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O Brasileiro do Século

8) Euryclides de Jesus Zerbini

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Um ato de violência deixou o dr. Zerbini aborrecido. O crime aconteceu em Guaratinguetá, interior de São Paulo, no final dos anos 80. Chico sumiu da fazenda e foi encontrado morto. O inquérito apontou como assassino um impiedoso caçador da região. Chico, na verdade, era um porco-do-mato e um dos animais de estimação preferidos do médico, a exemplo do ganso Nicola ou do bode anônimo que ainda hoje insiste em meter a cara nas conversas alheias. Lá, Zerbini costumava passar os fins de semana. Estirava-se numa rede, repousava algumas horas e, quando acordava, dizia: "Pronto, agora estou descansado e posso dormir de novo!"

Fôlego de gato
Se o ambiente parece bucólico e a rotina, pacata, tome fôlego para conhecer o dia-a-dia de Zerbini. Morando na capital paulista, às seis e meia da manhã, estava de pé pronto para tomar o rumo do Instituto do Coração. Ficava em reuniões até as nove e meia, quando batia ponto no Hospital Beneficência Portuguesa, onde fazia cerca de quatro cirur-gias cardíacas por dia. Com um suco de laranja e uma maçã para driblar a fome, depois do almoço voltava a operar e só chegava em casa às nove da noite. Aí começavam suas leituras sobre o corpo humano, sem hora para terminar. "Meu pai dizia operar por diversão, nunca tirou férias e trabalhou pelo menos 12 horas por dia durante 50 anos", afirmou a ISTOÉ o filho Ricardo.

O cardiologista nasceu prematuro, de sete meses, a 7 de maio de 1912, em Guaratinguetá. "Parecia um ratinho. Disseram que ele não ia sobreviver", conta Eunice Zerbini, 95 anos, irmã do médico. O pai, imigrante italiano apaixonado pela cultura clássica, batizou o filho caçula de Euryclides - os outros se chamavam Eurídice, Eurípides e Euryale. O jeito linha-dura de seu Eugênio fazia Zerbini devorar os livros. Mas terminou o colégio sem descobrir a vocação. "Você vai ser médico", sentenciou o pai. No início da faculdade, assistiu a uma operação sanguinolenta e pensou em desistir. Até que estourou a Revolução Constitucionalista de 1932 e ele se apresentou como soldado. "No front de batalha, ouvi falar sobre um médico que fazia um magnífico trabalho atendendo os feridos", explicou certa vez. "Fui conhecê-lo e tomei gosto pela cirurgia." Ainda bem.

Numa manhã de 1942 em que dava plantão na Santa Casa da capital paulista, Zerbini viu chegar um menino em estado de coma. O moleque havia ido brincar na oficina mecânica do pai, pegou um martelo e saiu dando golpes nas latarias. De repente, um estilhaço de ferro penetrou seu coração. Para espanto dos colegas, Zerbini abriu o peito do menino, estancando a hemorragia interna. "Carrego até hoje a lasca de ferro no peito, mas nunca tive problemas. Devo minha vida ao dr. Zerbini", disse a ISTOÉ o mecânico aposentado Disnei Zanolini, hoje com 64 anos.

Primeiro transplante
Na época, o coração era um tabu entre os cirurgiões. O pioneirismo da operação garantiu a Zerbini seis meses de estudos nos Estados Unidos. Voltou craque em cirurgia cardía-ca. Em 1968, virou o grande mestre da medicina ao realizar o primeiro transplante de coração da América Latina. Preocupado com a formação de seus alunos na Faculdade de Medicina da USP, idealizou e dirigiu por sete anos o Instituto do Coração (Incor), em São Paulo.

Trabalhador obsessivo, Zerbini aumentou ainda mais sua jornada a partir de 1977. Foi quando o único dos três filhos que resolveu seguir a carreira de médico morreu em um acidente automobilístico, seis dias após a formatura. Abatido, suas diversões tornaram-se escassas. Uma delas era jogar tênis, esporte que praticava todas as terças-feiras. Quando um câncer de pele o acometeu, ele avisou: "Logo serei imbatível no tênis, jogando no céu com aquelas asinhas." No entanto, dizem que o médico só ganhava uma partida se atuasse em dupla - sempre colocavam o melhor tenista do clube ao seu lado. Revoltado com as notícias de corrupção, diagnosticava: "A pior doença do brasileiro é a moral." Euryclides de Jesus Zerbini morreu a 23 de outubro de 1993, aos 81 anos, em plena atividade. Depois da comoção, a família se viu às voltas com outro problema: o que fazer com a imensa biblioteca especializada da casa do médico? Encheram três ambulâncias e doaram quase todos os livros para o Incor. O destino não poderia mesmo ter sido outro.

Você sabia?
Um programa de tevê perguntou a diversos famosos o que gostariam de ganhar no Natal. "Um Ferrari", disse o primeiro. "Um iate", pediu outro. Zerbini lembrou um produto indispensável em seu café da manhã: "Quero um vidro de mel, que eu adoro." Recebeu tantos potes que formou estoque para o resto da vida.