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13) Leonel Brizola
23,2%
dos votos
Os
pés descalços, a espada de pau em punho, o moleque
soltava os pulmões: "Eu sou o capitão Leonel!"
Era Itagiba de Moura Brizola, mas cedo adotou o nome de Leonel Rocha,
chefe da revolta de 1923. Era como se vestisse a pele do herói
vingador. A guerra civil ocorrera em reação ao desejo
de Borges de Medeiros de concorrer pela quinta vez a um mandato
de presidente do Rio Grande - na época, as eleições
eram quase sempre fraudulentas. O acordo de paz estava já
assinado quando o agricultor e guerreiro José, pai de Brizola,
foi morto por tropas governistas. Nosso espadachim da área
rural de Carazinho (RS), nascido às 22 horas de 22 de janeiro
de 1922, tinha um ano quando o pai morreu. O ibope ruim do caudilho
Borges era ilustrado pelas brincadeiras dos meninos naquele rincão.
Quando se escondiam atrás de galpões para fazer cocô,
diziam a senha: "Vou mandar um telegrama para o Borges de Medeiros."
Mais de 30 anos depois, Leonel Brizola governava o Estado e o pivô
do assassinato do pai morava perto do palácio. Com 93 anos,
Borges batia à porta e pedia licença para tirar uma
prosa. "Eu o recebia sem rancor. Estava muito doente, praticamente
morreu nos meus braços", contou Brizola a ISTOÉ.
Bê-á-bá na mata
A mãe, Oniva, casou logo com um vizinho, também viúvo.
Tinha cinco filhos e o novo esposo, seis. Ela juntava a turma embaixo
de um arvoredo e alfabetizava os guris com um só livro que
circulava de mão em mão. "A extrema dificuldade
que passei para estudar me fez eleger a educação pública
como prioridade. No Sul, construí mais de seis mil escolas
e, ao governar o Rio de Janeiro, nos anos 80 e 90, implantei turno
integral, com refeição e assistência médica."
Aos 11 anos,
Brizola saiu da área rural para ser jornaleiro e engraxate,
além de carregar malas na estação de trem de
Carazinho. Morou um ano com um pastor metodista, que o encarregava
de ler as rezas no culto. Foi quando aprendeu a falar em público.
E quem resiste à lábia de Brizola? O carola converteu
até a mãe, até então católica
fervorosa. Aos 14, mudou-se para Porto Alegre, onde foi ascensorista
e jardineiro de praças. Só aí concluiu o ginásio
e entrou na Faculdade de Engenharia.
Lá, achou
a verdadeira vocação: a política. "De
um lado, havia os chamados punhos de renda, filhos de estancieiros,
com os quais não me identificava. De outro, estavam os comunistas.
Era polígrafo para todo o lado, um arsenal ideológico.
Mas não havia diálogo porque o pessoal do Partidão
já sabia tudo!" Era ainda universitário quando
se elegeu deputado estadual pelo PTB aos 22 anos. Nos anos 40, comprou
espaço noturno na rádio Farroupilha para irradiar
sua retórica. Uma vez, um casal de velhinhos compareceu à
sede do PTB, onde Brizola transmitia o programa. "Lá
no interior, embaixo de cobertor de pena, a gente se deita para
ouvir o senhor e pega no sono. Duas horas depois, acorda e o senhor
continua falando!"
O método
de comunicação seria posto à prova em 1961
quando era governador gaúcho - Brizola já havia sido,
então, secretário estadual de Obras, deputado federal
e prefeito de Porto Alegre. Com a renúncia do presidente
Jânio Quadros, o vice João Goulart (cunhado de Brizola)
teve sua posse vetada pelos militares. Dos porões do Palácio
Piratini, Brizola formou uma rede de 104 emissoras em todo o País,
a Cadeia da Legalidade. "O Rio Grande resistirá ao golpe,
ainda que seja esmagado", anunciava ao microfone. Pediu aos
moradores das cercanias que se afastassem, porque o palácio
estava para ser bombardeado (o que não ocorreu). Requisitou
armas do comércio e das fábricas Taurus e Rossi, distribuindo-as
à população. "A pessoa ganhava um revólver
e uma caixa de balas e assinava um recibo. Quando tudo se resolveu,
quase todos devolveram as armas, mas alguns pediram para levar como
souvenir." Em meio à crise, o comandante do III Exército,
general Machado Lopes, pediu audiência. "Me preparei
para prendê-lo, mas ele aderiu a nós. O rádio
de pilha dividiu as Forças Armadas e, com isso, evitamos
o golpe. É um episódio de resistência civil
raro na América Latina, do qual até hoje me orgulho."
Cômoro
de areia
Brizola - que no Sul havia estatizado as companhias de energia elétrica
e de telefonia, subsidiárias da canadense Bond & Share
e da americana ITT - era deputado federal pela Guanabara quando
estourou o golpe de 1964 que depôs João Goulart. Disfarçado
com uniforme da polícia militar gaúcha, escondeu-se
atrás de um cômoro de areia em Cidreira (RS) até
avistar o avião que o levaria para o exílio. "Éramos
inexperientes e não soubemos aproveitar o momento privilegiado
que a História ofereceu para mudarmos o País",
lamenta. Ao voltar do exílio, em 1979, fundou o PDT, pelo
qual se elegeu governador do Rio de Janeiro duas vezes. Aos 77 anos,
sem mandato, declara-se "um brasileiro indignado que, no íntimo,
nunca deixou de resistir."
VOCÊ
SABIA?
Em 1963, o jornalista David Nasser atacava Brizola em O Cruzeiro
sem dar direito de resposta. Ao avistá-lo no aeroporto, Brizola
alertou: Prepara-te para apanhar!" Desferiu-lhe violento soco
no ouvido e outro no queixo até nocauteá-lo. Ainda
zonzo, Nasser ouviu: "Da próxima vez, terás que
engolir o artigo inteiro!"
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