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1) Juscelino Kubitschek
"Abril
de 1955. O homem que havia modernizado Minas Gerais agora prometia
fazer o País crescer 50 anos em cinco. Para inaugurar a campanha
rumo à Presidência, nada de centros urbanos. Marcou
o primeiro comício para Jataí, cidadezinha de 15 mil
habitantes no sudoeste de -Goiás. Chovia a cântaros
quando ele começou a discursar no galpão de uma oficina
mecânica. Apresentou um plano de 30 metas de desenvolvimento.
"Acima de tudo, pretendo respeitar a Constituição",
finalizou o discurso. "E agora pergunto a vocês: além
disso, o que acham que eu devo fazer?" Um rapaz, conhecido
como Toniquinho, tomou coragem: "Vossa Excelência sabia
que a Constituição de 1891 estabelece a transferência
da capital para o Planalto Central? Se for eleito, cumprirá
também esta lei?"
ISTOÉ
localizou em Goiânia o rapaz que interpelou o candidato a
presidente do PSD. "Juscelino ficou assustado com a pergunta.
Demorou um pouco, mas respondeu que assumiria o compromisso de construir
a nova capital", lembra Antônio Soares Neto, o Toniquinho,
hoje com 74 anos. "Recebi o convite para a inauguração
da cidade. Me sinto um pouco responsável por tudo."
Brasília é a meta-síntese de um governo que
levou o País à euforia. Até quem nasceu depois
tem saudades da era JK (1956 a 1961). O ex-presidente apontava o
otimismo como sua principal virtude. Talvez porque ele próprio
tivesse superado incontáveis obstáculos antes de fazer
política.
A
começar pela infância pobre em Diamantina (MG), onde
nasceu a 12 de setembro de 1902. Não era por andar descalço,
sem dinheiro para comprar calçados, que Juscelino Kubitschek
de Oliveira chamava a atenção. O que impressionava
era o sobrenome estranho, herança do bisavô materno,
um tcheco que desembarcou no Brasil em 1830. Nonô, apelido
dentro de casa, mal teve contato com o pai, mascate que morreu de
tuberculose quando ele tinha dois anos. A educação
rígida veio do convívio com a mãe, dona Júlia,
uma professora primária que caminhava nove quilômetros
todas as manhãs para dar aulas no município vizinho.
Aos
17 anos, foi para Belo Horizonte, onde os Correios haviam aberto
concurso para telegrafista. Ficou oito anos no emprego, até
se formar em Medicina em 1927. Consultório aberto, parecia
ter o destino traçado quando o governador Benedito Valadares
o convidou para trabalhar como chefe de gabinete.
Refrigerantes
ao povo
Valadares se impressionara com a dedicação do doutor
Juscelino aos feridos na Revolução Constitucionalista
de 1932. Daí à nomeação como prefeito
de Belo Horizonte, em 1940, foi um pulo. Executou obras de grande
repercussão e ganhou fama de modernizador. Em 1950, JK lançou-se
ao governo de Minas Gerais. Vencer as eleições não
foi problema. Nem fundar a Cemig, empresa estatal encarregada de
produzir e distribuir energia elétrica. Dias difíceis
ele viveu quando Getúlio Vargas se suicidou, em 1954. Na
avenida Afonso Pena, no centro da capital mineira, oradores de plantão
estimulavam a multidão em polvorosa. Cheio de artimanha,
JK pediu calma e conduziu a massa até os jardins do Palácio
da Liberdade. Em seguida, mandou servir refrigerantes, deixando
todos de garrafa e canudo na mão. Os espíritos se
desarmaram.
O
estilo conciliador despertava inveja. Até adversários
admitiam: bastava conhecer sua simpatia para baixar a guarda. Que
o diga o jurista Miguel Reale, fiel amigo de Adhemar de Barros.
O adhemarismo era forte em São Paulo, mas tinha tênue
repercussão em Belo Horizonte. Ao instalar um novo diretório
do PSP na cidade, Reale organizou uma festa com muita música,
fogos de artifício e dança ao ar livre - no melhor
estilo populista que caracterizava o partido. "A nossa festança
ia às mil maravilhas, com vivas a Adhemar, quando repentinamente
surge Juscelino em visita de cordialidade", conta o jurista.
