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O Brasileiro do Século

9) MIGUEL REALE
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Absorvido pela correria do centro paulistano, o jurista Miguel Reale deixa o tempo escorrer entre os dedos. Cheio de vitalidade, segue a fiel rotina que assumiu há quatro décadas. Presta consultoria jurídica pela manhã, dedica-se ao escritório de advocacia na avenida Nove de Julho à tarde - de onde, dizem, saem os pareceres mais caros do País - e passa os fins de semana no sítio da família, um pedaço de terra de 50 mil metros quadrados encravado entre favelas e indústrias no município de Diadema, no ABC paulista. Foi lá que, nos anos 50, ele firmou um pacto com o relógio. Ao perceber que as 24 horas de um dia estavam longe de satisfazer a avidez pelos livros, decidiu abolir a conversa fiada, o jogo de xadrez e as partidas de bocha. Hoje, aos 88 anos, continua desafiando o tempo. No meio da entrevista a ISTOÉ, o telefone toca em seu gabinete de trabalho. As quatro pontes de safena no peito não bastam para prendê-lo no sofá. Com a agilidade de um gato, levanta-se e atende a ligação de um assessor. "Você ainda não providenciou a ficha de inscrição para o congresso de filosofia?", esbraveja. A figura miúda, sorridente e cordial do professor Reale engana. É acima de tudo um perfeccionista, e sua pa-ciência esgota-se com a pasmaceira. Irritado, o jurista desliga o telefone e comenta: "Para o velho, um segundo vale uma hora!" Nascido a 6 de novembro de 1910, em São Bento do Sapucaí (SP), Miguel Reale sonhava em virar médico, como o pai, até entrar num necrotério e ver os cadáveres com cheiro de formol. A desistência o levou a prestar exames na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1930. No primeiro dia de aula, a brincadeira dos veteranos era obrigar o calouro a beber meia garrafa de aguardente e ficar horas preso a um colega por um arame que enlaçava a lapela do paletó. Depois o atiraram, de roupa e tudo, no lago da praça da República. No ano seguinte, já veterano, promoveu um trote "político". Organizou banda de música, carruagens e cartazes alusivos à revolução de 1930. Aí vestiu de preto os aprovados nos exames, identificando-os com as vestes usadas na época pelos fascistas italianos. Entre as vítimas da traquinagem, estava o empresário José Mindlin, que teve de sair pelas ruas fazendo saudações fascistas. "O trote é uma das atitudes mais violentas e covardes que existem", critica o professor Reale, com a autoridade de quem já foi reitor da Universidade de São Paulo por duas ocasiões.

De camisa verde O clima da época era de polarização ideológica. Ainda na faculdade, Reale cerrou fileiras com o integralismo, organização de extrema direita. Foi secretário nacional de doutrina e o terceiro homem mais influente entre os camisas-verdes - apelido dos seguidores do movimento que tinha origem na cor do uniforme. "Nunca fomos autoritários", contesta. "Pregávamos uma terceira via entre o capitalismo e o comunismo numa época em que os partidos políticos eram reduto de interesses pessoais." Depois da malfadada tentativa de golpe integralista - da qual ele não participou -, em 1938, exilou-se por um ano na Itália.

Quando voltou para o Brasil, passou a lecionar Direito. Fundou o Instituto Brasileiro de Filosofia. Tornou-se tão respeitado que, em 1949, foi nomeado reitor da USP pela primeira vez. Com a proposta de expandir os cursos para cidades do interior paulista, tomou um avião para inaugurar a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Naquele 25 de maio de 1950, o professor Reale viu a morte de perto.

Feliz aniversário Mal havia iniciado o vôo e uma das turbinas simplesmente se desprendeu da aeronave. O piloto retornou à pista e jogou o DC-3 contra um monte de areia fofa usado para obras de terraplenagem no aeroporto. Os passageiros desceram depressa, antes que o avião explodisse - o que, por milagre, acabou não acontecendo. "Durante anos recebi telegramas no dia 25 de maio, felicitando-me pelo meu nascimento", conta.

Neto de italianos, Reale é um ilustre palmeirense que se comove diante de um bom vinho ou uma bela macarronada. Não dispensa pelo menos seis horas de sono e adora a convivência familiar. "Durante toda a vida ele sempre deu um jeito de almoçar em casa", contou a ISTOÉ o caçula dos três filhos, o jurista Miguel Reale Jr. (a filha do meio, Lívia Maria, morreu em incêndio que destruiu um hotel dinamarquês).

Novas amizades Desde que faleceu sua esposa, dona Filomena, em maio deste ano, viaja pouco e sente-se solitário. Imortal da Academia Brasileira de Letras e autor de 60 livros sobre direito, filosofia, crítica literária e memórias, o professor Reale encontrou um novo tipo de amizade. "Hoje os melhores amigos são os leitores das minhas publicações. É uma alegria saber que sou admirado e estou na estante de muita gente que nem sequer conheço. Atribuo a eles os votos que recebi na eleição de ISTOÉ", afirma o jurista, com uma indisfarçável vaidade embutida no sorriso.

VOCÊ SABIA? Sargento na Revolução constitucionalista de 1932, escolhia os vigias noturnos que guardavam o pelotão no front de batalha. Certa vez, dois soldados se esquivaram da tarefa, um alegando ser míope e outro invocando surdez. Com uma sabedoria salomônica, o professor Reale descobriu a solução: os dois montariam guarda em conjunto. "Enquanto um enxerga, o outro ouve o que está acontecendo.