ciencia
Música
Artes Cênicas
Literatura
Arquitetura & Artes Plásticas
Religião
Ciência, Tecnologia & Educação
Comunicação
Justiça & Economia
Empreendedor
Líderes & Estadistas
O Brasileiro do Século

6) Rolim Amaro
46,64% dos votos

O crachá na lapela do paletó indica, em letras grandes e na foto bem visível, quem está chegando. Fala alto e desliza as mãos sobre os cabelos alinhados, que escondem um arrependimento. "Certa vez, alguém gozou a minha calva na praça da República, no centro de São Paulo. Arrisquei um implante capilar, mas a cirurgia doeu demais. Foi uma bobagem", disse ele a -ISTOÉ. No melhor estilo interiorano, que confessa adorar, Rolim Adolfo Amaro - ou simplesmente o comandante Rolim - vai narrando seus causos, uma infindável sucessão de aventuras.

"Coisa de vagabundo"
O carregado sotaque caipira remete à tranquilidade de Pereira Barreto, cidade do oeste paulista onde ele nasceu a 15 de setembro de 1942. Aos seis anos, Rolim já ganhava os ares no colo do tio, dono de um monomotor. Menos afeito a peripécias, o pai tocava a vida com o armazém de secos e molhados em São José do Rio Preto, para onde se mudara. O rapazote abandonou a escola na sétima série para ajudar nas despesas de casa. Foi assistente de mecânico, aprendiz de escrevente em cartório e entregador de sanduíches, mas o vírus da aviação estava no organismo. A lambreta comprada com o salário minguado serviu para pagar o curso de piloto, que ele concluiu aos 18 anos. Se o primeiro brevê Rolim nunca esquece, o segundo quase não saiu. Às vésperas de fazer o exame para piloto privado, o aeroclube inventou uma taxa de dez cruzeiros. Sem um tostão, ele viajou 200 quilômetros de trem e de carona para recorrer a outro tio, fazendeiro no interior paulista. Teve que dar meia-volta. "O sonho de sua mãe era vê-lo como balconista das Casas Pernambucanas e você desistiu. Preferiu ir atrás da aviação, coisa de vagabundo e louco. Vá trabalhar."

Tomou, enfim, o dinheiro emprestado de um amigo, o que permitiu ao comandante trabalhar na TAM (Táxi Aéreo Marília) e na Vasp, até receber uma proposta tentadora, em 1966. "Fui para a Amazônia ser piloto particular. Em troca, recebi financiamento para a compra do meu primeiro Cessna", lembra. De um pouso emergencial numa estrada em Minas ao transporte de uma tribo de xavantes para um lugar perdido na selva, Rolim realizou uma série de façanhas. Na falta de estradas, até os animais eram levados de avião às fazendas. "As mulas eram drogadas e tinham as patas amarradas. Depois entravam na aeronave e ficavam com metade do corpo para fora. Se durante o vôo alguma delas acordava, tinha que jogá-la. Era a mula ou o avião." Para engrossar o orçamento, vendia roupas e radinhos de pilha num armazém em São José do Xingu (região do Araguaia), de onde comandava a empresinha que montara. "Em dois anos comprei dez monomotores, mas desisti quando tive a sétima crise de malária. Já perguntava aos passageiros qual das duas pistas que eu enxergava era a verdadeira."

O empresário Rolim decolou em 1972, ao adquirir metade das ações da TAM - compraria a outra metade quatro anos depois. Entrou na onda de um mercado em franca expansão, mas ninguém duvida que foi o olho do dono que fez o boi engordar. Dirige uma companhia aérea que fatura R$ 800 milhões por ano e faz 550 pousos e decolagens diários.

Até conquistar o céu, enfrentou dificuldades. Uma delas foi a descoberta de um tumor na garganta, em 1992, extirpado em três cirurgias nos Estados Unidos. A segunda o deixou deprimido por quase um ano. Em 1996, a queda de um Fokker-100 que fazia a ponte Rio-São Paulo causou a morte de 99 pessoas. Nove meses depois, outro passageiro morreu quando uma bomba explodiu no avião que fazia o trajeto São José dos Campos-São Paulo (um professor é o principal suspeito do suposto atentado).

Em todos os momentos, Rolim encontra o amparo de Noemi, sua esposa há 34 anos. O caçula dos três filhos, Marcos, 15 anos, é fruto de um romance furtivo. "Todo homem está sujeito a um acidente de percurso, mas eu seria um calhorda se não assumisse o menino." A família não desfruta de muito tempo para vê-lo. Geralmente, o comandante chega em casa só às dez da noite, toma uma sopa de aveia e vai para a cama. Nas raríssimas horas vagas, compõe modas de viola, gravadas, entre outros, por Fafá de Belém. "Não gosta de badalações, mas não resiste a um convite para andar de moto", contou a ISTOÉ o amigo Luciano do Valle. Aí o locutor esportivo pegou em seu ponto fraco. Dono de 13 maquinões de duas rodas, Rolim às vezes vai rodando à fazenda em Ponta Porã (MS) e se atreveu até a cruzar a Cordilheira dos Andes em cima de uma motocicleta. Para quem desde os seis anos de idade vive nas nuvens, isso é brincadeira de criança.

VOCÊ SABIA?
Deu um tapa com luva de pelica num passageiro cara-de-pau que surrupiara uma garrafa de uísque no avião. "Vou levar para casa. Foi o melhor que já bebi." Rolim enviou-lhe uma carta junto com meia dúzia de garrafas da bebida: "Isto é para o senhor tomar antes de cada viagem conosco. Grato pela preferência."