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O Brasileiro do Século

3) MÁRIO HENRIQUE SIMONSEN
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Era infalível. Simonsen chegava do almoço e subia até o seu gabinete na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, para fazer a "sesta". Antes, avisava a secretária: "Me chame em 50 minutos." No horário combinado, ela entrava na sala e despertava o patrão - não de um cochilo para recuperar o fôlego, mas do ritual diário de imersão nos estudos. "Ele nunca dispensou os exercícios matemáticos depois de comer", conta Ivonete Guimarães, que trabalhou 29 anos com ele. "O que mais me impressionava era que, enquanto falava ao telefone, resolvia equações num bloco de papel."

Carioca nascido a 19 de fevereiro de 1935, Mário Henrique Simonsen era, sobretudo, um teórico brilhante e férreo defensor do equilíbrio das contas públicas. Os primeiros estudos foram feitos no Colégio Santo Inácio, onde se tornou vascaíno fanático, por influência dos amigos. Formado em Engenharia Civil, com especialização em Economia, Simonsen começou a lecionar Matemática Pura e Aplicada. Aos 21 anos, conheceu uma jovem estudante que, como ele, frequentava a Praia Vermelha, na Urca. Além de esposa, Iluska foi durante quatro décadas a companheira nos jogos de xadrez. Juntos, podiam atravessar noites inteiras diante do tabuleiro - diversão que Simonsen aposentou ao reconhecer a invencibilidade da mulher. "Não tem graça perder sempre", dizia.

Simplicidade Em 1961, um antigo colega o arrastou para o mercado financeiro. Ao lado de Júlio Bozano, fundou uma distribuidora de valores. Integrante do conselho-diretor, Simonsen ajudou a fazer da instituição o maior banco de investimentos do País. "Tinha uma capacidade incrível de acumular conhecimento, processar informações e traduzi-las de forma cristalina", afirmou a ISTOÉ Paulo Ferraz, presidente do Banco Bozano, Simonsen. "E cabe dizer que cumprimentava cada fun-cionário, do alto executivo ao ascensorista, com muita simplicidade."

Em 1964, ele passou a colaborar com o então ministro do Planejamento, Roberto Campos. Provocou a ira dos sindicalistas ao formular um novo cálculo salarial, pelo qual os vencimentos resultariam da média dos dois anos anteriores, reduzindo o poder aquisitivo dos trabalhadores.

Para compensar o ritmo intenso de trabalho, às sextas-feiras Simonsen levava os amigos e a família (tinha três filhos) para a casa em Teresópolis. Bom de papo e de copo, passava o dia jogando vôlei dentro da piscina e a noite apostando dinheiro em sessões de pôquer. Também insistia em aprender a dirigir. "Certa vez ele entrou num Opala, deu marcha a ré e bateu numa árvore. Engatou a primeira e deu de frente com outra árvore. Aí desceu do carro, levou as mãos à cabeça e disse: 'Nunca mais chego perto de um volante'", conta o economista e amigo Augusto Jefferson Lemos.

Em 1974, Simonsen assumiu o Ministério da Fazenda. Sua gestão foi marcada pela racionalidade econômica. Na época, a contenção de gastos entrou em choque com figurões do regime militar. Deslocado para a Secretaria do Planejamento quando João Figueiredo assumiu a Presidência, sua austeridade incomodava governo, empresários e oposição. "Meu pedido de demissão, em 1979, foi uma espécie de Dia do Fico às avessas. Um Dia do Saio, já que era para felicidade geral da nação", diria mais tarde.

Simonsen reassumiu suas aulas na FGV e ganhou status de maior oráculo da economia no País. Ministros da Fazenda e até o presidente Fernando Henrique Cardoso o consultavam frequentemente. Especialista em música clássica, Simonsen também era um excelente barítono. As salas de espetáculos faziam parte de seu roteiro a cada viagem ao Exterior. Escrevia artigos regulares e descansava ouvindo Mozart e Wagner. Deliciava-se comprando óperas só com a parte da orquestra para se arriscar como cantor solista.

Bom humor Em 1994, descobriu um tumor no pulmão que se espalhou para a cabeça. A rotina de internações jamais tirou de Simonsen o bom humor. Em 1996, após submeter-se a uma radiocirurgia no cérebro durante oito horas, passou num bar e não resistiu: pediu chope e salsichão. Ao chegar em casa, abriu um livro de matemática, fez uma série de cálculos complicadíssimos e comentou: "Pelo menos não estragaram nada aqui dentro!" Morreu a 9 de fevereiro de 1997, aos 61 anos. "Consumia quatro maços de cigarro por dia. Tentou parar, mas lembro que se escondia no banheiro para fumar", afirma o amigo Jefferson Lemos. "Tivesse descuidado menos da saúde e seguramente seria um Nobel de Economia."

VOCÊ SABIA? "Conhece essa moça?", perguntou um amigo de Simonsen, apresentando-lhe uma modelo de corpo estonteante. "Ah, claro. Muito prazer, Roberta Close." Na verdade, estava diante de ninguém menos que Luiza Brunet. "Ele estava deitado numa rede, na casa de um conhecido em Búzios. Quando soube quem eu era, levou um susto tão grande que se espatifou no chão", conta Luiza Brunet