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14) José Mindlin
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Acabar
com a paciência de José Mindlin não é
tarefa das mais fáceis. Sujeito de extrema cordialidade,
gosta mais de ouvir do que falar. Se alguém retruca um de
seus comentários, ele se aproxima do rosto do interlocutor
e levanta as sobrancelhas. Logo abre um sorriso. Sem que se dê
conta, já foram duas horas de conversa sobre sua atividade
empresarial. E ele se sente terrivelmente incomodado por não
conseguir explicar o que é um pistão - peça
que sua indústria chegou a exportar para mais de 50 países.
"Acho que você já tem material suficiente sobre
a empresa Metal Leve, não é?", pergunta acanhado
ao repórter, em tom de apelo, esperando um ar de aprovação
para que possa falar sobre sua biblioteca particular - a maior da
América Latina, com 30 mil volumes, grande parte raríssima.
Atrás
da relíquia
Quando o assunto é livro, difícil é conter
sua euforia. Cada exemplar, uma história. A primeira edição
de O guarany (José de Alencar, 1857) foi um teste
de paciência. Nos anos 60, um leiloeiro grego o ofereceu a
amigos do empresário por US$ 1 mil, mas nenhum deles se interessou.
Mindlin fez a encomenda para um livreiro de Londres, que deixou
o volume escapar por achá-lo caro demais. Em 1977, finalmente
ele se viu frente a frente com a relíquia num sebo parisiense.
Pagou um preço estratosférico, mas ao desembarcar
em São Paulo percebeu que deixara o livro caído no
tapete do avião. Para seu alívio, a Air France o encontrou
três dias depois, em Buenos Aires.
Como um bom
romance, a vida de José Ephim Mindlin esconde uma surpresa
em cada página. "Virei empresário por acaso",
disse a ISTOÉ. Antes, aos 15 anos (nasceu a 8 de setembro
de 1914, na capital paulista), foi contratado como repórter
de O Estado de S.Paulo e participou da Revolução
de 1930. Como era um dos poucos no jornal que falavam inglês,
o dono de O Estado, Júlio de Mesquita Filho, o encarregava
de passar informações por telefone aos revolucionários
no Rio de Janeiro, driblando os censores monoglotas.
O jornalismo
perdeu o talento de Mindlin quando ele entrou na Faculdade de Direito
do Largo São Francisco, em 1932. Enquanto os professores
liam monótonas preleções, o jovem estudante
sentava-se ao fundo da classe para devorar a obra do francês
Montaigne - o amor pela leitura começou aos 13 anos, ao entrar
num sebo pela primeira vez. Nos primeiros dias de aula do quinto
ano de curso, cruzou nos corredores com uma caloura que vinha sendo
assediada pelos veteranos para entrar nos partidos políticos
da época. Ele tomou coragem: "Olha, tudo isso é
uma bobagem, porque o melhor partido sou eu!" O casamento com
dona Guita aconteceu poucos meses depois e completará 61
anos em dezembro (têm quatro filhos e 11 netos).
Defendendo
imigrantes
Formado, ele atuou 15 anos como advogado. Durante o Estado Novo,
defendeu imigrantes europeus que tentavam ingressar no Brasil, fugindo
da Segunda Guerra, mas tinham sua entrada negada pelo governo. Em
1950, alguns clientes o procuraram para redigir um contrato de sociedade
com uma fabricante alemã de pistões - em tempo: são
peças cilíndricas que "sugam" o combustível
permitindo o funcionamento do motor. Como os clientes desistiram
do negócio, Mindlin não perdeu a oportunidade e assumiu
o compromisso. Juntou-se a outros quatro empreendedores e fundou
a Metal Leve - nome escolhido em homenagem ao alumínio, matéria-prima
do produto.
Começou
com 50 funcionários. Não demorou até que Juscelino
Kubitschek chegasse à Presidência e, na esteira do
desenvolvimento da indústria automobilística, a Metal
Leve se tornasse uma potência no setor de autopeças.
A sólida estrutura financeira, cujo segredo era evitar endividamentos,
permitiu a abertura de filiais no Exterior. Presidindo a empresa,
Mindlin chegou a empregar seis mil pessoas. "Posso dizer, sem
pretensão e água- benta, que ajudamos a desenvolver
o País. E sem tirar um tostão dos cofres públicos."
A prosperidade durou até o início do Plano Real, na
década de 90, quando o câmbio sobrevalorizado reduziu
bruscamente as exportações e abriu o mercado brasileiro
para as autopeças importadas. Após três anos
amargando prejuízo, Mindlin vendeu suas ações
em 1996. "Do ponto de vista emocional, foi muito difícil.
Mas, racionalmente, deveria ter vendido antes."
Sempre com um
livro debaixo do braço, agradece a Deus - embora seja agnóstico
- ao ficar preso em congestionamento no trânsito, para poder
devorar bons romances. Acredita ter lido, em cálculo otimista,
oito mil volumes. "Gostaria de viver 300 anos, o que me permitiria
ler de 25 a 30 mil livros." No fundo, Mindlin sabe que não
é qualquer um que chega aos 85 anos com tanta disposição.
Todo dia caminha quatro quilômetros no quintal da casa onde
mora no Brooklin, na zona sul de São Paulo. Dá 40
voltas no pátio de 100 metros. E se dá ao luxo de
não evitar suas guloseimas preferidas: chocolate, marzipã
e bala de ovo. "Não tenho nenhuma pressa em me separar
da biblioteca", brinca. Em caso de surpresa, no entanto, já
adiantou aos filhos que gostaria de descansar em paz num túmulo
que tivesse o seguinte epitáfio: "José Mindlin
- Fabricou pistões a maior parte da vida sem saber o que
eram."
VOCÊ
SABIA?
Filho de imigrantes judeus russos, recebeu ameaças telefônicas
de neonazistas. Estremeceu ao ver um jovem tirando fotos de sua
casa. Anotou a placa do carro do rapaz e constatou: o dono tinha
sobrenome germânico. "Para minha surpresa, era apenas
um estudante de Arquitetura especialista em fachadas."
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