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O Brasileiro do Século

16) Cláudio Bardella
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Um repórter perguntou a Cláudio Bardella, durante uma coletiva, em 1974, se ele era a favor da legalização do Partido Comunista. Como se estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo, respondeu que sim, "pois, se queremos democracia, ela tem de ser para todos." Na fase mais dura do regime militar, era a primeira vez que um empresário brasileiro ousava dar tais declarações. "No jantar depois da entrevista, as pessoas desviavam de mim, como se eu fosse um mau elemento e tivesse ligações com o Partidão, o que não era verdade", disse ele a ISTOÉ. A fama de esquerdista vinha desde 1972, quando governava Emílio Garrastazu Medici. O empresário liderou a visita de uma delegação brasileira à República Popular da China e ficou marcado pela linha dura dos militares. Mas a visita foi o primeiro passo para que as relações diplomáticas entre os dois países melhorassem.

Liderança
As lições de democracia ele aprendeu na marra. Até as vésperas do golpe militar de 1964, não queria nem saber de política. Estava mais preocupado em tirar do buraco a Bardella S.A. - a mais antiga indústria mecânica do País, fundada em 1911 por seu avô, Antônio Bardella. Mas após o golpe, passou a dizer o que bem entendesse. "Nosso setor era respeitado e dificilmente eu sofreria represálias. Assumi uma certa liderança, defendendo a abertura para o bem das classes produtoras, mas não sei fazer política", diz. No entanto, sabe bem como criar polêmicas. Em 1977, por exemplo, foi um dos autores do Documento dos Oito, assinado por pesos pesados da indústria nacional, que criticava a crescente estatização. "O País virou um feudo de estatais associadas a multinacionais, enquanto a nossa iniciativa privada ficou a ver navios."

Quem o ouve falando manso nem sequer imagina as inúmeras crises que suportou no comando da empresa durante 40 anos. Paulistano nascido a 23 de novembro de 1938, assumiu a Bardella S.A. antes de concluir o curso de Engenharia Industrial Mecânica na PUC de São Paulo. Quis ajudar o pai, Aldo Bardella, a passar por mais uma etapa difícil. "Ainda bem que eu não vivi a pior das crises, em 1929. Se hoje faço acupuntura para suportar a barra, não teria aguentado naquele tempo." A Bardella S.A. mantém-se firme e forte até hoje, embora as perspectivas não sejam das melhores. "Do jeito que as coisas vão, tudo tende a piorar", afirma. Cláudio se queixa do atual momento político do País, mas não esconde que votou em Fernando Henrique. Arrependido ou não, disposição para discutir os rumos da indústria nacional não lhe falta. É membro do Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial (Iedi), mas não alimenta ilusões. "Não temos força para vender nossas idéias porque o Brasil caiu no canto da sereia. Ainda não estamos preparados para a globalização."

VOCÊ SABIA?
Pescador apaixonado, histórias não faltam no repertório. "O maior que pesquei foi um marlin azul, o mesmo do livro O velho e o mar, de Ernest Hemingway." Verdade ou não, ele diz que o animal pesava 240 quilos.