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O Brasileiro do Século

1) Roberto Marinho

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Na porta do gabinete bem poderia estar pregada a tabuleta: "Sr. Poder." Afinal, lá dentro, está o dono de um patrimônio pessoal avaliado em mais de US$ 1 bilhão e de um império empresarial com faturamento anual de US$ 5,7 bilhões, incluindo a mais importante emissora de televisão da América Latina e uma das cinco principais do planeta. Sozinha, ela abocanha R$ 6 de cada R$ 10 do mercado de publicidade no País. A ele, se atribui a capacidade de eleger presidentes e indicar ministros da Fazenda. No entanto, sentado à mesa do escritório, com os jornais e as revistas da casa à sua frente, espiando um monitor de tevê permanentemente sintonizado nos canais de sua propriedade, ele apenas sorri, encabulado. "Não creio que eu seja o homem mais influente do Brasil. Admito exercer influência, o que faço sempre com vistas ao bem de meu país."

Alçado às alturas
De bom humor, levanta-se com a agilidade de um rapaz e senta-se em frente à janela que espelha a paisagem ofegante da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio de Janeiro. É do ramo. "Estou bem? Precisa mais alguma coisa?", pergunta ao fotógrafo, exalando paciência e profissionalismo. Ninguém se engane: a boa vontade é inerente, mas dr. Roberto vive num mundo inacessível para os simples mortais. Ele ainda sobe toda a manhã ao quinto andar do edifício de O Globo e, à tarde, pode ser encontrado no décimo pavimento da Rede Globo, a rotina de trabalho duro e infatigável que cumpre há mais de 70 anos. Não que precisasse. Em seu Olimpo, bastaria estar entregue às lembranças de uma trajetória inapelavelmente vitoriosa. Quando se chega perto dos 95 anos (o carioca Roberto Marinho nasceu a 3 de dezembro de 1904) alçado às alturas, a memória é um tapete voador do qual se olha tudo lá embaixo com a leveza e a liberdade de uma criança. O tempo vai e vem, estica e encolhe. E dr. Roberto tem muito o que lembrar. O holofote da memória ilumina a manhã fria de agosto, em 1925, quando os berros da mãe - dona Francisca, descendente de italianos - o despertaram às 6 da manhã. Ele pulou da cama e, ao passar pela sala, viu de relance a mesa posta para o café. A mãe estava aos prantos junto à porta do banheiro. Seu Irineu, o pai, de sangue português, que 25 dias antes havia fundado O Globo, sofria dos rins e, para aliviar a dor lombar, tomava banhos quentes. Não era costume trancar-se, mas aquele dia virou a chave com medo de a empregada entrar inadvertidamente. "Botei a cadeira e pulei pela bandeirola (abertura acima do portal). Fui ao chão, me escorando. Papai estava morto na banheira", lembra dr. Roberto. Vítima de infarto, o pai deixou como herança o jornal que acabara de fundar e dívidas, muitas dívidas.

Dr. Roberto, o mais velho dos cinco filhos, herdou o bastão do vespertino (O Globo só passou a circular pela manhã nos anos 60), mas preferiu observar tudo o que fazia Euricles de Mattos, homem de confiança do pai, até sentir-se seguro para tomar as rédeas, em 1931. Antes, viveu a primeira experiência com o poder. Deposto pela Revolução de 1930, o presidente Washington Luís estava preso no Forte de Copacabana. No xadrez, foi vigiado por um jovem que prestava serviço militar. "Eu me identifiquei, mas achei antiético tentar uma entrevista", conta dr. Roberto. Mas, quando um fotógrafo de O Globo se aproximou de Washington Luís, um capitão tentou barrá-lo e foi impedido pelo audaz recruta. Dr. Roberto abraçou o capitão e o ergueu 30 centímetros acima do chão, enquanto o colega do jornal cumpria sua missão.

"Não temos privilégios"

A convite de ISTOÉ, os filhos de Roberto Marinho - os vice-presidentes das Organizações Globo Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto - analisam a escolha do pai como o Comunicador do Século:

