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O Brasileiro do Século

16) Carlos Castello Branco

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Era um fim de tarde em Brasília e Elvia, mulher do jornalista Carlos Castello Branco, chegava do trabalho. Entrou em pânico diante do alvoroço (pessoas, fios, holofotes e câmeras) dentro de casa. Logo reconheceu o cineasta Glauber Rocha, dirigindo o marido, ator improvisado do filme A idade da Terra. "Você foi o único que conseguiu me dirigir em toda a minha vida", escreveu depois o jornalista a Glauber.

Independente, incorruptível, isento. Estas eram as qualidades principais de Castellinho, como era carinhosamente chamado. Durante décadas, foi o mais influente colunista político do País. Sua "Coluna do Castello", publicada no Jornal do Brasil, a partir de 1963 até sua morte, em 1993, era o café da manhã obrigatório de todos os políticos. Quando o regime militar fechou as portas do debate, Castellinho chamou para si a responsabilidade de discutir os rumos do País. "Naquele período, o Congresso só existiu na minha coluna", disse ele, certa vez.

Em 1969, foi preso e recebeu cartas anônimas com ameaças de morte. A que mais o impressionou trazia a fotografia de Vladimir Herzog (jornalista morto nos cárceres da ditadura) e um recado: "Você será o próximo." Mas quando o presidente Ernesto Geisel pensou em promover a abertura política, foi logo avisado por seu ministro da Justiça, Petrônio Portela, que o País só acreditaria na distensão se Castellinho a anunciasse em sua coluna.

Nascido a 25 de junho de 1920, em Teresina, Piauí, começou a carreira no Estado de Minas, de Belo Horizonte, para onde se mudou aos 17 anos. Em 1943, formou-se em Direito e, dois anos mais tarde, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Trabalhou em O Jornal e no Diário Carioca, onde chamou a atenção como redator da seção de política, especialmente por sua obsessão em preservar a credibilidade. Introvertido, costumava esconder-se num canto em solenidades públicas ou mesmo jantares na casa de amigos. "Era muito tímido. Não me contava nada a respeito dos milhares de homenagens que recebeu. A maioria eu só fiquei sabendo depois que ele morreu, ao remexer no seu baú", disse a ISTOÉ, a viúva do jornalista.

Massagem nos pés
Em 1982, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras. Logo em seguida ele foi internado num hospital ao sofrer um início de infarto. Pediu que os fios que ligavam seu corpo aos aparelhos fossem retirados. "Suspeito que eles tenham sido instalados pelo Serviço Nacional de Informações", comentou, precavido. Nos últimos anos de vida, com a saúde debilitada, passou a trabalhar em casa. Não ia mais ao Congresso, mas o parlamento vinha até ele. "O telefone não parava de tocar", lembra Elvia, que massageava seus pés após o almoço quando ele morreu, vítima de um ataque cardíaco.

Você sabia?
Gostava de dar sapatos à mulher, Elvia. Nem se preocupava se ficariam apertados. Ele mesmo os provava nas lojas sem se importar com os comentários dos vendedores e clientes, que viam aquele homem calçando salto alto. "Se está bom para mim, está bom para a Elvia", costumava dizer.