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O Brasileiro do Século

3) Garrincha

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Era um treino do Botafogo no campo de General Severiano, onde hoje existe um shopping-center. "Você joga de que, meu filho?", perguntou o técnico Gentil Cardoso. "De chuteiras, moço." Caíram todos na gargalhada e o garoto, chateado, tentou remendar: "Se quiser, posso jogar descalço. Não ligo para isso". De cara amarrada, o treinador explicou: "Qual é a posição?" Escalado na ponta direita do time reserva, o desconhecido descadeirou ninguém menos que Nilton Santos, um dos maiores laterais do futebol brasileiro em qualquer época. "A bola era a maior amiga e a principal distração daquele garoto. Era só o que sabia fazer", conta Nilton Santos.

Doença grave
Na opinião de treinadores, preparadores físicos, médicos e psicólogos, Manoel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, nascido em 28 de outubro de 1933, em Pau Grande (RJ), tinha tudo para dar errado. Os testes psicotécnicos da Seleção Brasileira estabeleciam um mínimo de 123 pontos. Garrincha nunca ultrapassou 38. Em um dos testes, ele fez um homenzinho com cabeção. Irritado, o psicólogo perguntou o que era aquilo. "É o Quarentinha", seu colega de Seleção e do Botafogo. Garrincha era assim, desmoralizava até os testes psicotécnicos. Na ficha médica dele, constavam duas graves doenças para um atleta profissional: "genu valgo" na perna esquerda e "genu varo" na direita. "Em bom português, o Mané tinha um joelho esquerdo virado para o lado de fora e o direito, para dentro", explica Lídio Toledo, ex-médico da seleção brasileira e o Botafogo. Em 1963, uma junta médica queria operar Garrincha, mas Lídio não deixou. Marcou consulta numa clínica ortopédica em Florença, na Itália. O médico Oscar Scaglietti, uma celebridade naquele tempo, examinou o jogador e, ao saber de quem se tratava, concluiu: "Eu recomendaria uma cirurgia, mas só depois que ele abandonar o futebol. Operá-lo agora poderia comprometer seus dribles maravilhosos." Dribles que todos os marcadores sabiam que iam sempre para a direita, mas que não conseguiam evitar.

Prazer de jogar
O estilo moleque contribuía para desnortear os adversários. Muitas vezes, após passar por todos os zagueiros e estar de frente para o goleiro, em condições de marcar, ele preferia dar meia volta e driblar os mesmos adversários colocados em fila outra vez. Acima da eficiência, para Garrincha, estava o prazer de jogar. Desde a estréia no Botafogo contra o Avelar, de Vassouras, em 1953, quando marcou três gols, até a despedida em 1972, foram 232 tentos em 581 jogos. O ponto alto foram as Copas da Suécia, em 1958, e do Chile, em 1962, quando sagrou-se bicampeão mundial. No Chile, com a lesão de Pelé, que saiu da Copa, Garrincha foi a estrela. Na final contra a Tchecoslováquia, jogou com 39 graus de febre e enlouqueceu os três zagueiros encarregados de marcá-lo. Fracassou na Copa da Inglaterra, em 1966, e dois anos depois, com os joelhos estourados pelas bordoadas e abusando das bebidas alcoólicas, buscou refúgio no Atlético Junior de Barranquila, na Colômbia. Passou ainda por Flamengo, Corinthians e Olaria, do Rio. No início dos 70, no fundo do poço, chegou a jogar no balneário italiano de Tor Vajanica numa equipe amadora contra açougueiros, pedreiros e padeiros. Morreu em 20 de janeiro de 1983, dependente do álcool.

Amor
Curiosamente, o time do coração era o Flamengo, cujos laterais tanto maltratou. "Ele pegava a sacola e, antes de ir para o Maracanã, dizia: 'Nega, hoje vou estraçalhar o Mengo.' Tinha raiva porque, no início da carreira, tentou jogar no Flamengo e disseram que era aleijado", conta Elza Soares, cantora e ex-mulher. Viveram um romance conturbado. "Era difícil civilizá-lo. O negócio dele era jogar bola", conta Elza.

Você sabia?
O técnico Zezé Moreira procurou Garrincha nos bordéis. De repente, alguém o chamou. Era Mané. "O sr. também gosta, seu Zezé?"

Pódio

  • Bicampeão mundial nas Copas da Suécia (1958) e do Chile (1962).
  • Três vezes campeão carioca pelo Botafogo (1957, 1961 e 1962).
  • Três vezes campeão do Torneio Rio-São Paulo (duas pelo Botafogo e uma pelo Corinthians).