|
1) Francesco Matarazzo
69,55%
dos votos
Dá
para imaginar a cena de uma típica família paulistana
da década de 20. Na mesa do café da manhã,
a banha enlatada, o açúcar e o presunto cozido servidos
pela dona de casa ao marido e à numerosa prole tinham no
rótulo um só emblema: "IRFM - Indústrias
Reunidas Francesco Matarazzo." Na prateleira da cozinha, ela
guardava amido Brilhante, arroz Iguape, azeite para saladas Sol
Levante "o preferido pela sua pureza", lixívia
São Jorge "sem rival para limpar cristais e panelas"
e Licor Brasil, todos produzidos pelo imigrante italiano Francesco
Matarazzo. Na estante do banheiro, um vidro de água de colônia
Mimi, o sabonete Rex "que deixa sua pele acetinada" e
ainda um frasco de perfume Sedução.
Onipresente
Enfeitava a cama do casal a colcha Princeza, que a dona de casa
só lavava com sabão de coco "destinado para tecidos
finos". A família usava roupas feitas com cortes da
tecelagem Mariângela, uma das 365 fábricas que formavam
o império das IRFM. À noite, as velas acendidas na
casa eram da marca Progresso e o jantar era sucedido de uma dose
de conhaque de gengibre Matarazzo. A onipresença da marca
do imigrante no dia-a-dia dos brasileiros dá bem a idéia
de seu poderio econômico. Nos anos 30, a renda bruta do conglomerado
era a quarta maior do Brasil. Faturavam mais que Matarazzo apenas
a União Federal, o Departamento Nacional do Café e
o Estado de São Paulo.
Se desejássemos
dar uma pincelada ainda maior de realidade ao nosso exercício
de imaginação, poderíamos situar esta família
de consumidores da marca Matarazzo no Brás, bairro paulistano
nascido justamente para abrigar os trabalhadores das IRFM. Havia
pelo menos sete mil lares que, nos anos 20, dependiam dos salários
do industrial. Considerando que cada um de seus empregados tinha
mais quatro bocas para sustentar, chegaram a depender de Matarazzo
cerca de 35 mil pessoas, nada menos que 6% da população
da capital paulista na época.
Com quase 1,90
metro de altura, Francesco Matarazzo era daqueles homens de elegância
nata. Ficava bem em qualquer roupa que vestisse, mas durante a vida
usou poucas coisas que não fossem ternos impecáveis.
A fisionomia era típica dos homens do sul da Itália
(nasceu em Castellabate, a 9 de março de 1854) e a calvície
e o bigode sempre alinhado eram marcas registradas. Além
do porte físico que lhe beneficiava - era difícil
não se resignar diante de homem tão altivo -, impunha
respeito com pouquíssimas palavras. Ninguém acreditava
quando dizia que só concluiu o ensino fundamental. O pai
morreu quando ele tinha 18 anos e, sendo o primogênito, abandonou
os estudos para sustentar a família. No Brasil, encarnou
a figura do "imigrante que deu certo", transformou-se
num mito e foi idolatrado pela colônia italiana, à
qual defendia com unhas e dentes.
No entanto,
ao desembarcar no Rio de Janeiro, em 1881, tinha tudo para se desesperar.
A tonelada de banha de porco que trazia da terra natal para comercializar
aqui afundou com a embarcação que levava a carga do
navio, por puro azar, pouco antes de aportar no Brasil. Sem perspectivas
e com pouco dinheiro no bolso, a única esperança de
se manter vivo era encontrar um velho amigo e conterrâneo,
Fernando Gradino, que vivia em Sorocaba (SP). Meses depois escreveu
para a família que deixara na Itália - a mãe
Mariângela, a esposa Filomena, oito irmãos e dois filhos:
"Abri uma venda em Sorocaba e não procurei, nem jamais
procurarei, ter o que se chama de patrão." Empréstimos
ajudaram-no a abrir o pequeno empreendimento. Na mercearia, as estantes
viviam abarrotadas de produtos de todos os tipos - ele cismava em
importar tudo o que aparecesse. Se a clientela pedisse alguma coisa
que ele não tinha, tratava de arrumar mais que depressa.
Por ironia, o campeão de vendas era a banha de porco importada,
o mesmo produto que ele trouxera da Itália e repousava no
fundo do mar. Era ingrediente de primeira necessidade para a conserva
de alimentos.
"Ele não
estava morrendo de fome na Itália. A idéia de tentar
a sorte demonstra que tinha um temperamento inquieto e visionário",
disse a ISTOÉ Andrea Matarazzo, atual secretário de
Comunicação Social da Presidência da República
e sobrinho-bisneto do imigrante. "Veio obstinado com a idéia
de ganhar dinheiro e estava à frente de seu tempo."
Na rabeira do sucesso de vendas da banha em seu armazém,
decidiu fabricar o produto, já que porcos não faltavam.
O método era simples: bastava um caldeirão no fundo
do quintal para derreter a banha. "O segredo está na
compra e não na venda", dizia o comerciante aos amigos,
com a propriedade de quem sabia negociar no atacado como ninguém.
Comprou quase todos os porcos da região e, além de
baratear a produção, também revendia o animal.
No início, entregava pessoalmente os barris, que eram devolvidos
e repostos após a utilização. Mais tarde, veio
a grande sacada: enlatar o produto.
Intuição
aguçada
O negócio prosperou e, em 1890, suas pretensões já
não ca-biam mais em Sorocaba. Quando partiu para a capital
paulista, já tinha mandado buscar a esposa, os filhos e três
irmãos - Guiseppe, Luigi e Andrea - em Castellabate. A intuição
aguçada de bom empreendedor não lhe abandonava nunca.
Quando a farinha de trigo faltou no País, Matarazzo não
pensou duas vezes. Foi pedir ajuda ao London and Brazilian Bank
para construir um moinho, em São Paulo, e seu faturamento
cresceu absurdamente. Em 1887, a cifra chegava a 20 contos de réis,
e em 1900, possuía 2.020 contos - um crescimento de 9.950%
em 13 anos. Em 1920, ergueu o primeiro grande parque industrial
do Brasil, na Água Branca, zona oeste de São Paulo.
Numa área de 100 mil metros quadrados, reuniu serraria, refinaria,
destilaria, frigorífico, fábrica de carroças,
de sabões, perfumes, adubos e inseticidas, velas, pregos
e outra dezena de indústrias, que funcionavam com a energia
de uma usina própria. Nos anos 30, abriu filiais em Ponta
Grossa (PR), João Pessoa, Rio de Janeiro, Santos e Curitiba.
Dizendo que
o povo de sua terra possuía "inigualáveis força
e capacidade de produção", nove entre dez trabalhadores
que contratava eram de origem italiana. Ele próprio tratava
de provar a tese. Por mais de 30 anos, foi o primeiro a chegar,
às sete horas, e o último a sair da fábrica,
14 horas depois. "Era rígido e tinha comportamento exemplar
para os funcionários. Considerava-se o operário número
um", diz Andrea. Com muito sacrifício, a esposa Filomena
conseguia impedi-lo de sair às cinco para pegar no batente,
argumentando que nem só de trabalho vive o homem. Reza a
lenda que, quase octogenário, numa de suas visitas diárias
às indústrias, o velho ouviu de um operário
a reclamação de que uma ferramenta qualquer estava
inutilizada. Matarazzo resolveu: "Deve haver outra igual a
esta, em estado melhor, naquele armário ali." O funcionário,
duvidando que o chefe conhecesse tanto assim os milhões de
armários de suas fábricas, foi conferir. E encontrou
a peça. Matarazzo tinha uma só explicação
para a proeza: "Intuição." Quem não
sabe o que é dirigir um imenso complexo industrial e milhares
de funcionários durante quase três décadas que
duvide.
Se como administrador
era um exemplo de sociabilidade - perdia tempo proseando com os
empregados e tinha sempre uma história para contar nas reuniões
de diretoria -, como chefe de família não se pode
dizer a mesma coisa. Austero e pouco afável com os 13 filhos,
fazia questão de manter a ordem em casa. A educação
vinha em primeiro lugar e ai de quem ousasse desobedecer o patriarca.
Mas o carisma
não se deixava ofuscar pela eterna braveza. Símbolo
da elite industrial paulista, Matarazzo liderou os empresários
das primeiras décadas deste século. Em 1928, fundou
o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp),
do qual foi o primeiro presidente. No entanto, nunca concorreu a
cargos eletivos - detestava discursar. Nas poucas vezes em que falou
em público, o fez em italiano, mesmo porque nunca quis dominar
o nosso idioma. A ligação com a Itália era
muito maior do que a língua. "Ele teve dois amores na
vida: a pátria onde nasceu e as Indústrias Matarazzo",
disse a ISTOÉ Jorge da Cunha Lima, presidente da Fundação
Padre Anchieta e autor do livro Matarazzo 100 anos. "Foi
por causa da paixão pela Itália que recebeu o título
de Conde." Durante a Primeira Guerra Mundial, o industrial
mudou-se para o país de origem, onde foi ajudar no abastecimento
das cidades mais atingidas. Pelos serviços prestados à
nação, recebeu o título, embora a família,
cuja tradição remonta ao século XII, carregue
a nobreza no sangue.
Acertando
os ponteiros
Se o sangue azul não o fazia sentir-se orgulhoso, também
não o incomodava. Homem de poucas ostentações,
sua única veleidade era a paixão por carros. Há
quem jure que o primeiro Ford a circular na capital paulista foi
o dele, que parava multidões quando circulava. Mas não
surpreendia ninguém, porque o rigor dos horários do
Conde fazia com que os populares soubessem exatamente quando e onde
ele iria passar. A rotina era tão metódica que alfaiates,
barbeiros, sapateiros e comerciantes em geral acertavam os ponteiros
de seus relógios de acordo com as passagens do velho. Figura
folclórica na cidade, foi personagem da célebre frase
"Pensa que eu sou o Matarazzo?", resposta comum que os
chefes de família davam às esposas quando os gastos
passavam dos limites. Pudera, a mansão na Avenida Paulista
estava lá, imponente, numa área de 12 mil metros quadrados,
para quem quisesse ver. No portão principal, o brasão
da família intimidava qualquer um que passasse em frente.
A casa foi demolida nos anos 80 e parte do terreno hoje abriga um
estacionamento.
Ruína
Antes dela ruíra a maioria das indústrias do patriarca.
Os sucessores do Conde, o filho Francisco Júnior e a neta
Maria Pia, não suportaram a concorrência que chegou
com os anos 50. "A falha foi não ter percebido a mudança
no cenário industrial. Era preciso se especializar. De que
adiantava fabricar uma imensa variedade de produtos sem liderar
as vendas de nenhum?", analisa Cunha Lima. Menos mal que o
Conde não viveu para assistir à bancarrota. Morreu
a 10 de dezembro de 1937, aos 83 anos, de uma crise de uremia (bloqueio
repentino da circulação do sangue). Tinha o hábito
de visitar diariamente pelo menos uma empresa de seu império.
E só não conversava com todos os funcionários
porque era tarefa impossível - o exército de trabalhadores
era formado por 15 mil homens, em 365 fábricas, uma para
cada dia do ano. Os operários, numa homenagem ao chefe, acompanharam
o cortejo com uma faixa na lapela onde se lia: "Vida eterna
ao Conde."
VOCÊ
SABIA?
Doou um terreno para a construção do Parque Antártica,
o estádio do Palestra Itália, hoje Palmeiras, que
era seu time de coração.
VOCÊ
SABIA?
Era fã de Mussolini e teve até dois encontros com
o ditador italiano, além de doar gordas quantias aos fascistas
brasileiros.brasileiros
|