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11) Roquette Pinto
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Quando os netos do radialista Roquette Pinto pediam para usar o banheiro do apartamento do avô, em Copacabana, no Rio de Janeiro, ficavam espantados com as engenhocas amontoadas nas prateleiras. Eram milhares de peças de rádio desmontadas, misturas químicas guardadas em garrafas e ferramentas, além de centenas de livros empoeirados. "Aquilo não era um banheiro, e sim um laboratório", disse a ISTOÉ a neta Vera Roquette Pinto.
Nova coqueluche
Médico, antropólogo, poeta e professor, Edgard Roquette Pinto era, antes de tudo, um apaixonado pelo rádio. Dedicou a vida ao estudo da radiodifusão, tanto em seus aspectos técnicos quanto no que dizia respeito à programação. Carioca, nascido a 25 de setembro de 1884, ele foi criado nu-ma fazenda em Minas Gerais até completar dez anos de idade, quando retornou ao Rio de Janeiro com os pais. Aos 21, formou-se em Medicina e, em 1912, trocou as cirurgias por excursões ao Mato Grosso ao lado do sertanista Cândido Rondon. Via-java pelo simples prazer de desvendar a cultura do interior do Brasil.
Sua vida deu uma guinada radical em 1922, quando se comemorava o Centenário da Indepen-dência do Brasil. A antiga capital federal recebeu naquele ano a visita de empresários americanos que pretendiam demonstrar os avanços da radiodifusão, a nova co-que-lu-che nos EUA. Roquette Pinto deslumbrou-se. Para demonstrar como funcionava o veículo de comunicação, os ame-rica-nos instalaram uma antena transmissora no pico do morro do Corcovado, onde hoje se encontra a estátua do Cristo Redentor.
Logo na primeira trans-missão, o presidente Epitácio Pessoa fez um discurso que foi ouvido na vizinha Niterói, em Petrópolis (na serra fluminense) e em São Paulo, onde foram instalados aparelhos receptores. "Eis uma máquina importante para educar nosso povo", exultou o visionário Roquette Pinto.
Após alguns meses, ele tentou convencer o go-verno federal a comprar to-da a aparelhagem trazida pe-los americanos. Não con--seguiu. Quem a adquiriu foi a Academia Brasileira de Ciências. Surgiu, então, a primeira emissora do País, a Sociedade Rádio do Rio de Janeiro, fundada em 1923 e comandada por Roquette Pinto. Para se trans-formar em ouvinte naquela época, quando o rádio ainda não tinha nem o poder nem a popularidade de hoje, era preciso que a pessoa se cadastrasse junto à emissora, adquirindo um equipamento para ouvir a programação em casa.
Em 1936, os aparelhos passaram a ser vendidos nas lojas e todos tiveram acesso a uma das mara-vilhas eletrônicas do século XX. Naquele ano, a emissora foi doada ao Ministério da Educação e Cultura (MEC). Gustavo Capanema, ministro da Educação do presidente Getúlio Vargas, comunicou que a Rádio Sociedade seria incor-porada ao famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que era o responsável pela censura exercida no período do Estado Novo. Roquette Pinto ficou indignado. Exigiu que a emissora garantisse sua autonomia e preservasse o seu papel essencialmente educativo. Afinal, evitou que o DIP desse as cartas na emissora, mas não conseguiu evitar a emoção de largar o posto. Neste dia, ao deixar o MEC, Roquette Pinto chorou. "Entrego esta rádio com a mesma emoção com que se casa uma filha", mur-murou nos ombros da filha Maria Bea-triz. O esforço do radialista, que foi também imortal da Academia Brasileira de Letras e um dos fundadores do Parti-do Socialista Brasileira, não foi em vão. Até ho-je a- Rádio MEC man-tém seus ideários.
Piquenique no mato
O precursor da radiodifusão no Brasil não acumulou riqueza, apesar de seu pioneirismo. Com o dinhei-ro que juntou, adquiriu um terreno na Barra da Tijuca, onde levava a família para fazer piqueniques no meio do mato e perdia horas contando piadas. Lá, nunca construiu uma parede sequer. Tinha um Ford mo-vido a gasogênio, cain-do aos pedaços, carro que o acompanhou até sua morte, no dia 18 de outubro de 1954. Tinha o hábito de escrever seus pensamentos e deixou algumas definições preciosas do veículo que tanto amou. "O rádio é o jornal de quem não sabe ler, é o mestre de quem não pode ir à escola, é o divertimento gratuito do pobre."
Você sabia?
Era um homem afável e cordial, mas de vez em quando tinha momentos de suprema irritação. Nessas horas, Roquette Pinto costumava dizer: "Vou dar uma roquettada." Todos saíam de perto. Significava que ele estava prestes a rodar a baiana com quem o aborrecesse.
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