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O Brasileiro do Século

12) Miguel Arraes
26,9% dos votos

Em suas andanças pelo sertão de Pernambuco, em campanha política, Miguel Arraes ouviu coisas inacreditáveis da boca do povo. Houve já quem achasse que só o fato de tocá-lo fosse garantia de sorte. Não era raro que lhe pedissem para fazer chover. O raciocínio era simples: quem levou eletricidade ao Agreste também seria capaz de dar um jeitinho na seca. Arraes não tem poderes sobrenaturais, é claro. Mas, em sua região, já foi tratado como um deus. Era comum que ele tivesse o terno rasgado, igual a um ídolo pop. O mito Arraes, três vezes governador de Pernambuco (1962, 1986 e 1994), foi em grande parte alimentado pelo próprio. Ele fala pouco, em voz baixa, e intercala as palavras com um renitente pigarro, o que contribui para criar um certo ar de mistério sobre sua pessoa.

Nascido a 15 de dezembro de 1916, em Araripe (CE), ele se formou advogado no Recife e fez carreira no Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), onde chegou a delegado regional de Pernambuco. Em 1947, tornou-se secretário estadual de Fazenda, no mandato de Barbosa Lima Sobrinho. A partir de então, entrou de vez na política. Arraes, ou "Arraia", como é chamado pela gente do povo, sempre se preocupou em criar programas de assistência social, muitas vezes considerados clientelistas.

Mesmo criticados, alguns de seus projetos são lembrados até hoje. O "acordo do campo" - pacto celebrado entre sindicatos rurais, governo, usineiros e fornecedores - levou com 20 anos de atraso, em 1963, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) à Zona da Mata. "Chapéu de palha" foi o nome dado à frente de emergência que garantia um salário mínimo aos bóias-frias durante as entressafras e o "vaca na corda" era um projeto de financiamento de vacas leiteiras para famílias pobres.

Presente de "Arraia"
Era comum que os sertanejos reclamassem da fraqueza dos animais, que muitas vezes nem chegavam a dar leite, mas difícil era convencê-los a se desfazerem do que consideravam ser um presente de "Arraia". A popularidade consolidou sua trajetória política. Antes de ser governador, Arraes foi deputado estadual entre 1950 e 1954. Em 1959, foi eleito prefeito do Recife pelo PSD e, em 1962, elegeu-se governador pelo Partido Social Trabalhista. Não chegou ao fim do mandato. Seu apoio às Ligas Camponesas e à reforma agrária o transformou em um dos primeiros alvos do regime militar. Logo após o golpe de 1964, Arraes recusou-se a renunciar e acabou preso. Foi solto por um habeas-corpus e exilou-se na Argélia, entre 1965 e 1979.

Regressou ao País com a anistia e participou da fundação do PMDB. Em 1982, foi o deputado federal mais votado do Nordeste, com quase 200 mil votos. Em 1986, elegeu-se governador pela segunda vez com o slogan "Arraes vai entrar pela porta que saiu." Em 1990, ingressou no Partido Socialista Brasileiro.

Naquele mesmo ano, foi eleito mais vez deputado federal. Voltou ao Governo do Estado de Pernambuco em 1994. Durante a campanha, quando perguntado se a idade de 78 anos não atrapalharia, respondeu, sarcástico: "Vou perguntar à minha mãe", referindo-se a Benigna Arraes de Alencar, então com 96 anos. Hoje sem mandato, Arraes, que completa 83 anos em poucas semanas, apresenta disposição de menino. Acorda com o sol, trabalha em seu escritório na capital pernambucana, onde coordena a reestruturação do PSB. Até bem pouco fumava cachimbo e bebia uma dose de uísque, hábito que ele jura ter abandonado. De dona Benigna, herdou a saúde de ferro. Recentemente, Arraes submeteu-se a uma cirurgia de catarata, o que o obrigou a usar óculos escuros dia e noite, como apareceu numa recente reunião realizada em Brasília com lideranças da oposição.

Em 1997, sua imagem foi abalada pelo escândalo dos precatórios. Foi acusado de emitir títulos e utilizar o dinheiro arrecadado para outros fins que não o pagamento das dívidas do Estado. "Esse episódio é mais uma tentativa de me atingir, mas estamos com a verdade e o povo é que vai fazer seu julgamento", afirmou a ISTOÉ. Em 1998, tentou a reeleição, mas sofreu sua primeira derrota política e está agora sendo acionado judicialmente pelo Estado.

Casado duas vezes, tem dez filhos, incluindo o diretor de televisão Guel Arraes, e 15 netos. Nacionalista, costuma defender-se de quem o considera ultrapassado: "Sou o mesmo homem, não nego o meu passado."

VOCÊ SABIA?
O consultor da Fiesp Ney Figueiredo, que escreveu um livro contando os macetes para se ganhar uma eleição, jura que viveu uma cena inusitada no interior de Pernambuco. Ao entrar numa casa, os moradores prepararam um chá para servir à visita. Ao chegar mais perto do fogão, Figueiredo pôde verificar os ingredientes da bebida. Imerso na água quente, o que daria sabor ao chá era um cartaz da campanha de Arraes