ciencia
Música
Artes Cênicas
Literatura
Arquitetura & Artes Plásticas
Religião
Ciência, Tecnologia & Educação
Comunicação
Justiça & Economia
Empreendedor
Líderes & Estadistas
O Brasileiro do Século

10) Norberto Odebrecht
26,19% dos votos

A fatalidade de uma doença que o deixou 47 dias de cama - a malária - mudou os planos de Norberto Odebrecht, dono de uma construtora em graves dificuldades financeiras no longínquo ano de 1944, em Salvador. Não bastassem os cre-do-res que batiam à porta, Odebrecht tinha ainda de dar satisfação aos clientes cujas obras estavam paralisadas. "Aprendi na vida a transformar problemas em oportunidades. É aí que a gente percebe se o sujeito é empresário ou não. Tudo é uma questão de enfoque", afirma ele.

No intervalo entre um pico e outro de febre alta, Odebrecht traçou o novo perfil da empresa com ênfase na descentralização. Cada funcionário a partir de então seria tratado como um sócio, compartilhando a responsabilidade pelo êxito da empreitada. Mais difícil foi negociar com os credores. Mandou um recado aos banqueiros: "Arranjem-me obras que eu pago as dívidas." Logo ele reduziu o tempo de construção de um edifício residencial na capital baiana de três anos para nove meses. Em quatro anos, os débitos estavam zerados. E hoje a holding Odebrecht fatura R$ 4,5 bilhões por ano, estando presente em 24 países de quatro continentes. A receita do sucesso está em não se deixar sucumbir em nenhuma circunstância. "Empresário que só se queixa só tem uma coisa a fazer: decidir como dar um fim na vida dele, porque está atrapalhando muita gente."

Nascido a 9 de dezembro de 1920, no Recife, Odebrecht mudou-se para Salvador aos seis anos de idade. Aqui é necessário abrir um parêntesis: os primeiros Odebrecht que migraram da Alemanha para o Brasil se instalaram em Itajaí (SC) por volta de 1850, desbravando o Sul do País em lombo de burro e enfrentando onças nas florestas. O pai, Emílio, transferiu-se para o Rio de Janeiro em meados dos anos 10 para estudar Engenharia. Quando se formou, foi para o Nordeste, onde estava sendo construída a hidrelétrica de Paulo Afonso, em Alagoas. Emílio abriu uma construtora e acabou fixando-se no Recife aproveitando os bons ventos do ciclo do açúcar. Em 1926, as exportações de açúcar despencaram e se iniciou o ciclo do cacau na Bahia, para onde a família se mudou.

Aulas nas ladeiras
Resultado de um choque cultural, a formação de Norberto Odebrecht combina a rigidez luterana e a flexibilidade baiana. Aos 12 anos, quando entrou no ginásio Ipiranga, de Salvador, não sabia falar português, porque o idioma em casa era o alemão. "Fiquei impressionado ao ver os meninos que tinham babás, mamãezinhas para fazer a mala. Eram pessoas acostumadas a serem servidas, e eu a servir." A disciplina foi ensinada desde cedo pela mãe, dona Hertha, que lhe incumbia tarefas diárias como arrumar a cama, rachar lenha e engraxar os sapatos. Dos sete aos 12 anos, foi educado pelo pastor Arnold, que, ao chegar da Alemanha, passou a morar com a família. Os ensinamentos eram transmitidos em longos passeios pelas ladeiras da capital baiana e durante pescarias à beira de lagoas. Aos 14 anos, o rapazote começou a trabalhar como pedreiro na construtora do pai. Conviver com os peões, respirar nuvens de cal, cimento e areia, ficar ensurdecido com o som das britadeiras, serras-elétricas e bate-estacas, tudo isso foi tão importante para a sua formação quanto as aulas teóricas do pastor Arnold.

Tudo ia bem até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, cujos estilhaços causaram estragos nos negócios da construção civil do lado de cá do Atlântico. Agastado também com a hostilidade aos descendentes de alemães, intensificada com a entrada do Brasil na guerra, o pai resolveu arrumar as malas e retornar para Santa Catarina, onde ainda vivia parte do clã dos Odebrecht. Em 1943, entregou o comando da construtora ao jovem Norberto, que nem sequer era engenheiro formado, já que ainda cursava a Escola Politécnica da UFBA. Após retomar a saúde financeira da empresa - e recuperar-se da malária que o fez ter a visão do futuro que desejava para a empresa -, Odebrecht usufruiu do ciclo de desenvolvimento da Bahia, nos anos 40, que propiciou a construção de pontes, edifícios, indústrias e barragens. Na década seguinte, ele se tornaria parceiro da Petrobras, construindo oleodutos no Recôncavo. Essa parceria seria fundamental para o grande salto que deu no final dos anos 60, quando tratou de conquistar o mercado da região Sudeste. Os militares haviam tomado o poder em 1964 e se dedicavam a grandes obras de infra-estrutura. Em 1969, a Odebrecht construiu o edifício-sede da Petrobras, no Rio. O bom relacionamento com os militares valeu à construtora a realização de obras importantes como o aeroporto internacional do Galeão (atual Antônio Carlos Jobim) e a usina nuclear de Angra dos Reis, além da ponte Colombo Sales, em Florianópolis, sem falar na expansão da Usiminas, em Minas Gerais.

Em meados dos anos 70, entretanto, Odebrecht percebeu que o chamado milagre econômico dava sinais de desgaste. As obras gigantescas, marca registrada do governo militar, eram cada vez menos frequentes. Mais uma vez, se viu obrigado a repensar a estratégia dos negócios, como fizera 30 anos antes. Odebrecht olhou para o mercado externo como solução, num tempo em que a palavra globalização não era moda e não era abundantemente citada na seção de economia de jornais e revistas. Em 1979, construiu uma hidrelétrica no Peru em parceria com estatais da ex-União Soviética - uma prova de que, no mundo capitalista, as parcerias obedecem à necessidade do lucro e não têm fronteiras ideológicas. Foram os russos que indicaram a Odebrecht para a construção de uma hidreelétrica em Angola, em 1986, então sob o comando de um governo de esquerda. Lá, a empresa ergueu uma cidade com escritórios, alojamentos, escolas e clubes. A segurança era feita por tropas ferozmente armadas, já que o país vivia uma sangrenta guerra civil.

Escândalo político
A cumplicidade com os políticos (o Estado é o cliente número 1 das empreiteiras) levou Odebrecht a ter sua empresa envolvida, no início dos anos 90, no escândalo do impeachment de Fernando Collor. Foi citada como financiadora da campanha eleitoral do presidente afastado. Na época, Odebrecht declarou: "Nossa companhia é uma das mais éticas do País. Contribuímos para a campanha de vários presidenciáveis, porque nossos líderes gozam de autonomia e cada qual ofereceu apoio ao candidato com quem mais se afinava." Passou o bastão ao filho Emílio, em 1991, e há dois anos deixou o Conselho de Administração para dedicar-se aos 13 netos e três bisnetos, sem se descuidar das fazendas de cacau na Bahia e da organização não-governamental que criou para proteger os manguezais.

VOCÊ SABIA?
Um militar fez severas críticas à construção da sede da Petrobras, a cargo da Odebrecht. "As informações são falsas", garantiu o empresário ao general Ernesto Geisel, presidente da estatal na época. "Volte em 15 dias e prove que está certo." Ele provou e Geisel demitiu o militar que o acusara. Após assumir a Presidência da República, quando havia obra importante a realizar, Geisel recomendava: "Entreguem àquele nordestino malcriado." Era um elogio.