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8) EVANDRO LINS E SILVA
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Parnaíba era um próspero município piauiense no começo do século graças à carnaúba, matéria-prima da fabricação de discos, que só passaram a ser sintéticos após a Segunda Guerra Mundial. Foi por isso que o pai de Evandro Lins e Silva achou melhor que ele nascesse do outro lado da divisa, embora a família vivesse no Maranhão. Alugou uma casa tosca em Parnaíba 20 dias antes do parto, que era para ser feito por um médico conhecido. Mas, a 18 de janeiro de 1912, o doutor estava parindo outra criança em algum cafundó. O pai de Evandro tomou as rédeas da situação e o trouxe ao mundo seguindo as instruções de um livro de medicina.
Água de poço
A família perambulou pelo interior maranhense de 1908 a 1920 (o pai de Evandro, Raul Lins e Silva, era juiz municipal). "Eram lugares ermos em que a água era retirada do poço. Uma corda puxava o balde, não tinha nem manivela", contou Evandro a ISTOÉ. As viagens de 120 léguas (cerca de 600 quilômetros) entre uma comarca e outra eram feitas a cavalo e duravam um mês. "A gente atravessava o mato sem bússola, com a ajuda de um guia. Uma vaca ia junto para garantir o leite. As crianças tinham sarampo, catapora e sofriam também com o impaludismo. À noite, tremíamos de febre terçã."
Em 1929, dois anos depois da mudança dos Lins e Silva para o Rio de Janeiro, Evandro já estudava Direito, mas pouco frequentava as aulas. Tinha arrumado emprego de revisor de jornal e dormia tarde. Logo virou repórter da seção jurídica do Diário de Notícias. Em 1930, cobriu o julgamento do deputado Ildefonso Simões Lopes Neto, que havia assassinado um colega durante um quiproquó nos corredores do Parlamento. Ele foi absolvido graças à defesa brilhante de Evaristo de Morais. "Era um espetáculo fabuloso! Aquilo era um ímã. Achei que encontrava ali o meu caminho." Formado em 1932, Evandro estreou defendendo um réu pobre, de apelido Pitombo, que matara um desafeto à faca. "Absolvido, ele me deu uma facada ao pedir um troco para pegar o bonde quando saísse do presídio." Pegou casos espinhosos como a defesa de réus acusados do crime de sedução. "Se a moça não tinha 21 anos e o rapaz a abandonava, vinha a queixa e a pena chegava a quatro anos. A defesa tentava mostrar que ela era namoradeira." Nessa época, brilhou ao defender sem cobrar honorários os prisioneiros do Estado Novo de Getúlio Vargas. "Digo isso com o maior orgulho: ninguém defendeu maior número de presos políticos. Calculo que foram mais de dois mil." Além de comunistas, havia réus integralistas e descendentes de alemães e italianos, que eram acusados de espionagem na Segunda Guerra Mundial.
Quando a guerra e o Estado Novo passaram, ele se destacou em casos passionais. "Era o encantamento do júri, porque o motivo do crime não era a cobiça ou o roubo e sim os desatinos da alma." Na década de 50, foi advogado da Última Hora e ficou amigo de Samuel Wainer. Certo dia, passeava de carro com os filhos pequenos quando lembrou que precisava ir à casa de Wainer para lhe entregar documentos. "Fiquei na varanda para vigiar as crianças no automóvel. Vi que tinha um cidadão sentado na sala. Wainer gritou: Conheces o Jango?" Logo foi integrado à comitiva do vice-presidente João Goulart à China e, durante a viagem, Jânio Quadros renunciou à Presidência. Com Jango, Evandro seria procurador-geral da República, ministro da Casa Civil e ministro das Relações Exteriores até ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. Em janeiro de 1969, foi cassado pelos militares no poder.
Voltou à advocacia e protagonizou ainda dois episódios polêmicos. Em 1979, defendeu Raul Doca Street, acusado de matar a pantera Ângela Diniz, em Búzios (RJ), e provocou ódio nas feministas. Obteve pena considerada leve ao sustentar a tese da "legítima defesa da honra" (em novo julgamento, sem Evandro, Doca Street seria condenado a 15 anos). Em 1992, foi o acusador no impeachment do presidente Fernando Collor.
Está viúvo desde 1984 (tem quatro filhos, 11 netos e dois bisnetos). Para quem pensa que pendurou as chuteiras, é bom saber que, aos 87 anos, se preparar para defender o líder dos sem-terra, José Rainha, acusado de homicídio no Espírito Santo. "A causa é das mais fáceis. O réu simplesmente não estava no local do crime", anuncia ele, com o entusiasmo de um principiante.
VOCÊ SABIA?
Em 1948, defendeu um dentista que matara um padre na sacristia da igreja, no interior de Minas Gerais. O sacerdote seduzira sua irmã. Um dos tiros atingiu a imagem de um santo. Maria Luísa, mulher de Evandro, desencavou casos de padres pecaminosos da literatura para impressionar o júri e o réu foi absolvido
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