhou em troca financiamento para a Companhia Siderúrgica
Nacional.
Tiro no coração
Em 1945, afastado do poder por um golpe militar, Getúlio
continuou sendo o divisor de águas da política nacional.
Dois partidos surgiram para defender seu legado - o PTB, criado
pelos sindicatos trabalhistas, e o PSD dos empresários. Já
a UDN arregimentava seus inimigos. Elegeu-se senador pelo PSD, mas
retirou-se do cenário político, enclausurando-se na
fazenda Itu, em São Borja. Em 1950, voltou triunfalmente
à Presidência em eleição direta e, em
seu novo governo, criou a Petrobras, no auge de uma campanha nacionalista.
As denúncias
de corrupção (o Banco do Brasil teria feito empréstimos
irregulares ao jornal Última Hora, seu único
aliado na imprensa) e a repercussão do atentado ao deputado
Carlos Lacerda, principal voz da oposição, em que
morreu um segurança do parlamentar, agravaram a crise política
que só foi solucionada quando Getúlio deu um tiro
no coração, em agosto de 1954. Para o bem e o mal,
em pontos vitais como a estrutura sindical, a legislação
trabalhista, o modelo de desenvolvimento e a própria concepção
de Estado, o Brasil ainda hoje não se libertou da era Getúlio
Vargas.
VOCÊ
SABIA?
Neuza, irmã de Jango e namorada de Brizola, tomava um avião
com as primas e ia à fazenda Itu, onde Getúlio se
isolara, para lavar roupas e lençóis, varrer e pôr
ordem na casa.
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