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EDITORIAL
Lições de JK
Eram três
horas da madrugada e o telefone tocou na casa do presidente da Câmara
dos Deputados, Ulysses Guimarães. Do outro lado da linha,
Juscelino Kubitschek o chamava com urgência para uma conversa
reservada no Palácio do Catete. "Quero que você
vá a São Paulo e demova o governador Jânio Quadros
da idéia de renunciar", ordenou. "O avião
presidencial está à sua disposição."
Senhor da ética, preocupado com o bom uso do patrimônio
público, Ulysses preferiu um vôo de carreira. Chegou
à capital paulista e se reuniu com o governador, que já
tinha pendores para gestos extremados. O pai de Jânio, deputado
estadual Gabriel Quadros, havia sido assassinado. Mantinha um caso
com a esposa de um feirante. Numa briga com o marido da moça,
Gabriel estava disposto a matá-lo, mas o feirante foi mais
rápido no gatilho. Jânio estava inconsolável.
Custou muita
saliva a Ulysses fazer o antigo companheiro de faculdade desistir
da renúncia. Pelo menos voltou ao Rio de Janeiro com o alívio
da missão cumprida. Vivíamos o ano de 1957 e o País
experimentava um período de euforia - entre 1956 e 1961,
no governo de JK, a economia cresceu 7,8% ao ano. As conquistas
daquela fase da vida brasileira motivaram os leitores de ISTOÉ
a elegerem Juscelino Kubitschek o Estadista do Século.
E a crise deflagrada pelo destempero de Jânio serviu para
selar a amizade entre Ulysses e o presidente, "um homem otimista,
que enfrentava as adversidades pensando que faria as coisas boas",
no dizer do deputado. Uma amizade que durou até JK estraçalhar
o carro que dirigia em agosto de 1976. Poucos dias antes, JK deixara
uma derradeira lição a Ulysses, sussurrando em seu
ouvido: "Política é esperança."
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