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O Brasileiro do Século

2) Assis Chateaubriand

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Primeira noite de núpcias. A esposa começou a desfazer as malas e espantou-se com a desorganização de Chateaubriand. Entre as roupas amarrotadas, descobriu três camisolões e uma inusitada touca presa por um elástico, semelhante a um pequeno coador de café. "Os camisolões eu uso desde garoto, são mais confortáveis que qualquer pijama", avisou Chatô. "A queixeira é para manter a boca fechada e evitar o ronco." Esmiuçando mais, Maria Henriqueta encontrou dez lápis pretos e várias resmas de papel. Nem era preciso dar explicações. Sem a menor aptidão para aprender datilografia, ele usou aqueles instrumentos rudimentares para escrever, durante meio século, a coluna diária que publicava no influente império dos Diários Associados.

Ao mesmo tempo genial e maquiavélico, Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (nascido a 4 de outubro de 1891, em Umbuzeiro, Paraíba) foi gago até os dez anos de idade. Inexplicavelmente curado, mudou-se para o Recife. A vergonha do corpo não o permitia sequer um banho de mar. Magrela, mal passava o metro e 60 de altura. A estréia no jornalismo aconteceu aos 15 anos, na Gazeta do Norte. Não demorou a suscitar polêmicas com figurões da cidade em textos ferinos. Os artigos começaram a ecoar no Rio de Janeiro e seu no-me ficou ainda mais conhecido quando venceu um concurso para lecionar Direito.

Ameaça paraibana
Logo ele abandonou o projeto de dar aulas e se tornou um jovem respeitado nas redações cariocas. Mas continuou se dedicando aos tribunais durante três anos. Juntou dinheiro, acumulou contatos e, em 1924, comprou O Jornal. Substituiu artigos soníferos por reportagens instigantes e deu certo. No ano seguinte, Cha-tô arrebatou o -Diário da Noite, de São Paulo. A ética quase nunca constava da tática para cres-cer. Chantagiava as empresas que não anunciassem em seus veículos e mentia descaradamente para agredir os inimigos. Farto de ver seu nome na lista de insultos, o industrial Francisco Matarazzo Jr. ameaçou "resolver a questão à moda napolitana: pé no peito e navalha na garganta." Chateaubriand devolveu: "Responderei com métodos paraibanos, usando a peixeira para cortar mais embaixo."

A essa altura, já tinha o jornal líder de mercado na maioria das capitais brasileiras. Em 1935, ele entrou na era do rádio, inaugurando a Tupi de São Paulo. E, em 1949, trouxe a novidade revolucionária com que se encantara no Exterior: a televisão. Na semana da primeira transmissão, convidou os homens mais influentes do País para um bufê, mas mandou servir guaraná e pão com mortadela para todos. Quem quisesse pratos finos que desembolsasse milhares de cruzeiros. O dinheiro iria para a compra de quadros -, o Museu de Arte de São Paulo, seu grande devaneio, estava funcionando havia dois anos.

Chateaubriand cansou de negociar empréstimos - evidentemente nunca pagos - com os presidentes Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra. Elegeu-se senador duas vezes e só deixou o cargo para ocupar a Embaixada do Brasil em Londres, em 1957. Ao encontrar o ex-primeiro-ministro Winston Churchill, sacou da valise de couro um chapéu de cangaceiro e o sagrou "Cavaleiro da Ordem do Jagunço".

Pés de barro
Quando Chatô foi internado em 1960, com trombose, o gigante começou a mostrar que estava apoiado em pés de barro. Sem o velho capitão por perto -, tetraplégico, ficara condenado a uma cadeira de rodas -, despencaram as vendas da revista O Cruzeiro, que no auge atingiram 800 mil exemplares. Os jornais atolavam-se em dívidas e trocavam as grandes reportagens por matérias pagas. O império se esfacelava e Chatô assistia ao surgimento do reinado de Roberto Marinho. Convenceu o Congresso Nacional a abrir uma CPI sobre o que entendia ser um empréstimo fraudulento obtido por Marinho junto ao grupo americano Time-Life para viabilizar a Rede Globo. Partiu para o ataque pessoal e xingou o rival de "cafuzo, crioulo e mameluco". Chegou a sugerir que Marinho fosse submetido a um processo sumário e enviado para a ilha de Fernando de Noronha, onde ficavam os presos políticos e os corruptos "com a cabeça raspada". Esperneou em vão. Morreu a 4 de abril de 1968, deixando seu maior patrimônio, os Diários e Emissoras Associados, para um grupo de 22 funcionários.

Você sabia?
Pregava os olhos no meio de discursos solenes e espetáculos teatrais. Para evitar vexame, alertava o secretário: "Enquanto for apenas um cochilo, deixe-me dormir em paz que eu acordo logo. Quando começar a roncar muito alto, chute minha canela sob a mesa."