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O Brasileiro do Século

10) José Bonifácio Sobrinho

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"O que você quer ser? Locutor ou redator?", perguntou o dramaturgo Dias Gomes, na época diretor da Rádio Clube do Brasil, ao rapazote de 15 anos. "Não me diga que pretende ser rádio-ator?", arriscou, sem muito ânimo. "Não, senhor, eu quero ser diretor", respondeu José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que seria o maestro da programação da Rede Globo, 18 anos mais tarde - entre 1967 e 1996. A vontade era dispensar o novato, mas Dias Gomes não queria melindrar o tio de Boni, dono da editora que publicava a sua obra. "Está bem, então, repara em tudo o que eu faço", consentiu a contragosto. Uma semana depois, entretanto, não aguentava mais a "sombra" que o seguia até no banheiro. "Tinha medo que ele não me ensinasse o pulo-do-gato", disse Boni a ISTOÉ.

Nascido a 30 de novembro de 1935, em Osasco (SP), quando era criança Boni brincava de cineminha em casa com luz de velas e figuras recortadas e coladas num lençol. O ingresso eram palitos de fósforo. O pai, Orlando, dentista, nas horas vagas pegava o violão e virava o seresteiro Caçula, acompanhando calouros do rádio. Se perdeu Caçula cedo, aos sete anos - ele morreu de pneumonia, aos 32 anos - Boni ganhou em troca a ajuda dos tios. A começar pelo nome, que herdou de um irmão do pai, que morreu afogado nas águas límpidas (naquele tempo) do rio Tietê. Aos 12 anos, foi morar no Rio com a tia Sandra Branca, cantora, casada com Zé Hermínio, do conjunto Quatro Azes e Um Coringa, e arrumou emprego de redator do programa Clube Juvenil Toddy, na Rádio Nacional.

Outra tia era dona de um salão de cabeleireiro na capital paulista onde Dalila, mulher do comediante Ma-noel da Nóbrega, aparava as melenas e pintava as unhas. Nóbrega era um caçador de talentos e o contratou, em 1950, como redator da Nacional de São Paulo. Nes-sa época, fazia um bico numa fune-rária. Para economizar aluguel, dormia no papa-defunto. "Passava a noite escrevendo esquetes de humor e, de vez em quando, alguém batia à porta para comprar um caixão." Em 1952, picado pelo cupido da televisão, Boni se transferiu para a Rádio Tupi com a promessa de ser aproveitado na telinha. Nóbrega ficou magoa-díssimo e até colocou o nome de Boni no cachorro que havia ganho de presente do ex-amigo (depois fizeram as pazes). Na TV Tupi, salário seis vezes maior, Boni viveu rápida e frustrada carreira de ator. Não havia videoteipe e o teleteatro era feito ao vivo. Ele era um detetive que elucidava um sequestro ao encontrar a gravata da vítima na casa do sequestrador. Mas o contra-regra esqueceu de colocar a gravata em cena e Boni se arrastou no chão sem saber o que fazer durante 15 minutos. Nunca mais abriu a boca em frente à câmera.

Manda-chuva
Menos mal que, em seguida, concretizou o sonho de ser o manda-chuva na TV Paulista - era diretor de programação. Pena que o salário era pago em pneus e passagens de ônibus. Boni não tinha carro e vendia a mercadoria na primeira esquina. O sufoco o levou para a publicidade. Compôs mais de 300 jingles e criou a vinheta "Varig, Varig, Varig", até hoje a assinatura dos comerciais da companhia aérea. A glória, enfim, alcançaria no canal de Roberto Marinho. O "padrão Globo de qualidade" que Boni inventou e, modestamente, considera apenas um rótulo, nasceu nas noites regadas a uísque em botecos com Walter Clark, que conhecera no meio publicitário. "Juntamos o rígido profissio-nalismo de São Paulo e a descontração carioca." De todas as crias, destaca o Fantástico, o Jornal Nacional e, em especial, o plim-plim, sinal sonoro que separa o filme dos anúncios publicitários. "É a coisa mais ética que há na tevê. Antes, o espectador era jogado no comercial sem se dar conta."

Há três anos, largou o timão (por falar nisso, é corintiano roxo) para ser apenas "consultor estratégico" da Globo. Tem contrato até 2001 e até lá não pode emprestar seu talento à concorrência. No momento, ocupa-se em ajeitar a cobertura para a qual acaba de se mudar, em São Conrado, no Rio, e ouvir os mais de 400 discos de jazz de sua coleção. Cozinheiro de mão cheia, aprecia a sofisticada cozinha francesa, mas não encabula se botar o avental em frente à churrasqueira para servir mais de 40 convidados aos sábados. Só evita ligar a tevê, exceção dos telejornais. "Estou em fase de desintoxicação. Se não, acabo telefonando para os amigos para dar palpite."

Você sabia?
Carrega um hospital portátil consigo - medidor de pressão, balão de oxigênio e até bisturi para emergências. "Hipocondríaco? Não, falso médico." Em Angra dos Reis, socorreu uma menina mordida na boca por um cão. "Pedi ajuda ao vizinho Pitanguy. Ele não estava em casa. Aí limpei a parte necrosada e costurei a ferida. Quando viu, de zero a dez, Pitanguy deu nota dois. Mas salvei a garota de uma gangrena!"