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19) Millôr Fernandes
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Era para ter nascido Milton. Assim o chamaram até completar 18 anos, quando ele foi ao cartório tirar a cópia da certidão de nascimento para fazer a carteira de identidade. Descobriu que a mão do escrivão tremera. A barra do t havia se transformado num acento circunflexo e o n final se tornara r. Alterar o documento custaria 300 contos de réis e ele entendeu que não valia a pena. Virou Millôr. A data de nascimento também é motivo de polêmica. Oficialmente, teria vindo ao mundo no dia 27 de maio de 1924, quando foi emitida a certidão. Mas o correto é 16 de agosto do ano anterior. Os pais demoraram a registrá-lo.
Página Três
Apanhando rãs Uma coisa é certa: Millôr Fernandes é do Meyer, subúrbio carioca. "Centro da cidade era coisa remota. Aprendi a nadar nos valões em dias de chuva. A vida era mergulhar e apanhar rãs." O pai, o espanhol dom Paquito, morreu aos 36 anos. Noel Rosa, que era vizinho, foi ao enterro. A mãe, para sustentar as quatro crianças - Millôr era bebê -, se agarrou à máquina de costura. "Passamos da classe média a proletários. Quando minha mãe também morreu, viramos lúmpen."
Órfão aos dez anos de idade, almoçava na casa de tios. Carne era prioridade dos primos. Aos 14, conseguiu emprego na revista O Cruzeiro, onde tio Viola trabalhava na gráfica. Millôr era o quebra-galho da redação. Desenhista, fazia paginação e redigia. "Era uma salinha onde um dia um mulatinho entrou querendo se apresentar na Rádio Tupi. Era Dorival Caymmi." No primeiro aumento de salário, foi morar numa pensão da Lapa. "Nunca vi briga, tiro, soco na cara, malandro. Fiz depois um musical em que Madame Satã (famoso bandido da época) se metia numa briga que era um balé. Tempos depois, Madame Satã deu entrevista contando a briga como se fosse verdade. Esse é o folclore da Lapa."
Em 1944, pilotou a reforma de O Cruzeiro que se tornaria a revista de maior sucesso editorial da época. No auge, vendia 750 mil exemplares. Entre as inúmeras inovações, criou a seção de humor Pif-Paf, que mais tarde ele transformaria num jornal, o primeiro da imprensa alternativa. Humorista, pensador, guru, Millôr não cabe em rótulos. "É o anti-comunicador por excelência", afirma o cartunista Ziraldo, companheiro de O Pasquim. Colaborador de ISTOÉ e do Jornal do Brasil, entre outros veículos, hoje se diz cético em relação ao jornalismo. "Outro dia, uma repórter me ligou para saber o que eu andava lendo. Almanaque Capivarol, respondi. Ela pediu para soletrar!"
Você sabia?
Ostenta o título de vice-campeão mundial de pesca de atum, embora nunca tenha fisgado nem sardinha. Em 1953, estava a bordo de um pesqueiro na Nova Escócia com amigos. "Era um campeonato mundial. Tiro de canhão, nós em alto-mar até o sol se pôr, e nada. Por sorte, só a Argentina pegou um peixinho. Os outros 31 países foram declarados vice-campeões!"
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