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O Brasileiro do Século

2) CELSO FURTADO
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Ao contrário de outros pensadores ilustres, o economista Celso Furtado não abre mão sequer de uma vírgula do que escreveu no passado. Em primeiro lugar, um esclarecimento: não é por vaidade. Ele acha uma besteira falar de si mesmo. Reverenciado no meio acadêmico, prefere conjecturar sobre a situação política do País a comentar sua vida. Mas um olhar para trás revela, por exemplo, que o clássico Formação econômica do Brasil quase foi condenado às traças de algum depósito velho dos correios. Quando acabou de escrever o calhamaço de 400 páginas, estava na Inglaterra e enviou os originais para o outro lado do Atlântico. Sem resposta do editor, desconfiou de extravio. Foi até uma agência, confirmou a suspeita, ganhou mil pedidos de desculpas e sete libras de indenização. O livro só saiu porque um amigo cauteloso o havia convencido a tirar uma fotocópia dos textos. Com um rolo de filme e um aparelho de projeção, Furtado teve que copiar página por página. "Pelo menos deu para enxugar a celulite verbal", disse a ISTOÉ.

Cicatrizes nas costas Celso Furtado não é autor de uma obra só. Escreveu uma vida cheia de idealismos. As primeiras lembranças remetem à devastação causada pela seca que antecedeu seu nascimento (a 26 de julho de 1920, em Pombal, Paraíba) e fez entre as vítimas parentes de sua mãe. Aos quatro anos de idade, foi ele quem escapou por pouco. As chuvas vieram tão fortes que o rio da cidade transbordou. "A cheia destruiu a nossa casa e tiveram de colocar o fogão na sala. Peguei uma bola, joguei no fogão e o caldeirão fervendo caiu sobre as minhas costas. Até hoje carrego as cicatrizes", conta. Como o pai era um juiz maçom e anticlerical, não recorreu às curas do Padre Cícero, que espalhava milagres próximo dali. "Desde os 13 anos sou ateu. Era para negar o conservadorismo da Igreja da época."

Presente de formatura Em 1939, Furtado mudou-se para o Rio de Janeiro. Para garantir uns trocados, fazia crítica de música para a Revista da Semana. Nos livros de economia ele tropeçou somente no quarto ano da Faculdade Nacional de Direito. Começou a estudá-los sem supervisão. Como sua visão de mundo já estava definida, nunca pôde compreender a existência de um problema estritamente econômico, sem correlações sociais. O "presente" de formatura foi a convocação para integrar a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, em 1944. Apesar de não ter ido para as trincheiras, temia perder a vida numa mina terrestre. O cenário de destruição não impediu que o jovem tenente se apaixonasse pela França - alguns anos mais tarde, concluiu seu doutorado em economia pela Universidade de Paris.

Em 1949, passou a trabalhar na recém-criada Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), em Santiago, no Chile. Defendia a reforma agrária e a industria-lização voltada para o mercado interno. Voltou ao Brasil em 1958 e formulou um plano econômico que resultou na criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), da qual se tornou o principal diretor. Com o surgimento do Ministério do Planejamento, no governo João Goulart, foi nomeado para o cargo. A postura esquerdista causou a cassação de seus direitos políticos, em 1964. "Os latifundiários queriam se ver livres de mim."

No exílio, lecionou nas universidades de Harvard, Cambridge e foi o primeiro estrangeiro contratado da Sorbonne. Até a campanha pela lei da anistia ganhar corpo no Brasil, foram 15 anos que, diga-se de passagem, valeram a pena. Em 1979, quando a maioria dos brasileiros retornava para os trópicos - Furtado voltou para o Rio no mesmo ano -, ele participou de uma feijoada e conheceu a jornalista Rosa Freire D'Aguiar, sua segunda esposa.

Hoje, aos 79 anos, com uma artrose que limita a velocidade de seus movimentos, Furtado fala com uma mansidão apostólica e mantém uma rotina simples. Só fica agitado durante os três meses por ano que passa em Paris - segundo ele, o melhor local para ir ao cinema e escrever. Para ler, qualquer hora ou lugar serve. "Se estiver num consultório médico, devora revistas de fofoca", conta Rosa. "Desde que entrou na Academia Brasileira de Letras, em 1997, providenciei duas estantes novas para colocar os livros que ele não pára de comprar." A paixão pela literatura já lhe rendeu uma reprimenda do ex-ministro da Fazenda Eugênio Gudin: "Você apela para a imaginação em suas análises. Devia escrever romances em vez de ser economista." Furtado nunca deu bola para comentários. Não é romancista, mas rechaça o ar tecnocrático dos colegas da nova geração. E, com esse jeito modesto e espontâneo, virou uma referência obrigatória para se entender o Brasil.

VOCÊ SABIA? Ainda hoje se comove ao lembrar as mulheres da Paraíba que carregavam nas procissões uma foto do governador João Pessoa, morto no dia em que ele completava dez anos, em 1930. "Era como se fosse um santo. Perseguiam brutalmente os inimigos de Pessoa. No dia seguinte ao crime, a primeira coisa que encontrei quando saí de casa foi um cadáver."