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O Brasileiro do Século

EDITORIAL
Número zero da Globo

Contagem regressiva para a TV Globo entrar no ar em 1965. Roberto Marinho exige transmissões experimentais para corrigir eventuais (e muito prováveis) falhas, como o slide publicitário ficar de cabeça para baixo ou a garota-propaganda errar o texto (era tudo ao vivo). Às vésperas da inauguração, descobre-se que um diretor havia registrado em seu próprio nome a maioria dos programas da grade de 14 horas (ousadia sem tamanho, os outros canais se limitavam na época a transmitir seis horas por dia). Dr. Roberto pega o telefone e dita a punição ao infrator: "Comuniquem ao pusilânime que acabo de demiti-lo e não pretendo ter o desprazer de encontrá-lo. Caso ainda esteja aí, quando eu chegar, antes de dizer bom dia chamarei a polícia."

O contratempo não o convenceu a mudar o cronograma. Devido a problemas de última hora (havia séries ainda não dubladas, câmeras não familiarizados com o equipamento, etc.), ninguém acreditava ser possível cumprir a meta. O último argumento foi pedir pelo amor de Deus para reduzir a programação para apenas seis horas. "De jeito nenhum. Faremos força para colocar pelo menos nove horas." A 24 de abril, através de um sistema de microondas, a TV Globo entrou no ar em caráter experimental para só três privilegiados espectadores - o governador Carlos Lacerda, o cardeal Jaime de Barros Câmara e, é claro, o próprio dr. Roberto. No dia seguinte, a experiência se repetiu até azeitar a máquina. Às 11 horas da manhã do dia 26, finalmente, ao som da canção Moon river, entrou no ar para valer. O locutor Rubem Amaral apresentou ao público a nova emissora e, em seguida, começou o programa infantil Unidunitê. A Globo foi a única emissora de televisão do País a produzir um "número zero". Idéia do dr. Roberto, o Comunicador do Século para os leitores de ISTOÉ. "Em algum momento, alguém duvidou que conseguiríamos?", perguntou ele, diante dos subordinados de língua de fora.