Roberto Irineu: ISTOÉ nos fez uma série de perguntas. Achei melhor nos reunirmos para que as respostas nascessem de uma conversa a respeito da sua personalidade, mesmo quando possa haver divergência de opinião. Eu estudei História do Brasil e não vejo na comunicação alguém tão merecedor deste título.
José Roberto: Sempre detestou ser chamado de empresário. O único título que aceita é o de jornalista. João Roberto: Bem, mas não pode negar o sucesso das empresas dele, que se deveu às características de sua personalidade. Para mim, a principal foi o equilíbrio.
José Roberto: Não acho. A principal foi a determinação. É um empreendedor de vontade de aço.
Roberto Irineu: Nunca quis ficar sem concorrente, mas ao mesmo tempo se empenhou em derrotar os adversários. Atribuo isso ao esportista que ele é. Ao fim de cada prova, estendeu a mão ao derrotado.
ISTOÉ: E como pai, como ele é?
João Roberto: Sempre tive o dom, desde menino, de compreendê-lo. Confiei que no fim ele perdoaria e esqueceria meus erros. Mas era uma parada dura de roer.
José Roberto: Tem senso de humor. É carinhoso. Tem incrível capacidade de perdoar, mas exige respeito. Ninguém ousa chegar perto dele, seja filho, amigo, funcionário, o que for, que não seja respeitosamente.
Roberto Irineu: Vocês entraram diretamente como repórteres em O Globo. Eu, primeiro como gráfico, depois como repórter. Nenhum de nós teve privilégios. Digo mais. Se o exigíssemos seria duplo erro. Criaria um ambiente detestável entre os colegas e, se Roberto Marinho soubesse da exigência, proibiria que ela fosse atendida. A partir daí, quem se chocasse com ele sofreria um verdadeiro desastre.
José Roberto: Na verdade, não nos dava aulas nem roteiros. A experiência nos foi passada por horas e horas de conversas inesgotáveis em que cada palavra era incorporada ao nosso patrimônio profissional.

Bofetes no censor
O físico era de atleta. Quando jovem, praticava o boxe - depois, saltou na hípica e aderiu à pesca submarina. Nos anos 30, em pleno Estado Novo, exerceu os predicados de boxeador na redação. Um censor atrevido ousou vetar o editorial. Dr. Roberto lhe desferiu duas sonoras bofetadas. Logo corriam boatos de que pedira asilo na embaixada italiana. Ninguém supunha que estivesse jogando bilhar no boteco ao lado da redação. Nessa época, comia no bar do Gentil, nos fundos da oficina. Certo dia, percebeu que, em vez de partir o bife, Gentil cortou uma barata. Passou a almoçar em sua mesa de trabalho, hábito que cultivou por décadas. "Comida para ele é peixe. Mas acha que o melhor cozinheiro é o que sabe fazer uma omelete impecável", disse a ISTOÉ o advogado Jorge Serpa, amigo há 40 anos.

A redação era um salão sem divisórias. Às vezes, ele levantava e chamava um subordinado em voz alta. "Era o comandante do navio em meio aos marujos", lembra Antonio Olinto, colega de fardão (dr. Roberto entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1993) e de redação por 25 anos. Para modernizar o jornal, comprou uma rotativa gigante e ruidosa contra a opinião de seu tesoureiro, Herbert Moses. "Não cometa a imprudência!", ralhou ele. "Vocês já esconderam um elefante no armário? Eu ocultei do dr. Moses a rotativa durante três anos!", conta dr. Roberto

Paixão platônica
Não faltou ousadia também quando reuniu os irmãos e comunicou que ia comprar um canal de tevê - já era bem-sucedido no rádio. Acharam maluquice. "Vocês não entenderam. Vou entrar nessa sozinho." Assim, dr. Roberto, os três filhos (perdeu outro, Paulo Roberto, em acidente de automóvel nos anos 60), nove netos e dois bisnetos são os únicos donos da Rede Globo. Casado, pela terceira vez, com Lily de Carvalho Marinho -- 16 anos mais jovem, foi Miss França em 1938 e era uma paixão platônica da juventude -, dr. Roberto dedica-se ao acervo de 700 obras de arte e à coleção de flamingos ( o mais belo par foi presente de Fidel Castro). Sua felicidade contagia os adversários mais encardidos. "O fato de se apaixonar nessa idade e arriscar uma vida nova com a dona Lily, perdendo patrimônio ao se divorciar, é um ato de coragem admirável. Que coisa linda!", disse a ISTOÉ o ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola.

Você sabia?
"Por favor, me ajude a escolher um ministro da Fazenda", pediu o presidente José Sarney ao telefone. Dr. Roberto voou num jatinho para Brasília. Sarney sugeriu que entrevistasse o economista Mailson da Nóbrega e depois opinasse sobre o candidato ao cargo. Quando o presidente e o dr. Roberto chegaram a um consenso de que Mailson era boa opção, Sarney pediu um último favor: "Agora, dê a notícia no Jornal Nacional".

Você sabia?
Inventou o Dia dos Pais. Havia o Father's Day, comemorado em julho nos Estados Unidos até hoje. Em 1953, para incentivar as vendas do comércio e, por tabela, o faturamento publicitário do jornal, preferiu 16 de agosto, dia de São Joaquim, suposto pai de Nossa Senhora. Era bom porque ocupava o vazio entre o Dia das Mães e o Natal. A partir do ano seguinte, os comerciantes solicitaram que a data fosse fixada no segundo domingo de agosto.