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O Brasileiro do Século

11) DELFIM NETTO
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Frases como "a única função do marxismo é fazer pensar, mas é pena que os marxistas ainda não descobriram isso" injuriaram e fizeram comunistas e socialistas soltarem fogo pelas ventas. Os adversários políticos - colecionou uma porção deles durante a vida - de Antônio Delfim Netto já se acostumaram à verve ferina. A ex-ministra Dorothéa Werneck soube bem o que é tê-lo jogando no outro time quando um belo dia pela manhã abriu o jornal e leu a frase lapidar: "A ministra merece o prêmio Nobel de Economia. Finalmente descobriu que o câmbio influencia a inflação." Aliás, ministros da Fazenda são o alvo predileto de Delfim desde que ele deixou o posto, que ocupou de 1969 a 1974. Rubens Ricúpero também provou da língua afiada do colega: "Ele é o preferido das donas de casa porque nunca mente. Aparece na tevê dizendo que fez o início do começo, ou seja, nada." A ironia refinada e a eterna disposição para afrontar adversários mostra que Delfim é um homem pouco preocupado com a diplomacia, embora tenha ocupado o cargo de embaixador do Brasil na França (1975 - 1977). A perspicácia em abundância para duelar com os rivais é quase tão característica quanto a preocupação com o excesso de peso - chegou a marcar 108 quilos na balança em 1982.

Remo seco Para disfarçar o insucesso dos incontáveis regimes que já fez na vida, Delfim montou um guarda-roupas peculiar. Pendurados nos cabides está uma infinidade de ternos escuros, todos muito parecidos. Não fosse a variada coleção de gravatas e os amigos pensariam que o economista está sempre com a mesma roupa. Nos anos 80, quando ocupou a pasta do Planejamento (1979-1985), comprou um aparelho de remo seco para se exercitar, mas desistiu porque bastava começar para lembrar do balanço de pagamentos. A escolha do aparelho não foi aleatória. Acostumado a estar fora de forma, Delfim tem orgulho de dizer que praticou remo no rio Tietê, em São Paulo (onde nasceu a 1º de maio de 1927), aos 14 anos, antes de fazer o curso de contador e, mais tarde, de Economia na Universidade de São Paulo, onde passou a lecionar logo depois de terminar a graduação.

Da cadeira de professor titular da Faculdade de Economia e Administração da USP saiu para ocupar a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, em 1966. Não deu nem tempo de esquentar o lugar e, alguns meses depois, o então presidente Costa e Silva o convidou para ser ministro da Fazenda. Como um dos homens fortes dos governos Costa e Silva, Médici e Figueiredo, no regime militar -- que ele prefere chamar de "regime autoritário" - mostrou sua indiscutível competência. Principal responsável pelo milagre econômico, a "era Delfim" deu ao País um crescimento recorde entre o final dos anos 60 e o início dos 70 (10% ao ano). A frase "é preciso fazer crescer o bolo para depois distribuí-lo", que explica sua famosa "teoria do bolo", ele jura nunca ter dito, mas ninguém jamais reivindicou sua autoria. "Ele foi um ótimo economista, antes de se converter num político em tempo integral", alfinetou a economista Maria da Conceição Tavares. Apesar do reconhecido brilho como economista, Delfim, até hoje, provoca urticárias na esquerda mais ortodoxa, que identifica nele um dos símbolos do período em que os militares mandavam e desmandavam no País.

Delfim's boys Há mais de 30 anos circulando pelos corredores de Brasília, tornou-se figura folclórica da política brasileira. Prova do carisma e fidelidade que inspira é a união da equipe que carrega debaixo do braço desde que desembarcou na capital federal pela primeira vez, em 1967. Chamados de"Delfim's boys", a trupe é formada por ex-alunos que o assessoram em qualquer cargo público que ocupe. Tanta dedicação só reforça a tese defendida por sua assessoria: trabalhar com ele é das coisas mais agradáveis. Mesmo quando acorda de mau humor tem uma piada na ponta da língua. Exercendo seu quarto mandato de deputado federal (o primeiro pelo PPB, depois da extinção do PDS), contenta-se dormindo de três a quatro horas por noite e tira o atraso do sono cochilando nos trajetos de carro. Em tempos de eleição, dorme menos ainda, no entanto, cochila mais, já que corre o Estado inteiro fazendo campanha. Mas não pede voto porque "seria subestimar a inteligência do eleitor. Ele me conhece e vota se quiser." Aliás, não é preciso muito para entender como pensa Delfim. Basta saber que, certa vez, ele soltou a frase peculiar: "Não é segredo para ninguém que os países socialistas não são as nações dos meus sonhos."

VOCÊ SABIA? Se, durante as refeições, alguém solicitar "passe o sal, por favor", simplesmente ignora. Assim como, em hipótese alguma, pede o saleiro. Não se sabe o motivo da superstição, mas Delfim não pega o saleiro da mão de ninguém.