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12) PAUL SINGER
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Se nem as quilométricas filas de carros da cidade de São Paulo fazem Paul Israel Singer perder a calma - é apaixonado pelo caos da metrópole -, assistir aos debates dos quais ele participa deve ser programa dos mais monótonos para quem gosta de bate-boca. As divergências teóricas com outros economistas ele resolve falando manso e gesticulando quase nada. "Não me lembro de ter visto meu pai nervoso alguma vez na vida", disse a ISTOÉ o filho mais velho, André Singer. Mellanie, casada com o economista há mais de 30 anos, agradece aos céus pela infinita paciência do marido, de quem discorda radicalmente quando o assunto é política econômica. Um dos fundadores do PT, Singer é dos críticos mais ferrenhos do governo tucano, ao contrário da esposa, filiada ao partido de FHC. Em casa, as discussões são pouco acaloradas, já que o economista é um entusiasta da diplomacia. "Não briga com ninguém, mas não muda de idéia só para agradar", disse o filho. Nas horas em que passou discutindo no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) - ninho de intelectuais da década de 70 -, não fazia outra coisa senão mediar as querelas ideológicas entre os colegas.
As lições de tranquilidade ele aprendeu com a mãe, heroína que passou dois anos fugindo das tropas nazistas com o filho único debaixo do braço. Judeu austríaco de Viena (nascido a 24 de março de 1932), Singer só foi descobrir a origem étnica quando Hitler invadiu a Áustria, em 1938. O moleque queria agitar as bandeiras da suástica na praça e, para impedir o ato de loucura do filho, a mãe explicou por que ele não seria bem recebido na festa. O desembarque da família no Brasil, em 1940, foi no dia em que o futuro economista completava oito anos. Pouquíssimos se lembraram da data, mas o garoto não se decepcionou. "Eu entendi que a ocasião era especial demais para isso", afirmou Singer a ISTOÉ. Saudando em alemão os parentes que já estavam por aqui, demorou a aprender o novo idioma e entre a papelada que guarda em casa está uma pilha de provas do ginásio. "É só para lembrar como eu escrevia mal o português."
Aulas improvisadas com um primo ajudaram-no a aprender o idioma, mas foi autodidata nas lições de economês. As cadeiras da Faculdade de Economia e Administração da USP só tiveram a honra de abrigar o aluno brilhante em 1956, quando ele já tinha 24 anos e sabia tudo e mais um pouco do assunto. Entrou tardiamente na universidade porque a família empobreceu na chegada ao Brasil e, para ajudar no sustento, foi trabalhar na fábrica de elevadores Atlas. A experiência foi fundamental para despertar em Singer a paixão pela luta operária, que nunca mais abandonaria. Filiado ao Sindicato dos Metalúrgicos, liderou greves e assembléias até abandonar o ofício. "Ele escolheu atuar no lado dos oprimidos. E não conheço mais ninguém com tamanha coerência ideológica", disse o amigo Guido Mantega.
Garotão de 40 anos
Tanto engajamento político não passaria incólume aos olhos dos generais da ditadura. Numa manhã de 1974, a polícia tocou a campainha da casa em Higienópolis, zona central de São Paulo. "Perguntaram se eu não tinha um filho chamado Paulo. Estavam acostumados a prender garotões e eu já tinha mais de 40 anos", lembra. Achou que iria apenas prestar depoimento e disse à esposa que voltaria para o almoço. Mas a refeição em família só aconteceu uma semana depois. "Não fui torturado, de fato, mas foi uma tortura ficar 11 anos fora das salas de aula." Em 1969, Singer ganhou aposentadoria compulsória como professor da USP, para onde só voltou em 1980 e permanece até hoje. "Ensinar é um ato de doação e sempre tive a vocação." Após a abertura política, longe dos alunos só ficou durante o tempo em que ocupou a Secretaria de Planejamento da Prefeitura de São Paulo, no governo Luiza Erundina (1989-1992), e sofreu bastante. "Gosto de ouvir o que eles têm a dizer e aprendo muito." A frase só poderia ter vindo de um férreo defensor da pluralidade de idéias. Nem a longa amizade com o presidente Fernando Henrique Cardoso ele rompeu, apesar das divergências ideológicas. "Ele critica o Plano Real, mas os dois se encontram sempre que podem. Meu pai jamais desrespeitou opiniões contrárias às suas", concluiu o filho André Singer.
VOCÊ SABIA?
Quando foi preso pelo regime militar, um dos policiais desistiu de arrancar qualquer coisa do economista e perguntou: "Já que o senhor é considerado tão bom economista, se eu abrir uma indústria de leite de soja vou ter futuro?" Singer não lembra o que respondeu, mas foi, sem dúvida, "alguma coisa bem positiva, para agradá-lo".
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