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15) OCTAVIO GOUVÊA DE BULHÕES
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Nos tempos de colégio e de faculdade, ninguém podia imaginar que ele daria um bom profissional. Franzino e discreto, Octavio estava longe de polemizar com os colegas sobre tendências políticas. Mantinha-se quieto numa época em que o cenário se polarizava entre fascistas e comunistas, nos anos 20. Nos estudos, tirava notas baixas e passava de ano sempre raspando. "Fui um aluno medíocre, bastante relapso", reconheceria depois. Mas ninguém podia imaginar também que Octavio chegava em casa e, depois das aulas tediosas, debruçava-se durante horas sobre os livros de economia que pegava na biblioteca de casa. Sem nenhuma orientação, devorou a obra do liberal inglês Adam Smith e despertou a vocação que fez dele um economista pragmático e extremamente criativo.
Leitor voraz
Sobrinho-neto do ex-ministro da Fazenda Leopoldo Bulhões (ocupou o cargo nos governos Rodrigues Alves e Nilo Peçanha), Octavio Gouvêa de Bulhões nasceu a 7 de janeiro de 1906, no Rio de Janeiro. Como seu pai era diplomata, passou a primeira infância na França e na Áustria. De volta ao Brasil, tornou-se bacharel de Direito em 1930. O emprego como funcionário do serviço do Imposto de Renda não o deixou exercer a profissão. Pelo contrário, só o incentivou a ler ainda mais. A assiduidade com que Bulhões frequentava as palestras sobre finanças logo chamou a atenção de Oswaldo Aranha, braço-direito do presidente Getúlio Vargas.
Em 1936, ele foi convidado a integrar a seção de estudos econômicos e financeiros do gabinete do então ministro da Fazenda, Souza Costa. Dois anos depois, ganhou uma bolsa de estudos do governo para aperfeiçoar seus conhecimentos na American University, em Chicago.
Nos Estados Unidos, Bulhões se destacou e acabou participando da delegação brasileira na Conferência de Bretton Woods, em 1944, que planejou o funcionamento da economia ocidental no pós-guerra. Neste encontro, 45 países aprovaram a criação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. A experiência no Exte-rior lhe deu a bagagem necessária para tomar atitudes pioneiras no Brasil. Em 1945, modificou o currículo dos recém-criados cursos de Economia no País, junto com Eugênio Gudin. "Antes o que havia não se podia chamar de faculdade. Era uma coisa incipiente, rudimentar, mais voltada para a contabilidade", vangloriava-se. No mesmo ano, criou a Superintendência da Moeda e Crédito (Sumoc), embrião do Banco Central que ele mesmo instituiria duas décadas depois.
Considerado à época o mais audaz dos conservadores brasileiros, Bulhões assumiu o Ministério da Fazenda quando os militares tomaram o poder, em 1964 - embora achasse o governo João Goulart "uma bagunça", sempre garantiu que não sabia da tramóia dos generais. No cargo, implantou um mecanismo de intervenção estatal indireta no mercado: a correção monetária. Além disso, cortou drasticamente o crédito, com o objetivo de reduzir a inflação. Como um aperitivo do que acontece ho-je, muitas empresas quebraram e o desemprego cresceu, mas a corrida dos preços foi estancada rapidamente - os índices caíram de 90% para 25% ao ano.
Chamado pelo colega Roberto Campos de "Santo Octavio", por suas maneiras cordiais e pelo jeito manso de falar, Bulhões tinha o vício de olhar fixamente para seu interlocutor. Casado com sua prima, dona Yedda, teve quatro filhos. Por mais que as obrigações profissionais lhe impusessem almoços de negócios, ele preferia uma comida bem simples. Em casa, gostava de passar horas escutando os discos que formavam uma imensa coleção de música clássica. Sócio da Orquestra Sinfônica Brasileira, adorava Beethoven, Vivaldi, Mozart e Bach. Dificilmente se metia em questões políticas. O adjetivo mais pesado que lançou contra alguém foi "meio demagogo", para o líder político paraibano José Américo de Almeida.
Pelo fim do "monstro"
Ao deixar o governo, em 1967, Bulhões reassumiu suas funções na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e ocupou a presidência do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre). Continuou trabalhando regularmente até poucos dias antes de sua morte. Faleceu a 13 de outubro de 1990, de insuficiência respiratória, pedindo a extinção do "monstro" que criara - a correção monetária -, segundo ele a maior responsável pela inflação.
VOCÊ SABIA?
Homem de hábitos simples, Bulhões era lacônico e discreto. Para os jornalistas, era um sufoco conseguir agendar uma
entrevista com ele. O economista esclarecia não temer que suas palavras fossem deturpadas. "Não tenho nenhuma queixa contra os repórteres. O que eu tenho mesmo é preguiça de falar", confessava, com a voz pausada.
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