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17) Barão de Itararé
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Era um sol de rachar e as cigarras zuniam nos campos do Rio Grande quando o Barão de Itararé desembarcou neste mundo a 29 de janeiro de 1895. "Sou natural de uma estrada gaúcha. Viajava com minha mãe numa diligência quando uma roda teve o aro quebrado. Com todo aquele barulho, nada mais natural que eu me apressasse a sair para ver o que se passava." Aparício Torelly, o nome de batismo, foi o maior humorista brasileiro da primeira metade do século. Virou "nobre" quando os aliados da Revolução de 1930 esqueceram os ideais para abiscoitar cargos públicos em busca de poder. "Fiquei chupando o dedo. Aí proclamei-me barão." Na verdade, o pai era descendente de italiano. A mãe, uruguaia; o avô, americano; e a avó, índia charrua. "Sou uma espécie de Liga das Nações."
Serpente bíblica
Passou a infância no campo até ser internado num ginásio de jesuítas, em São Leopoldo (RS). Na escola, lançou o jornal clandestino Capim Seco, em que comparou o reitor à serpente bíblica. Em Porto Alegre, onde estudava Medicina, numa prova oral, o professor mostrou-lhe um fêmur. "Conhece esse osso?" Ele inclinou-se, cerimonioso, e apertou o osso: "Muito prazer em conhecê-lo." Já militava na imprensa e havia lançado um livro de sonetos bem-humorados, financiado por um fabricante de moedas falsas, quando sofreu um ataque de hemiplegia (paralisia de um dos lados do corpo). O doutor recomendou que procurasse clima mais quente. Em 1925, bateu à porta de O Globo, no Rio. "O que o sr. veio fazer?", perguntaram. "Tudo, de varrer a redação a dirigir o jornal. Creio não haver diferença." Irineu Marinho, dono do diário, ouviu a conversa e reparou que havia um papel saindo do seu bolso. Era uma crônica sobre o governador de Minas que causara escândalo ao ir a um circo de terno branco. No dia seguinte, estava estampada na primeira página de O Globo. Em 1926, fundou seu próprio jornal, A Manhã, que durou até 1952. Não poupava ninguém, de políticos a donos de funerárias, retratados com pose de palhaço ou com olhos estrábicos, calçando chuteiras.
A irreverência lhe custou inúmeras prisões. Em 1934, após ser espancado por oficiais da Marinha, pendurou na porta da sua sala: "Entre sem bater." Em 1936, tropas do governo invadiram a redação e acharam um prato com bife e batatas que ele esquecera de comer há seis meses. Em 1945, elegeu-se vereador no Rio pelo PCB com o slogan: "Mais água, mais leite, mas menos água no leite." Não perdoou nem o líder comunista. Indagado se tinha consultado Luís Carlos Prestes, ele respondeu: "Com Prestes ninguém conversa. Ele fala sozinho."
Barba de espanador
A vida familiar foi tumultuada. A mãe e duas das quatro esposas se suicidaram - talvez, por isso, dizia que "o casamento é uma tragédia em dois atos, um civil e outro religioso." Usava barbas tipo espanador e foi retratado por Portinari, Guignard e Pancetti. Era um frasista inigualável - "O fígado faz mal à bebida", "Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados", "Pobre quando come galinha, um dos dois está doente" etc. Morreu a 27 de novembro de 1971 de complicações da dia-betes, não sem antes advertir: "Há algo no céu além dos aviões de carreira."
Você sabia?
Vegetariano, se alimentava de frutas (principalmente banana) e geléia. Tinha mania de cientista. Em 1928, largou o jornalismo para estudar a febre aftosa. Inventou a biônica, ciência que trata das implicações da biologia com a eletrônica.
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