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O Brasileiro do Século

12) Joaquim Cruz

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O menino pobre que vivia apostando corrida descalço com os moleques em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, sonhava ser jogador de basquete. Um dia, incentivado pelo amigo Carlos Wanderley, criou coragem e foi à Fundação Educacional de Brasília pedir para jogar - iniciava ali, em 1974, uma carreira brilhante que o transformaria num dos maiores atletas do mundo. Joaquim Cruz contudo nunca subiu no pódio pela pontaria das mãos e sim pela destreza dos pés. Mas não foi o basquete que lhe trouxe a fama. O técnico Luís Alberto de Oliveira teve sensibilidade suficiente para ver que, apesar da diferença de um centímetro e meio entre uma perna e outra, tinha à sua frente um corredor nato. Difícil foi convencer o garotão de 1,90 m de altura que ele havia nascido para o atletismo. "Eu pensava em desistir, achava um esporte muito solitário e queria mais era me divertir com os amigos", lembra Joaquim Cruz.

Quatro anos mais tarde, com 15 anos, Cruz ganhava os 400 metros e os 800 metros no Brasileiro de Menores e no Sul-americano do Uruguai, iniciando sua impressionante coleção de medalhas. Ainda em 1978, ganhou a de ouro nos 1.500 metros do Mundial de Menores. Em 1979, mais três de ouro no Sul-americano da Bolívia e Mundial Juvenil de Turim. Invicto, foi campeão em 1980 no Mundial de Menores do Canadá. A carreira de Cruz ganhou impulso definitivo em 1981, quando aos 18 anos bateu o recorde mundial juvenil dos 800 metros rasos, com a marca de 1m44s3, no Troféu Brasil de Atletismo. Disciplina e determinação deram a ele os títulos mais desejados por um atleta: as medalhas de ouro e prata nas Olimpíadas, o primeiro lugar nos Jogos Pan-Americanos e cinco das dez melhores marcas nos 800 metros em todos os tempos.

Bandeira
"Quinca", como é conhecido, mudou-se para Oregon, Estados Unidos. Distanciando-se da infância pobre em Taguatinga, descobriu o valor que os americanos dão aos vencedores e recebeu todos os incentivos, conseguindo formar-se em Educação Física e Biologia ao mesmo tempo que treinava o máximo que seu corpo permitia. Joaquim Cruz ainda era um ilustre desconhecido da maioria dos brasileiros até a Olimpíada de Los Angeles, em 1984, quando ao final da prova dos 800 metros rasos agitou a bandeira nacional e deu a volta olímpica. Depois de 1min43s cravados corria para abraçar Luís Alberto Oliveira pela vitória. Como se a medalha de ouro não bastasse, na mesma prova bateu o recorde olímpico do cubano Alberto Juantorena, que em Montreal, 1976, alcançara a marca de 1min43s50. Cruz mantinha a segunda posição até os 100 metros finais quando, numa arrancada impressionante, ultrapassou o queniano Edwin Koech e seguiu vitorioso até a linha de chegada. Foi a primeira e única medalha de ouro do Brasil em Los Angeles. E a sexta na história do Brasil nos Jogos.

Embora o País inteiro tivesse torcido por ele naquele momento, sua cabeça não compreendia nada do que tinha acabado de acontecer. "Eu era um garotão de 21 anos que nem sabia o que era uma Olimpíada, só dei importância muitos anos depois", diz. No dia seguinte à vitória, já estava de volta à rotina dos treinos diários sem sequer parar para as comemorações. Os 1.500 metros ficaram comprometidos porque o barulho na Vila Olímpica atrapalhava seu sono. Cansado, decidiu abandonar nas eliminatórias.

Acima da média
Aquela final em Los Angeles revolucionou o atletismo. Agora ela deixava de ser uma prova para atletas apenas resistentes e a partir de então seria necessário um estilo especial como o de Cruz, com uma velocidade acima da média dos meio-fundistas. Três anos depois, ele venceria também os Jogos Pan-Americanos de Indianápolis correndo os 1.500 metros em 3min47s, mais uma vez graças à sua espetacular arrancada no final da prova. Em Seul, 1988, voltou a correr pelos 800 metros e conquistou a medalha de prata com 1min43s90.

Percalços
Entretanto, uma série de lesões nos pés, a partir de 1982, comprometeu o futuro do campeão que não abandonou mais as salas de cirurgia. A primeira foi no talo ravicular do pé direito, seguindo-se outras sete operações no tendão de Aquiles dos pés direito e esquerdo, além de inúmeros problemas musculares, tantos que o próprio atleta perdeu a conta. Daí em diante, as vitórias sempre vieram alternadas com os problemas, levando o campeão a pensar em desistir em vários momentos. Mas Joaquim continuava persistindo e para superar as deficiências ocasionadas pelas longas temporadas sem treinos, corria até 100 quilômetros por semana nos períodos de maior dedicação. Mesmo assim, acabou ficando fora das temporadas de 1986, 1989, 1991 e 1992.

No Pan-Americano de Mar del Plata em 1995, a última grande competição da qual participou, correu nos 1.500 metros recém-recuperado de outra contusão e mesmo assim ganhou a medalha de prata. A despedida foi no dia 6 de julho de 1997, no último dia do Troféu Brasil de Atletismo, no Rio de Janeiro.

Você sabia?
Antes de se tornar campeão olímpico, Joaquim Cruz foi feirante (ajudando o pai que vendia laranjas), além de engraxate e vendedor ambulante de milho e "churrasquinho" em Taguatinga (DF).

Pódio

  • 1984 - medalha de ouro dos 800 metros rasos nas Olimpíadas de Los Angeles, com o tempo (recorde olímpico na época) de 1m43s.
  • 1987 - medalha de ouro dos 1.500 metros rasos nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, com o tempo de 3min47s.
  • 1988 - medalha de prata dos 800 metros rasos nas Olimpíadas de Seul, com o tempo de 1min43s90.
  • 1995 - medalha de prata dos 1.500 metros rasos nos Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata.