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O Brasileiro do Século

11) Fernando Henrique Cardoso
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Era um garoto que gostava de brincar de mocinho e bandido nos terrenos baldios da Vila Pompéia, em São Paulo. Certo dia, a fantasia virou realidade. Aos dez anos, Fernando Henrique pulou no lago do Parque da Água Branca para salvar o irmão caçula, Antônio Geraldo, de quatro anos, que escapulira por um segundo de sua vigilância. O lago não era fundo, mas o pequeno quase morreu afogado. Passado o susto, o problema era ocultar da mãe o acontecido. Se dona Nayde percebesse as roupas sujas de lama, seria bronca na certa. Sem ter como disfarçar, ele confessou o incidente, entre aliviado e constrangido.

Filho, neto e sobrinho de militares, o carioca Fernando Henrique Cardoso - nascido a 18 de junho de 1931 - acostumou-se desde cedo à educação linha-dura. Foi alfabetizado em casa aos três anos. Cedo aprendeu o francês com professora particular. Menino sabido, preferia as histórias reais aos contos de fadas. Acompanhou atento pelos jornais o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. Aos dez anos, mudou-se para São Paulo. O pai, o general Leônidas Fernandes Cardoso, havia sido transferido. Adolescente, Fernando Henrique lia Zola e outros clássicos.

Na Faculdade de Filosofia da USP, em 1948, conheceu Ruth Cardoso, com quem se casaria quatro anos depois. "Ele é determinado, organizado e tem uma enorme capacidade de ouvir o ponto de vista alheio", afirmou a ISTOÉ a pedagoga Beatriz Cardoso, um dos três filhos do casal - os outros são o publicitário Paulo Henrique e a bióloga Luciana. A participação do general Leônidas na campanha O petróleo é nosso, nos anos 50, influenciou o jovem universitário a adotar uma ideologia progressista. Foi secretário da revista Problemas, do Partido Comunista, e participou de campanhas em defesa da escola pública.

Exílio
Em março de 1964 teve sua prisão preventiva decretada, sob a acusação de atividades subversivas. Fugiu para o Chile, onde trabalhou no Instituto Latino-Americano de Planificação Econômica e Social. Em 1967, lecionou na França e, no ano seguinte, de volta ao Brasil, conquistou a cátedra de Ciência Política da USP, sendo cassado em seguida pelo AI-5. Em 1969, ajudou a fundar o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), antes de se exilar novamente e dar aulas nos Estados Unidos.

Retornou ao País em 1973, engajando-se na anticandidatura de Ulysses Guimarães à Presidência. Concorreu a senador em 1978. Alcançou 1,3 milhão de votos e não se elegeu. Em 1982, foi para o Senado, na vaga de Franco Montoro, eleito governador paulista. Em 1985, deslizes o fizeram perder a Prefeitura de São Paulo para Jânio Quadros. Num debate, declarou-se ateu. Sentou na cadeira de prefeito posando de vencedor antes do resultado ser conhecido. Um ano depois, deu a volta por cima elegendo-se senador constituinte, pelo PMDB, antes de ajudar a fundar o PSDB, em 1988.

No governo de Fernando Collor de Mello, seu nome chegou a ser cogitado para integrar o Ministério, o que só viria a ocorrer após o impeachment do presidente. Primeiro nas Relações Exteriores, depois na Fazenda, Fernando Henrique deu credibilidade e charme ao governo Itamar Franco. Implantou o Plano Real que derrubou a inflação e em seguida se apresentou como candidato à sucessão presidencial. Venceu em 1994 e, quatro anos depois, lutou para mudar as regras do jogo e poder se reeleger com 45 milhões de votos.

Os problemas do País o afligem, mas não lhe tiram o sono. No máximo aceita perder meia noite de sono para jogar pôquer com os amigos no sítio em Ibiúna. "Cardoso é uma pessoa generosa, cordata e de extremo bom humor", comentou o economista Paul Singer, amigo do presidente, ex-colega do Cebrap.

VOCÊ SABIA?
Certo dia, telefonou para uma eleitora a fim de comentar a carta que ela havia lhe enviado: "Quem fala é o presidente. Olha, estou ligando para falar sobre suas recomendações..." A mulher não acreditou. "Ah, é? Pois aqui é a rainha Elizabeth..."