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4) Julio Mesquita
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Um dos colegas de Julio Mesquita na escola primária, em Campinas, não tinha dinheiro nem para comprar sapatos. De tão pobre, o menino andava para cima e para baixo com a mesma bota furada. Impressionado, Julio reuniu os amigos de turma, promoveu uma coleta e conseguiu os 12 mil réis que o garoto desabonado precisaria para comprar sapatos novos. Como se não bastasse, ainda passou a arrecadar na escola, mensalmente, dinheiro para ajudá-lo nas despesas em casa. Graças ao gesto generoso de Julio, o amigo conseguiu terminar o ensino fundamental.
Neto do capitão Monteiro, um português que chegou ao Brasil com a corte de dom João VI, Julio César Ferreira Mesquita nasceu em Campinas, a 18 de agosto de 1862, mas nem a origem nobre e a infância abastada do menino fizeram dele um homem conformado com o mundo à sua volta. Abolicionista e republicano, foi uma pedra no sapato da nobreza desde os tempos de estudante de Direito no Largo de São Francisco, na capital paulista, quando invadia fazendas para libertar escravos na calada da noite e provocava a ira dos grandes fazendeiros. Mais tarde, na direção do jornal A Provincia de São Paulo, seus temidos artigos e editoriais fizeram estremecer os poderosos. Pelas mãos de Mesquita, o pequeno tablóide, que nasceu para lutar pela causa republicana, transformou-se no poderoso O Estado de São Paulo. Em fins do século passado, chegou a vender dez mil exemplares, um número exorbitante para a época.
Quando ganhou o canudo de bacharel, em 1883, abriu um pequeno escritório de advocacia em Campinas. Embora saindo vitorioso em algumas poucas causas, não se entusiasmou com a profissão que escolheu. Um colega, que além de advogar também dirigia a Gazeta de Campinas, o convidou a colaborar com artigos mensais. Ele gostou da nova função e se transferiu para São Paulo, ao lado da esposa, Lúcia de Cerqueira Cesar, determinado a mudar de vida: iria trabalhar como jornalista. Colaborando esporadicamente com A Provincia de São Paulo a partir de 1885, no início apenas assinava alguns artigos, mas um ano depois assumiu o cargo de redator político na redação. Em 1888, virou sócio do jornal e, dois anos depois, mudou o nome para O Estado de São Paulo.
"Não confundir o leitor"
Dando ênfase às notícias internacionais, econômicas e literárias e publicando fotografias na primeira página - coisas que nenhum outro jornal fazia até então -, Mesquita inaugurou uma nova fase no jornalismo do País. A fama veio rápido e ele chegou a ser o vereador mais votado de Campinas, pelo Partido Republicano. Nas páginas do tablóide, decidiu virar mais um anônimo. Mesmo escrevendo em quase todas as seções, não assinava nenhuma matéria. A intenção era, como diria mais tarde, "não confundir o leitor: minha opinião é minha opinião, a do jornal é outra coisa". No aniversário de 48 anos, os amigos reuniram num livro algumas de suas crônicas publicadas no Estado. Gentilmente, recusou o presente dizendo que elas saíram sem assinatura e, por isso, pertenciam ao jornal, e não a ele. Sem mais delongas, mandou recolher todos os exemplares do livro que estavam à venda.
Com a saúde fragilizada, em 1887 partiu para a Europa atrás do melhor tratamento. E nem doente deixou de colaborar com o Estado, que recebia suas crônicas de viagem sem atraso. De Lisboa, enviou artigos sobre temas que vão desde críticas literárias a análises de conjuntura política. Quando chegavam em terras tupiniquins, os textos eram submetidos à rígida leitura dos colegas de redação. Escrevendo a galope e num fôlego só - coisa de quem tem o raciocínio tão rápido que os dedos não conseguem acompanhar -, Mesquita não relia nenhuma frase. Além do mais, se fosse preciso cortar algumas linhas, era melhor que outro o fizesse, porque ele mesmo não tinha coragem de sacrificar o próprio texto. "Temos que reconhecer que isso não é uma República, ou melhor, a República não é isso", escreveu depois de se frustrar com o regime que ajudou a instaurar.
Liberal por excelência e defensor da democracia plena, embora tenha ocupado, por alguns meses, o cargo de secretário-geral do novo regime, não pensou duas vezes antes de levar a cabo, ao lado do companheiro Ruy Barbosa, uma campanha contra o Marechal Deodoro nas páginas do Estado, decepcionado com o governo do primeiro presidente. Também não hesitou em liderar a dissidência republicana, em 1902, que se posicionou contra os desmandos das oligarquias.
Livre pensador
O aguçado faro jornalístico de Mesquita deu ao País obras-primas da literatura brasileira. A população paulistana soube dos detalhes do massacre de Canudos através dos relatos de Euclides da Cunha, repórter do Estado e a cobertura resultou em Os sertões. Como não poderia deixar de ser, na última nota que Mesquita escreveu para o jornal, elogiava a criação do Partido Democrático. Morreu, aos 65 anos, a 15 de março de 1927, deixando O Estado de São Paulo nas mãos dos filhos Francisco e Julio de Mesquita Filho. Alguns anos antes, num discurso, definiu-se: "Sou um livre pensador, sempre o fui e espero morrer assim."
Você sabia?
Envolvia-se em polêmicas com outras publicações. Para rebater seus argumentos, um dos jornais concorrentes contratou um redator quase tão brilhante quanto ele. Por acaso, encontrou o rival: "Por favor, escreva diariamente. Eu ganho por artigo e preciso de dinheiro." Mesquita atendeu ao pedido para ajudar o pobre colega.
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