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O Brasileiro do Século

15) Heron Domingues

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Acampado no estúdio da carioca Rádio Nacional, Heron Domingues, o Repórter Esso, aguardava sôfrego pelo telegrama que confirmaria o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Deveria fazer jus ao apelido a ele atribuído, "o primeiro a dar as últimas" e não arredaria pé da rádio até que anunciasse as boas novas. Após passar Natal, Ano-Novo e Páscoa em alerta, os colegas insistiam para que ele fosse descansar em casa. Aceitou o conselho a contragosto e, para sua decepção, foi em casa que o radialista soube do fim do armistício, pela emissora concorrente. Para consolo, sua credibilidade ressoou: "Se o Repórter Esso ainda não deu, não deve ser verdade", comentava-se pelo País. Só depois que empostou sua inconfundível voz ao microfone é que a notícia ganhou veracidade.

Nascido em São Ga-briel (RS), a 4 de junho de 1924, Heron Domingues transformou-se no mais conhecido radialista do Brasil por acaso. Aos 16 anos, encasquetou com a idéia de ser cantor e foi participar de um concurso de calouros na Rádio Gaúcha, em Porto Alegre. Era um domingo do mês de dezembro de 1941, dia escolhido pelos japoneses para bombardear Pearl Harbour, no Havaí. Na ausência do locutor da rádio, Domingues foi lançado às pressas aos microfones e deu a notícia em primeira mão. Não participou do concurso, mas saiu da rádio empregado. Em 1944, mudou-se para o Rio e passou a trabalhar na Rádio Nacional, onde, no programa Repórter Esso, transmitia a informação "como se estivesse numa trincheira", costumava dizer.

Fôlego boêmio
Em tom alarmista, o radialista foi o primeiro a noticiar vários fatos históricos nos 33 anos de carreira: o suicídio de Getúlio Vargas, a renúncia de Jânio Quadros, a chegada do homem à Lua, o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima. Acreditava que a voz era dádiva de Deus e não se preocupava em preservá-la. Boêmio, ele bebia e fumava em excesso. Depois do expediente, era comum lotar a casa de amigos para notívagos bate-papos. Quando as visitas partiam, virava-se para a esposa, a jornalista Jacyra Domingues, e dizia: "Já faz muito tempo que estou em casa, vamos sair para dançar." Foi o primeiro apresentador de tevê, quando ingressou na TV Tupi, em 1961. Desde 1972, estava na TV Globo, eufórico para anunciar com exclusividade a renúncia do ex-presidente americano Richard Nixon, sem imaginar que seria seu último noticiário. Poucas horas depois, amigos acreditam que Domingues foi vencido pela emoção e por isso morreu dormindo, vítima de um ataque cardíaco, a 10 de agosto de 1974.

Você sabia?
Uma equipe médica estudou a voz de Domingues por dez anos e nenhuma alteração foi observada, um fenômeno. "Bebo e fumo em excesso", disse ele. "Pois continue bebendo e fumando", aconselharam os médicos.