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14) CAIO PRADO JÚNIOR
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Para qualquer mortal comum seria um programa de índio. Pegar o Fusca barulhento e sair rodando pelo Brasil foi a idéia de Caio Prado Júnior quando ele retornou de uma viagem à antiga União Soviética, em 1933. Entusiasmado pelo regime socialista, achou melhor trocar os livros pela mochila nas costas. "A cada lugarejo que chegava, adaptava-se sem contestar ao estilo de vida de seus moradores, passando a andar a pé, de burro ou de barco para entender como era a vida nesses lugares", disse a ISTOÉ Maria Cecília Naclério Homem, viúva de Prado Júnior. Analisando as peculiaridades econômicas e a geografia de cada região que visitou, ele coletou material teórico e experiência pragmática para escrever clássicos como Formação do Brasil contemporâneo e História econômica do Brasil. Embora jamais tenha pretendido ser chamado de economista, Prado Júnior virou nome indispensável na estante de quem pensa em compreender o desenvolvimento do País.
Descendente de tradicional família paulistana, Caio Prado Júnior (nascido a 11 de fevereiro de 1907, em São Paulo) foi criado por governantas alemãs sob rígida disciplina, que foi reforçada no colégio jesuíta São Luis. Quando ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, em 1924, o pai lhe deu de presente a preciosa biblioteca de um jurista que acabara de morrer. Depois de uma viagem que fez sozinho ao Oriente Médio, aos 18 anos, sentiu necessidade de conhecer o próprio País. Diante da miséria que lhe saltou aos olhos, rompeu com a oligarquia. "Eu era um bur-gu-ês rico e até então ignorava a nossa realidade", disse, então. Em 1926, estreou na política filiando-se ao mesmo partido de seus professores universitários, o Partido Democrático (PD), recém-fundado por seu tio-avô, o conselheiro Antonio da Silva Prado.
Á procura de O capital
Em 1928, quando se formou em Direito, Prado Júnior até tentou investir na carreira de advogado, trabalhando com o jurista Abraão Ribeiro, mas já estava decidido: a prioridade seria lutar para amenizar a precariedade da vida de milhões de brasileiros. A esta altura, estava decepcionado com a atuação do PD, na verdade, uma dissidência do não menos oligárquico Partido Republicano Paulista (PRP). Mesmo desanimado, se manteve firme na Revolução de 1930, que acabou conduzindo Getúlio Vargas ao poder.
Entretanto, em 1931, ingressou no Partido Comunista Brasileiro e procurou em vão nas livrarias paulistanas a bíblia da esquerda, O capital, de Karl Marx. A solução foi importar a obra da Europa e o resultado de sua leitura foi publicado no livro Evolução política do Brasil, em 1933, uma interpretação da História do País segundo os princípios marxistas. O engajamento logo foi reconhecido pelos camaradas, que o escolheram como vice-presidente da Aliança Nacional Libertadora (ANL). As arbitrariedades do Estado Novo, que perseguia esquerdistas a torto e a direito, o levaram para a cadeia em 1935. Ficou encarcerado dois anos em São Paulo, até ganhar liberdade e exilar-se na França, regressando ao Brasil somente em 1939.
Apesar de comunista, em 1945, Prado Júnior se transformou em um dos principais mentores da criação da União Democrática Nacional (UDN). Ele entendia que, enquanto o PCB estivesse na clandestinidade, era preciso arregimentar as forças contrárias ao Estado Novo. No breve período em que o PCB saiu da ilegalidade (de 1945 a 1947), integrou a bancada do partido na Assembléia Legislativa de São Paulo - estava em viagem pelo Paraná e Santa Catarina quando ouviu no rádio do carro a notícia de que havia sido eleito. O mandato foi cassado com o cancelamento do registro do PCB.
Falta de provas
Paralelamente à militância política, cuidava dos negócios. Em 1944, havia fundado a Editora Brasiliense com o escritor Monteiro Lobato. Nos anos 50, Prado Júnior criou a revista Brasiliense, que debatia as causas do atraso econômico do Brasil. A revista fechou em 1964, ano do golpe militar, e ele passou uma semana detido no Dops. Em 1968, -Sérgio Buarque de Holanda aposentou-se e chamou Prado Júnior para assumir a cátedra de História do Brasil na USP em seu lugar. Mas no mesmo ano foi cassado e aposentado por decreto. Em 1970, exilou-se de novo, dessa vez no Chile, retornando no mesmo ano para ser julgado pelo Tribunal Militar. Foi condenado e preso na Casa de Detenção de Tiradentes, em São Paulo e, em 1971, absolvido por falta de provas pelo Supremo Tribunal Federal.
Amante da natureza, cuidava com extremo zelo de seu jardim para torná-lo atrativo aos pássaros. "Sentia prazer em saber que, numa das árvores que plantou no quintal, morou um casal de sabiás por quase 40 anos", conta a viúva. "Homem dos mais elegantes, apresentava-se sempre muito bem em qualquer circunstância", observa o amigo João de Scantimburgo. Vaidoso, não perdoava a barriga, tanto em mulheres como em homens.
Casou três vezes e teve dois filhos e sete netos. Mesmo idodo, fazia algumas travessuras. Tocava a campainha das casas e entortava o espelho de carros estacionados, entre outros atos gratuitos, típicos da infância. Antes do trabalho intelectual, dedicava algumas horas a um curioso ritual. Praticava ioga, tomava três banhos e em seguida bebia chá de alho, excelente remédio para melhorar o desempenho cerebral, segundo ele garantia. "Eu o considerava um atleta do conhecimento", diz Maria Cecília. Morreu de insuficiência pulmonar a 23 de novembro de 1990, prestes a completar 84 anos.
VOCÊ SABIA?
Participava de uma recepção para o candidato oficial à Presidência, Júlio Prestes. Para provocá-lo, Prado Júnior deu um "viva" entusiástico ao outro candidato, Getúlio Vargas. A ousadia lhe custou a primeira de suas sucessivas prisões
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