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O Brasileiro do Século

10) ROBERTO CAMPOS
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Bob Fields ou Roberto Campos, jocosamente adaptado ao inglês. Ninguém foi tão execrado pela esquerda durante o afã nacionalista dos anos 50 e 60 quanto ele. O apelido insinuava submissão aos interesses dos trustes americanos. As marchas de protesto dos estudantes pelas ruas terminavam invariavelmente com o enterro simbólico de Bob, que encarnava a figura do traidor da pátria. "Fui o bode expiatório de uma irrupção irracional", afirmou Campos a ISTOÉ. Hoje, o receituário do economista, diplomata e parlamentar (dois mandatos no Senado e dois na Câmara Federal, de 1982 a 1998), inspira a política econômica dos que tentam imitá-lo no poder. "A heresia virou profecia. O mundo caminhou para o que eu previa."

Nascido a 17 de abril de 1917, em Cuiabá, o pai era diretor de escola primária e a mãe pertencia à família de fazendeiros do Pantanal. Tinha só cinco anos quando o pai morreu, aos 33 anos. "Na época dizia-se que era nó nas tripas. Acho que foi vítima de um infarto." A mãe, ludibriada na partilha de uma herança, debruçou-se na máquina de costura para sustentar o menino e a irmã Catarina, a Catita. Atraído pela liturgia da Igreja, mas também pelo ensino gratuito, ele entrou no seminário católico em Guaxupé (MG), próspero centro cafeeiro antes da depressão dos anos 20, para onde a família se transferiu. Depois, estudou Teologia em Belo Horizonte e só não virou padre por não ter a idade canônica de 22 anos. "Menos mal. Não daria um bom religioso por causa da rebeldia intelectual."

Analfabeto erudito Lecionou Latim e Astronomia em Batatais (SP) - onde se casou com Stella, que lhe daria três filhos e cinco netos - antes de tentar a sorte no Rio de Janeiro. Naqueles dias, sorte era arranjar emprego público. Havia concurso para escriturário, mas ele não sabia datilografar. Quis ser inspetor de ensino, mas pediam diplomas e o dele não valia nada - o seminário de Minas não era reconhecido no Rio. "Senti-me um erudito analfabeto." Restou-lhe o Itamarati que não exigia canudo. Em 1941 conseguiu um lugar na seção comercial da embaixada brasileira nos Estados Unidos, "um serviço intenso e monótono". À noite, estudava economia na Universidade George Washington. "Fui um economista sob protesto. Não tinha afinidade com a matéria e me achava despreparado."

Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, porém, a diplomacia econômica estava em alta. Participou da criação da ONU, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Nessa época, foi acusado de flertar com a esquerda, acreditem. No comitê administrativo da ONU, ele se aliou ao delegado da ex-União Soviética ao pleitear a "diversificação racial" no quadro de funcionários. "Só não queria que as Nações Unidas virassem um clube americano e europeu." No máximo, era um "reformista romântico" que havia lido Karl Marx "sem entusiasmo". O guru de Campos era o austríaco Friederich Von Hayek, "filósofo, jurista, sociólogo, poliglota e, sobretudo, liberal", derrete-se Campos.

No centro do poder De volta ao Brasil, a partir dos anos 50, o encontramos no centro das decisões econômicas de sucessivos governos. Ajudou Getúlio Vargas a criar a Petrobras (se o presidente lhe desse ouvidos, uma empresa mista, e não estatal). Alinhavou o famoso Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, que pretendia avançar 50 anos em cinco. O projeto de Campos tinha três vertentes: 1) austeridade orçamentária, que JK não gostou; 2) liberação cambial, que o presidente preferiu adiar para após as eleições (qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera coincidência); e 3) plano de desenvolvimento, que JK adorou. Aí o presidente acrescentou um coelho tirado de sua própria cartola: a construção de Brasília. "JK era uma pilha de simpatia humana, mas o desenvolvimentismo dele acabou em bancarrota e o Brasil estava cambialmente insolvente quando Jânio Quadros tomou posse."

Era embaixador em Washington quando foi convocado pelo primeiro-ministro Tancredo Neves, após a renúncia de Jânio: "Por favor, faça um plano para salvar o País. Vou submetê-lo ao Congresso em 15 dias." Campos reclamou que era pouco tempo. "Ora, os problemas não variam e as soluções são sempre as mesmas. Faça uma colagem dos planos anteriores", ordenou Tancredo. Em 1964, ao apresentar sua renúncia ao cargo de embaixador a João Goulart, desabafou: "Cansei de ser o intérprete da confusão brasileira perante os americanos."

Até hoje Campos nega qualquer envolvimento em intrigas ou conspirações que resultassem no golpe de 1964. "Ninguém ajudou Jango a cair. Ele assustou a classe média ao dar espaço para os discursos explosivos do cunhado Leonel Brizola." No governo de Castello Branco, como ministro do Planejamento, Campos pôde, enfim, ditar as cartas. "Castello era um homem de visão. Um dia, me chamou pa-ra pedir tratamento diferenciado ao governador do Maranhão, José Sarney, e ao prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães. E ainda me disse: Temos de fazer das tripas coração para ajudá-los porque são rapazes de futuro!" Aos 82 anos, como um profeta amargurado, Campos reclama da velhice e cita o filósofo alemão Schopenhauer: "Até os 40, escrevemos o texto. A partir daí, fazemos o comentário e, depois dos 70, nos limitamos às notas de rodapé."

VOCÊ SABIA? "Pode-se ser infiel a uma mulher, mas jamais a um tipo de mulher - as loiras", costuma dizer, embora se considere um "patinho feio". Atribui a obsessão por mulheres claras ao período no Exterior como diplomata. "Para os anglo-saxões, a dieta é a loirice", brinca, esquecendo que casou com a loira Stella antes de entrar para o Itamaraty.