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11) Adhemar Ferreira da Silva
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Em 1947, um negro alto e magro entrou no ginásio do São Paulo Futebol Clube, então no Canindé, zona norte da capital paulista, para assistir ao treino de salto triplo de seu amigo Ewald Gomes da Silva. Gostou tanto que resolveu aprender a saltar. Logo no primeiro salto, uma surpresa. Alcançou a marca de 12,89 m, incomum para principiantes, que no máximo conseguiam atingir os 11 m. Nascia o fenômeno Adhemar Ferreira da Silva.
Entrou em cena o técnico de atletismo Dietrich Gerner, alemão radicado no Brasil, que adotou o garoto iniciante. A técnica e a racionalidade alemã de Gerner, treinador do São Paulo, foram fundamentais para as futuras conquistas de Adhemar. Mas a rápida evolução que teve provou que o principal ingrediente desta fórmula de sucesso era mesmo sua inclinação natural para o atletismo. No dia 1º de junho de 1947 sua marca era 13,05 m, dez dias depois pulou para 14,22 m e no dia 18 do mesmo mês chegou a saltar 14,64 m. Em apenas 18 dias aumentou a marca em 1,59 m, um salto fenomenal para um mero principiante.
A mão de Deus
Nada mal para um amador que trabalhava de manhã e à tarde, estudava à noite e só tinha tempo para treinar na hora do almoço. Paulistano de origem muito humilde, com apenas 20 anos, chegou cheio de esperanças à Olimpíada em 1948, em Londres, mas nem sequer disputou a final, ficou com o 11º lugar. As 120 mil pessoas no Estádio de Wembley assustaram o atleta ainda inexperiente. Mas as vitórias ainda estavam por vir. Em 1950, disputando o Campeonato Paulista de Atletismo, no Clube de Regatas Tietê, alcançou o recorde mundial do japonês Tijima, que em 1936 havia saltado 16 m. E já em 1951, superou esta marca em um centímetro. A partir daí, romper recordes mundiais tornou-se rotina.
Chegou às Olimpíadas de 1952, em Helsinque, na Finlândia, mais confiante. Ninguém, nem mesmo ele, no entanto, imaginava que seu desempenho seria tão brilhante. Adhemar fez uma competição histórica, superando, em seis tentativas, quatro vezes seu recorde mundial. Vestia a camisa nº 62 do Brasil e um agasalho branco com o distintivo do São Paulo Futebol Clube. Para ele, foi Deus quem o inspirou naquele dia. "Não era nem a mão de Deus, era Ele inteiro. Era um dia em que os pássaros cantavam e os anjos andavam no céu. São em dias assim que os atletas batem recordes", lembra hoje Adhemar, aos 71 anos. No primeiro salto, foram 16,05 m, no segundo, 16,12 m, caiu para 15,47 m, subiu novamente para 16,09 m, desceu para 16,04 m e encerrou a competição com o salto espetacular de 16,22 m, conquistando a medalha de ouro.
O criador da volta olímpica
Com tantos recordes num só dia, os finlandeses ovacionaram o brasileiro. "As pessoas no estádio gritavam meu nome sem parar". Mas Adhemar só ouviu os gritos depois que tudo estava terminado; até então se mantinha num estado de concentração tal que nada do que se passava ao redor chegava aos seus olhos ou ouvidos. "Depois do que tinha acontecido em Wembley, eu precisava me concentrar", conta. Subir ao pódio com tal clima de euforia e agitação deixou o atleta quase fora de si. Quando recebeu as flores, ouviu o Hino Nacional e a bandeira brasileira foi erguida no mastro já estava tomado pela emoção. Nesta hora um juiz lhe pediu que saudasse o público. Adhemar começou a dar uma volta completa na pista para agradecer a platéia. "Inventei naquele instante a volta olímpica, hoje consagrada no esporte."
Em 1955, Adhemar saltou 16,56 m no Pan-Americano do México, a maior marca que alcançou em toda a sua carreira, reconquistando a condição de melhor do mundo. Um ano depois, iria para Melbourne, na Austrália. Mais uma Olimpíada, mais um recorde: alcançou desta vez os 16,35 m. Mesmo diminuindo sua média, Adhemar ganhou mais uma medalha de ouro. Agora o atleta estava quase satisfeito. Já tinha quatro títulos: bicampeão olímpico, campeão pan-americano e campeão paulista. Mas queria disputar ainda mais uma vez os Jogos.
Genuíno amador
Roma, 1960. Era a quarta Olimpíada da qual participava. Adhemar não desconfiava de que não estava bem de saúde, já que vinha mantendo boas marcas. Os resultados não foram os esperados. Saltou 16,06 m e só chegou ao 11º lugar. De volta ao Brasil, o diagnóstico: tuberculose. Chegava ao fim a carreira de um atleta excepcional na história do esporte mundial. Não ganhou rios de dinheiro, mas orgulha-se de ter sido genuinamente amador. Até hoje, é o único atleta brasileiro a conquistar duas medalhas de ouro olímpicas.
Você sabia?
Funcionário da Prefeitura de São Paulo, em 1953 Adhemar foi demitido por Jânio Quadros por ausentar-se para disputar o Sul-Americano no Chile. "Em meu mandato, não há lugar para vagabundos esportistas", justificou Jânio.
Pódio
- Medalha de ouro no salto triplo nas Olimpíadas de Helsinque, Finlândia (16,22 m), em 1952 e recordista mundial com a mesma marca.
- Medalha de ouro no Pan-Americano do México (1955) e novamente recordista mundial com a marca de 16,56 m.
- Medalha de ouro no salto triplo nas Olímpiadas de Melbourne, Austrália, em 1956 (16,35 m).
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