|
10) João Goulart
27,9%
dos votos
Ao
avistar a ponte General Justo, entre Paso de Los Libres e Uruguaiana,
na fronteira com a Argentina, João Goulart voltou-se para
a mulher, Maria Thereza, e brincou: "Qualquer dia desses, gorda,
a gente entra correndo no Brasil e ninguém percebe."
O bom humor não era casual. Após 12 anos de exílio,
o presidente deposto em 1964 negociava a volta ao País. "Naquele
dia, me instruiu para que voasse até o Rio de Janeiro na
manhã seguinte para conversar com gente do governo. Estava
quase tudo certo para que ele retornasse no Natal", disse a
ISTOÉ Manoel Leães, o Maneco, piloto de Jango por
26 anos.
Pijama azul
Naquele 5 de dezembro de 1976, Jango tirou os olhos da ponte, deu
meia-volta e tomou o rumo de sua fazenda em Mercedes, na Argentina.
Jantou com meia dúzia de peões e vestiu o pijama azul
que um amigo comprara em Paris. "Hoje não vou ler, gorda.
Apaga a luz." Pouco antes das 3 horas, o ronco agudo do marido
acordou Maria Thereza. Ele se agarrava ao travesseiro, aparentemente
fulminado por um ataque cardíaco. "Morreu tranquilo,
sem acordar", contou a viúva. No dia seguinte, Jango,
enfim, cruzou a ponte General Justo, mais cedo do que pensara. Em
São Borja (RS), sua terra natal, 20 mil pes-soas foram ao
enterro sob um aguaceiro que atrapalhou o pouso dos que chegavam
para o último adeus. Um gaúcho sentiu-se traído
ao ver que o morto não exibia vestígio de vestes campeiras.
O sujeito tirou o lenço do pescoço e jogou-o no esquife.
"Já que ninguém se anima, eu coloco em ti esse
lenço de homem, de grosso."
João
Belchior Marques Goulart - nascido a 1º de março de
1918 - viveu até os dez anos no campo. Exímio cavaleiro,
calculava o número de rezes do rebanho a distância
e adorava banhar-se no rio Uruguai. O apelido Janguinho quem deu
foi a mãe, dona Tinoca, que não cortou os cachos emaranhados
do filho até ele completar três anos - promessa feita
quando a criança sobrevivera a uma doença infantil.
A adolescência ele passou num casarão em São
Borja, sem frequentar o Clube Comercial, como outros filhos de estancieiros.
Preferia beber nos botecos e no Carnaval saía no bloco "Comigo
ninguém pode". O pai, Vicente, se meteu em inúmeras
revoluções e era amigo íntimo de Getúlio
Vargas, a quem ofereceu um churrasco em 1934. Sem que ninguém
pedisse, Jango, aos 17 anos, improvisou um discurso rasgado de elogios
ao presidente. "Quem é este guri?", espantou-se
Getúlio. "Vais ser político? Pois devias. Tu
falas bem", aconselhou.
Em 1945, quando
Getúlio foi afastado do poder, Jango já era formado
em Direito e, após a morte do pai, tomara conta dos negócios
familiares. Mandava via aérea jornais para o Velho em seu
retiro em Itu, interior de São Borja, enquanto montava o
PTB em Porto Alegre. A carreira política decolou em 1946,
quando se elegeu deputado estadual e a seguir foi secretário
estadual de Justiça. Quatro anos depois, Getúlio voltou
à Presidência e Jango elegeu-se deputado federal com
o apoio dos sindicatos. Tinha com os operários a mesma intimidade
que revelava ao tomar chimarrão com os peões no galpão
da estância. Aos 32 anos, foi nomeado ministro do Trabalho
por Getúlio.
Com o suicídio
de Getúlio, em 1954, transformou-se no principal líder
do trabalhismo. Foi eleito vice-presidente de Juscelino Kubitschek
e Jânio Quadros. Estava em missão comercial na China
quando Jânio renunciou. Os militares vetaram a posse de Jango,
mas recuaram após a resistência civil desencadeada
pelo governador gaúcho Leonel Brizola. A saída foi
o parlamentarismo, obrigando Jango a dividir o poder com o primeiro-ministro
Tancredo Neves. Em janeiro de 1962, um plebiscito decidiu pelo retorno
do presidencialismo por nove milhões de votos contra dois
milhões. Quando assumiu, de fato, o governo, a economia ia
mal - após a euforia da era JK, o País estava endividado
com a inflação em alta. Mesmo assim, em outubro de
1963, uma pesquisa do Ibope indicou que 35% da população
considerava seu governo ótimo e bom, 41% achavam regular
e apenas 19% o qualificavam como ruim.
Atrás
das cortinas
Em janeiro de 1964, Jango assinou a lei que limitava a remessa dos
lucros das empresas estrangeiras para fora do País. A 13
de março, participou do comício da Central do Brasil,
em frente ao então Ministério da Guerra, no Rio de
Janeiro, com 200 mil pessoas. Anunciou mudanças na estrutura
fundiária e a encampação das refinarias de
petróleo. Atrás das cortinas do Ministério,
os militares levaram um susto e apressaram o golpe. A 31 de março,
ele foi deposto. O general Ladário Pereira Telles, no III
Exército, queria resistir, mas ele recusou. "Não
quero derramamento de sangue." No exílio, no Uruguai,
reclamava de solidão e fumava quatro carteiras de cigarros.
Já sofria do coração quando declarou ao piloto
Maneco: "Prefiro viver dez anos menos a deixar de fazer o que
gosto." Até hoje, corre a versão de que teria
sido envenenado ao almoçar em Paso de Los Libres, pouco antes
de avistar pela última vez a ponte General Justo. "Essa
hipótese não pode ser descartada. O corpo foi sepultado
sem que uma autópsia revelasse a causa da morte", disse
a ISTOÉ o ex-governador Leonel Brizola.
VOCÊ
SABIA?
Aos 14 anos, foi zagueiro juvenil do Internacional. Uma infecção
no joelho encerrou a carreira do beque, que não quis se tratar
nos EUA e ficou coxo o resto da vida. Quando ele morreu, o Inter
quis fazer um minuto de silêncio antes da final do Brasileiro
contra o Corinthians, mas os militares proibiram.
|