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O Brasileiro do Século

9) Sergio Porto

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Em Santa Catarina, um vereador da cidade de Mafra se fez de ecologicamente correto e propôs que a indústria local só fabricasse fósforos com duas cabeças, para economizar pauzinhos. No Recife, quem tocasse a buzina em zona de silêncio pagava multa de 200 cruzeiros. O guarda flagrou um distraído, que quis pagar a penalidade com uma nota de mil. Na falta de troco, o motorista deu mais quatro buzinadas, ficou quite com a lei e foi embora. Em Mato Grosso, uma pessoa foi encontrada morta às margens do rio, retalhada em quatro pedaços, dentro de um saco. "Ao que tudo indica, a hipótese de suicídio está descartada", concluiu o delegado.

Para reunir tantas esquisitices em sua coluna diária na imprensa carioca, Sérgio Marcos Rangel Porto (nascido a 11 de janeiro de 1923, no Rio de Janeiro) contava com a colaboração dos amigos, que depositavam em sua gaveta na redação frases tiradas de banheiros públicos. Qualquer fato inusitado entrava no Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País), um catálogo de episódios grotescos que faziam rir e pensar.

Banana na sala de aula
É difícil dizer quando Sérgio virou humorista. Talvez nos tempos de colégio (foi expulso duas vezes), na aula em que a professora de anatomia espantou-se ao avistar o esqueleto de cabeça virada para sua mesa, com os braços cruzados, dando-lhe uma solene "banana". Seu Américo convenceu o filho a prestar concurso para o Banco do Brasil e ele virou bancário aos 18 anos. Chegava cedo, fazia logo todo o trabalho e sumia misteriosamente. Descobriram que tirava um cochilo no banheiro, algumas vezes trajando o smoking que vestia em suas noitadas. O fato é que, quando o tio, o jornalista Lúcio Rangel, o convidou para trabalhar no Diário Carioca, nos anos 50, sua veia cômica já estava dilatada.

No Diário, Sérgio adotou o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta (inspirado no personagem Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade) para assinar uma coluna social. A notoriedade só veio na revista Manchete, onde inventou a seção "As mulheres mais bem despidas do ano" - para contrapor "as mais bem vestidas" - em que apresentava as "certinhas do Lalau", beldades da época que desfilavam com o umbigo de fora.

Os amigos diziam que se apaixonava até por manequim de butique. Mas ele avisava: "Ninguém entende de mulher, nem o diabo. Se ele entendesse não tinha chifre." Teve duas esposas, três filhas e inúmeras amantes. "Era um pai severo. Não nos deixava brincar na rua nem dormir na casa de amigas", contou a ISTOÉ a filha mais velha, Gisela. Após 23 anos no banco, pediu demissão e assumiu um ritmo de trabalho frenético. Chegava a passar mais de dez horas datilografando notas para programas de rádio e a coluna no Última Hora, que estreou em 1954. Só se levantava para mudar o disco de jazz da vitrola ou ir ao banheiro (tinha a estranha mania de às vezes urinar na pia e não no vaso sanitário).

De bandeira arriada
À noite, tornava-se galã de tevê - ou "máquina de fazer doido", como preferia chamar - e apresentava suas "certinhas" no programa de Flávio Cavalcanti. Também fazia comentários mordazes sobre política na TV Excelsior. Na hora de dar boa-noite e listar as próximas atrações, certa vez Stanislaw recomendou o filme Os sete pecados capitais, em especial uma cena em que havia um strip-tease num táxi. "Acho que vocês não podem perder. Pelo menos para saber se o motorista fica de bandeira em pé ou arriada." Sérgio encontrava tempo para desbravar madrugadas nos bares. Mão aberta, pagava rodadas e rodadas de cerveja e não se recusava a emprestar dinheiro aos amigos - mas não sabia cobrar. E batia ponto no Maracanã, todos os domingos, para ver seu Fluminense. Era muito pique para um coração frágil demais. O primeiro infarto veio aos 36 anos. "Em casa, cumpria a dieta alimentar e tomava os remédios. Abolimos a banha de porco e passamos a usar só óleo Mazola, que era a última palavra em combate ao colesterol", lembra a filha Ângela. Na rua, porém, a vida lhe reservava fortes emoções. "Não é nenhum tabu que, quando o uísque dele virou xarope, começou a cheirar cocaína", afirma Ângela. Sérgio sobreviveu a outros quatro infartos, até morrer de insuficiência cardíaca, a 30 de setembro de 1968, aos 45 anos. "Prefiro viver assim até os 40 do que vegetar até os 80", dizia.

Você sabia?
Rumo a Buenos Aires, o avião fez escala em Assunção. Entrou uma autoridade fardada, quepe imponente, medalhas no peito, e começou a percorrer as fileiras exigindo o atestado de vacinação: "Vacunaciones, señor." Sérgio levantou-se da poltrona e apertou firme a mão do homem: "Vacunaciones para usted también!"