Enquanto os paulistas permaneciam quietos, arredios à alegria
popular, Nonô tirou as morenas mais assanhadas para dançar,
roubando a cena. Dentro em pouco, só se ouviam vivas a ele.
"Era
mesmo um ótimo pé-de-valsa", reforça o
ex-secretário particular Serafim Jardim, atual presidente
da Casa de Juscelino Kubitschek em Diamantina. O jeito amável
e carismático, aliado a promessas desenvolvimentistas, explica
os milhões de votos nas eleições presidenciais
de 1955. Alegando que ele não obtivera maioria absoluta -
ganhara com 36% dos votos -, a oposição, comandada
pela UDN, tentou impedir a posse. Só não teve êxito
porque o marechal Henrique Teixeira Lott deu um contragolpe no dia
11 de novembro. Mal assumiu o governo, JK enfrentou a resistência
de oficiais da Aeronáutica que rumaram para o Pará,
mas se renderam diante da falta de apoio dentro das próprias
Forças Armadas. Mostrando que seria o presidente da concórdia,
JK deu anistia a todos os golpistas.
Quase
aos tapas
Além de desenvolver a indústria automobilística,
JK abriu 20 mil quilômetros de rodovias, três mil de
ferrovias, aumentou 15 vezes a produção de petróleo
e construiu as hidrelétricas de Furnas e Três Marias.
E ergueu a nova capital em três anos e dez meses. "JK
ia a Brasília ao menos uma vez por semana e chamava os peões
pelo nome", lembra o subchefe da Casa Civil, Affonso Heliodoro
dos Santos. Por trás do grande homem, a discreta companheira.
Dona Sarah, com quem ele se casou em 1931, quase protagonizou uma
cena hilariante na entrega da faixa presidencial a Jânio Quadros
em 1961. Dizia-se que Jânio o acusaria de corrupção.
Em entrevista a ISTOÉ, Márcia Kubitschek, a filha
mais velha - ele também adotou uma menina, Maria Estela -,
conta que JK carregava dois discursos no bolso: um desejando bom
governo, outro rebatendo as críticas. "Se Jânio
se metesse a fazer denúncias, meu pai partiria para cima
dele. Eu e minha mãe também íamos querer briga
com Tutu e dona Eloá (filha e esposa de Jânio)",
disse Márcia. Para alívio da nação,
predominou a diplomacia.
Senador
por Goiás, chegou a se candidatar a presidente em 1965, com
o lema "cinco anos de agricultura para 50 de fartura".
Mas o regime militar o cassou e ele deixou o Brasil. Afastado da
vida pública, dava palestras a executivos de bancos e mantinha
um romance secreto com a socialite carioca Maria Lúcia Pedroso
- especula-se que a relação tenha durado 18 anos.
Comprou uma fazenda em Luziânia (GO), só para ficar
próximo a Brasília. "Acordava o pessoal às
seis da manhã com um sino trazido de Diamantina. Gostava
de montar a cavalo e passear na fazenda conosco", conta Márcia.
A 22 de agosto de 1976, numa viagem pela via Dutra, que liga São
Paulo ao Rio de Janeiro, seu Opala se espatifou contra uma carreta
que vinha em sentido contrário. Até hoje, muita gente
acredita que ele foi assassinado.
VOCÊ SABIA?
Foi de JK o primeiro avião presidencial brasileiro, o quadrimotor
Viscount. Certa vez, voando sobre o Nordeste, uma das turbinas parou
de funcionar. Tranquilo, foi para o seu aposento e vestiu um pijama.
Em seguida, outros dois motores falharam. Sem esperança de
sobreviver, ele assinou a promoção dos militares a
bordo para aumentar a pensão das viúvas. Com apenas
uma turbina, o avião pousou são e salvo. JK ainda
saiu sorridente.
VOCÊ
SABIA?
Na Presidência, levava para o gabinete uma marmita preparada
por dona Sarah. Até o dia em que ela cansou de fazer o prato.
Aí JK passou a almoçar em casa. Não se esquecia
de convidar os assessores, que abusavam da comida mineira: arroz
com quiabo, couve e galinha o molho pardo.
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