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O Brasileiro do Século

EDITORIAL
Entre barris e sacos de trigo

O troar dos canhões era ensurdecedor e as explosões clareavam a noite. Era a Revolta da Armada que sacudia o Rio de Janeiro. Logo o boato se espalhou como fogo em palha seca: iam prender Rui Barbosa. Na noite de 12 de setembro de 1893, o jurista escondeu-se num moinho no cais do porto. Ressabiado, dormiu atrás de barris e sacos de trigo. Ao acordar, disfarçou-se de turista e embarcou no navio Madalena, como clandestino, navegando até alcançar águas mais calmas. A fuga para Buenos Aires era providencial. Desde que congestionara o Supremo Tribunal Federal com pedidos de habeas-corpus para libertar os presos políticos, ele andava causando muita dor de cabeça ao presidente Floriano Peixoto. Era, inclusive, apontado como o líder intelectual da rebelião em curso.

Antes de zarpar, ele pedira asilo na legação (como se chamavam na época as embaixadas) do Chile, que funcionava numa pensão da rua Dona Luísa, em Santa Teresa. Ali ficou seis dias. Quando foi decretado estado de sítio no Rio e em Niterói, armou o plano de fuga. Menos de um mês depois, acreditando que os ânimos já estavam serenados, tentou voltar ao Brasil. Ainda em alto mar, soube que tivera a prisão decretada e, a bordo da lancha Luci, transferiu-se para um navio sob o comando dos rebeldes. O destino de Rui Barbosa seria, então, Lisboa, até fincar âncora em Londres para um exílio que durou pouco mais de um ano. Mesmo longe dos olhos inimigos, continuou alvo da maldade alheia. No Rio, circulou a versão de que, por pedantismo, colocara uma placa na porta de sua casa londrina: "Ensina-se inglês ao ingleses." Pura maledicência. Como defensor intransigente das liberdades civis, Rui Barbosa calaria os desafetos e, passada a tempestade, se tornaria o jurista mais destacado do século XX, segundo os leitores de ISTOÉ, homenagem que coincide com a comemoração, em 1999, dos 150 anos de seu nascimento.