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10) Norberto Odebrecht
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dos votos
A
fatalidade de uma doença que o deixou 47 dias de cama - a
malária - mudou os planos de Norberto Odebrecht, dono de
uma construtora em graves dificuldades financeiras no longínquo
ano de 1944, em Salvador. Não bastassem os cre-do-res que
batiam à porta, Odebrecht tinha ainda de dar satisfação
aos clientes cujas obras estavam paralisadas. "Aprendi na vida
a transformar problemas em oportunidades. É aí que
a gente percebe se o sujeito é empresário ou não.
Tudo é uma questão de enfoque", afirma ele.
No intervalo
entre um pico e outro de febre alta, Odebrecht traçou o novo
perfil da empresa com ênfase na descentralização.
Cada funcionário a partir de então seria tratado como
um sócio, compartilhando a responsabilidade pelo êxito
da empreitada. Mais difícil foi negociar com os credores.
Mandou um recado aos banqueiros: "Arranjem-me obras que eu
pago as dívidas." Logo ele reduziu o tempo de construção
de um edifício residencial na capital baiana de três
anos para nove meses. Em quatro anos, os débitos estavam
zerados. E hoje a holding Odebrecht fatura R$ 4,5 bilhões
por ano, estando presente em 24 países de quatro continentes.
A receita do sucesso está em não se deixar sucumbir
em nenhuma circunstância. "Empresário que só
se queixa só tem uma coisa a fazer: decidir como dar um fim
na vida dele, porque está atrapalhando muita gente."
Nascido a 9
de dezembro de 1920, no Recife, Odebrecht mudou-se para Salvador
aos seis anos de idade. Aqui é necessário abrir um
parêntesis: os primeiros Odebrecht que migraram da Alemanha
para o Brasil se instalaram em Itajaí (SC) por volta de 1850,
desbravando o Sul do País em lombo de burro e enfrentando
onças nas florestas. O pai, Emílio, transferiu-se
para o Rio de Janeiro em meados dos anos 10 para estudar Engenharia.
Quando se formou, foi para o Nordeste, onde estava sendo construída
a hidrelétrica de Paulo Afonso, em Alagoas. Emílio
abriu uma construtora e acabou fixando-se no Recife aproveitando
os bons ventos do ciclo do açúcar. Em 1926, as exportações
de açúcar despencaram e se iniciou o ciclo do cacau
na Bahia, para onde a família se mudou.
Aulas nas
ladeiras
Resultado de um choque cultural, a formação de Norberto
Odebrecht combina a rigidez luterana e a flexibilidade baiana. Aos
12 anos, quando entrou no ginásio Ipiranga, de Salvador,
não sabia falar português, porque o idioma em casa
era o alemão. "Fiquei impressionado ao ver os meninos
que tinham babás, mamãezinhas para fazer a mala. Eram
pessoas acostumadas a serem servidas, e eu a servir." A disciplina
foi ensinada desde cedo pela mãe, dona Hertha, que lhe incumbia
tarefas diárias como arrumar a cama, rachar lenha e engraxar
os sapatos. Dos sete aos 12 anos, foi educado pelo pastor Arnold,
que, ao chegar da Alemanha, passou a morar com a família.
Os ensinamentos eram transmitidos em longos passeios pelas ladeiras
da capital baiana e durante pescarias à beira de lagoas.
Aos 14 anos, o rapazote começou a trabalhar como pedreiro
na construtora do pai. Conviver com os peões, respirar nuvens
de cal, cimento e areia, ficar ensurdecido com o som das britadeiras,
serras-elétricas e bate-estacas, tudo isso foi tão
importante para a sua formação quanto as aulas teóricas
do pastor Arnold.
Tudo ia bem
até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, cujos estilhaços
causaram estragos nos negócios da construção
civil do lado de cá do Atlântico. Agastado também
com a hostilidade aos descendentes de alemães, intensificada
com a entrada do Brasil na guerra, o pai resolveu arrumar as malas
e retornar para Santa Catarina, onde ainda vivia parte do clã
dos Odebrecht. Em 1943, entregou o comando da construtora ao jovem
Norberto, que nem sequer era engenheiro formado, já que ainda
cursava a Escola Politécnica da UFBA. Após retomar
a saúde financeira da empresa - e recuperar-se da malária
que o fez ter a visão do futuro que desejava para a empresa
-, Odebrecht usufruiu do ciclo de desenvolvimento da Bahia, nos
anos 40, que propiciou a construção de pontes, edifícios,
indústrias e barragens. Na década seguinte, ele se
tornaria parceiro da Petrobras, construindo oleodutos no Recôncavo.
Essa parceria seria fundamental para o grande salto que deu no final
dos anos 60, quando tratou de conquistar o mercado da região
Sudeste. Os militares haviam tomado o poder em 1964 e se dedicavam
a grandes obras de infra-estrutura. Em 1969, a Odebrecht construiu
o edifício-sede da Petrobras, no Rio. O bom relacionamento
com os militares valeu à construtora a realização
de obras importantes como o aeroporto internacional do Galeão
(atual Antônio Carlos Jobim) e a usina nuclear de Angra dos
Reis, além da ponte Colombo Sales, em Florianópolis,
sem falar na expansão da Usiminas, em Minas Gerais.
Em meados dos
anos 70, entretanto, Odebrecht percebeu que o chamado milagre econômico
dava sinais de desgaste. As obras gigantescas, marca registrada
do governo militar, eram cada vez menos frequentes. Mais uma vez,
se viu obrigado a repensar a estratégia dos negócios,
como fizera 30 anos antes. Odebrecht olhou para o mercado externo
como solução, num tempo em que a palavra globalização
não era moda e não era abundantemente citada na seção
de economia de jornais e revistas. Em 1979, construiu uma hidrelétrica
no Peru em parceria com estatais da ex-União Soviética
- uma prova de que, no mundo capitalista, as parcerias obedecem
à necessidade do lucro e não têm fronteiras
ideológicas. Foram os russos que indicaram a Odebrecht para
a construção de uma hidreelétrica em Angola,
em 1986, então sob o comando de um governo de esquerda. Lá,
a empresa ergueu uma cidade com escritórios, alojamentos,
escolas e clubes. A segurança era feita por tropas ferozmente
armadas, já que o país vivia uma sangrenta guerra
civil.
Escândalo
político
A cumplicidade com os políticos (o Estado é o cliente
número 1 das empreiteiras) levou Odebrecht a ter sua empresa
envolvida, no início dos anos 90, no escândalo do impeachment
de Fernando Collor. Foi citada como financiadora da campanha eleitoral
do presidente afastado. Na época, Odebrecht declarou: "Nossa
companhia é uma das mais éticas do País. Contribuímos
para a campanha de vários presidenciáveis, porque
nossos líderes gozam de autonomia e cada qual ofereceu apoio
ao candidato com quem mais se afinava." Passou o bastão
ao filho Emílio, em 1991, e há dois anos deixou o
Conselho de Administração para dedicar-se aos 13 netos
e três bisnetos, sem se descuidar das fazendas de cacau na
Bahia e da organização não-governamental que
criou para proteger os manguezais.
VOCÊ
SABIA?
Um militar fez severas críticas à construção
da sede da Petrobras, a cargo da Odebrecht. "As informações
são falsas", garantiu o empresário ao general
Ernesto Geisel, presidente da estatal na época. "Volte
em 15 dias e prove que está certo." Ele provou e Geisel
demitiu o militar que o acusara. Após assumir a Presidência
da República, quando havia obra importante a realizar, Geisel
recomendava: "Entreguem àquele nordestino malcriado."
Era um elogio.
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