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O Brasileiro do Século

2) Pelé

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"Como o bebê chuta." O comentário despretensioso de dona Celeste Arantes, ao acariciar a barriga, assumiu ares proféticos aos ouvidos do esposo João Ramos do Nascimento, o "Dondinho", soldado do 4º Regimento da Cavalaria de Três Corações. "Esse vai ser bom de bola", pensou em voz alta o pai, em 23 de outubro de 1940, quando Edson nasceu. Além de militar, o pai coruja era também centroavante que, sem time fixo, perambulava por vários clubes do sul de Minas Gerais, entre eles, o Vasco da Gama, de São Lourenço, cujo goleiro era Bilé. Aos três anos de idade, o pirralho batia bola com o pai e, quando fazia um gol, gritava: "Gol de papá!" Mas, ao se atirar na calçada para agarrar as bolas mandadas por Dondinho, Edson incorporava o goleiro: "Defendeu Bilé!" Bi-lé, Pelé... Ao balbuciar o nome do amigo e companheiro de time do pai, trocando a consoante b pelo p e a vogal i pelo e, o menino acabara de criar uma lenda e abrir caminho para que se cumprisse a profecia de dona Celeste.

Virgens de Benin
Assim, Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos, é um mito esculpido pelo próprio Edson Arantes do Nascimento desde o ventre da mãe. Gênio que atingiu a perfeição em sua atividade profissional, Pelé é tricampeão mundial pela Seleção Brasileira, bicampeão mundial pelo Santos e assinalou 1.275 gols em 21 anos de carreira. Foi campeão também no Cosmos (EUA). Mas contar os título e recordes, no caso de Pelé, é insuficiente. O mito transcende o futebol. Em 1969, quando o Santos excursionava pela África, ele conseguiu uma trégua de alguns dias entre Nigéria e Biafra. Os dois países interromperam a guerra para assistir à exibição do Rei. Encantado com o poder de Pelé, Azenzua II, rei de outro país africano, Benin, que vivia num castelo com 20 esposas e 216 filhos, ofereceu uma de suas filhas virgens ao jogador, a quem considerava um novo Messias. Pelé, docemente constrangido, recusou.

Bebendo a água do mar
"Esse menino vai ser o maior do mundo", disse o ex-jogador e ex-técnico Valdemar de Brito ao presidente do Santos, Modesto Roma, quando Pelé assinou o primeiro contrato, em 1957, salário de 6 mil cruzeiros por mês, ou US$ 15 na época. Destaque do juvenil do Bauru Atlético Clube, onde fora treinado por Brito, Pelé começou mesmo num time de rua, o 7 de Setembro, aos dez anos. Na época, roubava amendoins dos trens estacionados na estação ferroviária para torrá-los e vendê-los na porta do cinema. O dinheiro era para comprar calções e camisetas. Quando desembarcou em Santos, Pelé pediu ao motorista de táxi para ir até a praia e olhar, pela primeira vez, o mar. Não tirou os sapatos, entrou no mar e bebeu a água para comprovar se era salgada, como aprendera na escola. No primeiro treino, encontrou rostos familiares, eram do seu álbum de figurinhas como os de Jair da Rosa Pinto, Pepe e Zito. "Quando o moleque pegou na bola, vi que era diferente de tudo o que conhecia", lembra Zito. O Santos de Pelé era quase imbatível. Uma das raras derrotas foi contra a seleção do Congo, em 1969, quando o time jogou quatro vezes em menos de uma semana. A euforia foi tal no país que o presidente Joseph Mobutu decretou feriado nacional. Com Pelé, o Santos ganhou dez campeonatos paulistas, entre 1958 e 1974, e o Rei foi goleador em nove temporadas consecutivas, recorde mundial em competições profissionais. Em 1958, o time enfiou 146 gols nas redes adversárias, dos quais 58 de Pelé, recorde brasileiro em campeonatos estaduais.

Convocação judicial
Foi ainda cinco vezes campeão da Taça Brasil, uma da Taça de Prata (ambas equivaliam ao atual campeonato nacional), duas da Libertadores da América e duas do Mundial Interclubes. Na decisão contra o Benfica, em Lisboa, em 1962, após um gol de Pelé, o juiz francês Pierre Scwintz parou o jogo para cumprimentá-lo. Não foi o único. "Depois do quinto gol, senti vontade de aplaudi-lo", disse o sueco Sigge Parling, que jogou a final da Copa de 1958 contra o Brasil. Na Seleção, depois de vencer três Copas, despediu-se em 1971 e resistiu aos apelos do presidente e general Emílio Garrastazu Medici para voltar no Mundial de 1974 na Alemanha. Um advogado goiano chegou a entrar com mandado de segurança obrigando Pelé a vestir a camisa amarela, mas o ministro Peçanha Martins do Tribunal Federal de Recursos indeferiu a "convocação judicial". Por ironia, 12 anos depois, ao jogar tênis com o técnico Telê Santana, Pelé se ofereceu para disputar a Copa do México. Aos 45 anos, achou que poderia ajudar a equipe. Telê disse que era uma boa idéia, para não ser indelicado, mas nunca mais tocou no assunto. "Se ele tivesse me dado força, teria disputado meu quinto Mundial", lamentou Pelé.

Popularidade
Empresário e político (acaba de deixar o cargo de ministro dos Esportes), Pelé foi eleito o Atleta do Século quatro vezes nos últimos 15 anos pela imprensa européia e é o brasileiro mais popular do planeta. Em 1969, ao descer no aeroporto de Tóquio, o ex-beatle John Lennon - que um dia se julgou mais famoso que Cristo - viu centenas de fotógrafos na área de desembarque e resmungou: "Avisem que não estou disposto a dar entrevistas". Ao entrar na limusine que o aguardava, percebeu que o centro das atenções era Pelé. "Imaginei que os Beatles eram os mais famosos do mundo. Hoje me rendi aos fatos."

Você sabia?
Pelé foi ator de 11 filmes e uma coleção de vídeos, escreveu seis livros e compôs músicas gravadas por cantores como Elis Regina e Moacir Franco.

Pódio

  • Tricampeão mundial pela Seleção Brasileira (Copas de 1958, 1962 e 1970).
  • Bicampeão mundial Interclubes pelo Santos (1962 e 1963).
  • Bicampeão da Taça Libertadores da América (1962 e 1963).
  • Cinco vezes campeão da Taça Brasil (de 1961 a 1965).
  • Campeão da Taça de Prata, que corresponde ao atual campeonato nacional (1968).
  • Campeão da Liga dos Estados Unidos pelo Cosmos (1977).
  • 1.275 gols marcados em 21 anos de carreira.