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O Brasileiro do Século

10) João Goulart
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Ao avistar a ponte General Justo, entre Paso de Los Libres e Uruguaiana, na fronteira com a Argentina, João Goulart voltou-se para a mulher, Maria Thereza, e brincou: "Qualquer dia desses, gorda, a gente entra correndo no Brasil e ninguém percebe." O bom humor não era casual. Após 12 anos de exílio, o presidente deposto em 1964 negociava a volta ao País. "Naquele dia, me instruiu para que voasse até o Rio de Janeiro na manhã seguinte para conversar com gente do governo. Estava quase tudo certo para que ele retornasse no Natal", disse a ISTOÉ Manoel Leães, o Maneco, piloto de Jango por 26 anos.

Pijama azul
Naquele 5 de dezembro de 1976, Jango tirou os olhos da ponte, deu meia-volta e tomou o rumo de sua fazenda em Mercedes, na Argentina. Jantou com meia dúzia de peões e vestiu o pijama azul que um amigo comprara em Paris. "Hoje não vou ler, gorda. Apaga a luz." Pouco antes das 3 horas, o ronco agudo do marido acordou Maria Thereza. Ele se agarrava ao travesseiro, aparentemente fulminado por um ataque cardíaco. "Morreu tranquilo, sem acordar", contou a viúva. No dia seguinte, Jango, enfim, cruzou a ponte General Justo, mais cedo do que pensara. Em São Borja (RS), sua terra natal, 20 mil pes-soas foram ao enterro sob um aguaceiro que atrapalhou o pouso dos que chegavam para o último adeus. Um gaúcho sentiu-se traído ao ver que o morto não exibia vestígio de vestes campeiras. O sujeito tirou o lenço do pescoço e jogou-o no esquife. "Já que ninguém se anima, eu coloco em ti esse lenço de homem, de grosso."

João Belchior Marques Goulart - nascido a 1º de março de 1918 - viveu até os dez anos no campo. Exímio cavaleiro, calculava o número de rezes do rebanho a distância e adorava banhar-se no rio Uruguai. O apelido Janguinho quem deu foi a mãe, dona Tinoca, que não cortou os cachos emaranhados do filho até ele completar três anos - promessa feita quando a criança sobrevivera a uma doença infantil. A adolescência ele passou num casarão em São Borja, sem frequentar o Clube Comercial, como outros filhos de estancieiros. Preferia beber nos botecos e no Carnaval saía no bloco "Comigo ninguém pode". O pai, Vicente, se meteu em inúmeras revoluções e era amigo íntimo de Getúlio Vargas, a quem ofereceu um churrasco em 1934. Sem que ninguém pedisse, Jango, aos 17 anos, improvisou um discurso rasgado de elogios ao presidente. "Quem é este guri?", espantou-se Getúlio. "Vais ser político? Pois devias. Tu falas bem", aconselhou.

Em 1945, quando Getúlio foi afastado do poder, Jango já era formado em Direito e, após a morte do pai, tomara conta dos negócios familiares. Mandava via aérea jornais para o Velho em seu retiro em Itu, interior de São Borja, enquanto montava o PTB em Porto Alegre. A carreira política decolou em 1946, quando se elegeu deputado estadual e a seguir foi secretário estadual de Justiça. Quatro anos depois, Getúlio voltou à Presidência e Jango elegeu-se deputado federal com o apoio dos sindicatos. Tinha com os operários a mesma intimidade que revelava ao tomar chimarrão com os peões no galpão da estância. Aos 32 anos, foi nomeado ministro do Trabalho por Getúlio.

Com o suicídio de Getúlio, em 1954, transformou-se no principal líder do trabalhismo. Foi eleito vice-presidente de Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros. Estava em missão comercial na China quando Jânio renunciou. Os militares vetaram a posse de Jango, mas recuaram após a resistência civil desencadeada pelo governador gaúcho Leonel Brizola. A saída foi o parlamentarismo, obrigando Jango a dividir o poder com o primeiro-ministro Tancredo Neves. Em janeiro de 1962, um plebiscito decidiu pelo retorno do presidencialismo por nove milhões de votos contra dois milhões. Quando assumiu, de fato, o governo, a economia ia mal - após a euforia da era JK, o País estava endividado com a inflação em alta. Mesmo assim, em outubro de 1963, uma pesquisa do Ibope indicou que 35% da população considerava seu governo ótimo e bom, 41% achavam regular e apenas 19% o qualificavam como ruim.

Atrás das cortinas
Em janeiro de 1964, Jango assinou a lei que limitava a remessa dos lucros das empresas estrangeiras para fora do País. A 13 de março, participou do comício da Central do Brasil, em frente ao então Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro, com 200 mil pessoas. Anunciou mudanças na estrutura fundiária e a encampação das refinarias de petróleo. Atrás das cortinas do Ministério, os militares levaram um susto e apressaram o golpe. A 31 de março, ele foi deposto. O general Ladário Pereira Telles, no III Exército, queria resistir, mas ele recusou. "Não quero derramamento de sangue." No exílio, no Uruguai, reclamava de solidão e fumava quatro carteiras de cigarros. Já sofria do coração quando declarou ao piloto Maneco: "Prefiro viver dez anos menos a deixar de fazer o que gosto." Até hoje, corre a versão de que teria sido envenenado ao almoçar em Paso de Los Libres, pouco antes de avistar pela última vez a ponte General Justo. "Essa hipótese não pode ser descartada. O corpo foi sepultado sem que uma autópsia revelasse a causa da morte", disse a ISTOÉ o ex-governador Leonel Brizola.

VOCÊ SABIA?
Aos 14 anos, foi zagueiro juvenil do Internacional. Uma infecção no joelho encerrou a carreira do beque, que não quis se tratar nos EUA e ficou coxo o resto da vida. Quando ele morreu, o Inter quis fazer um minuto de silêncio antes da final do Brasileiro contra o Corinthians, mas os militares proibiram.